Um Relatório de Análise Estratégica do Gabinete de Informação Financeira de Moçambique (GEFiM) revela que empresas que actuam no sector de agenciamento de viagens e turismo tem servido de lavandarias de dinheiro ilícito, tendo movimentado, por dia, pelo menos 24 milhões de Meticais em depósitos em numerário, entre os meses de Janeiro do ano 2022 e Setembro do ano 2025, sendo que os valores foram posteriormente transferidos para as contas bancárias de uma organização internacional.
De acordo com o Relatório consultado pela “Carta”, o GEFiM analisou, durante 45 meses, um total de 83 comunicações de operações suspeitas, quatro comunicações de actividade suspeita, 1.526 transacções de informação adicional, 68.739 transacções de limiares e Relatórios de Informação e/ou Inteligência Financeira, tendo apurado um montante de 58.258.763.435,45 Meticais, correspondente ao montante creditado nas contas bancárias tituladas por uma Organização Internacional.
Segundo o GEFiM, as agências de viagens e turismo têm estado a transaccionar avultadas somas de dinheiro, de forma fraccionada, através transferências bancárias e depósitos em numerário, atingindo o montante de 24 milhões de Meticais por dia (em depósitos), sendo que os valores são posteriormente transferidos para contas bancárias de uma Organização Internacional, “presumindo-se assim, que se esteja a efectuar pagamentos ilícitos, que não resultam da prestação de serviços resultantes do objecto social daquele sector de actividade económica, com a intenção de introduzir fundos de origem ilícita no sistema financeiro, e seguidamente exportar ilicitamente os mesmos por via deste organismo internacional”.
O GEFiM explica que a análise das agências de viagens e turismo deveu-se ao facto de estas terem registado depósitos de somas avultadas em numerário, tratando-se de um sector que deveria registar transacções maioritariamente com recursos a transferências electrónicas, cheques e pagamentos via POS, segundo a instituição. “Este facto levantou suspeitas sobre a real origem dos fundos, adicionado ao facto destes terem sido transferidos na sua maioria para o mesmo beneficiário, designadamente, uma Organização Internacional”.
Do trabalho de análise realizado, diz o Relatório, pontificaram cinco agências de viagem e turismo, sendo que grande parte delas constam de Relatórios de Inteligência Financeira disseminados pelo GIFiM, “tendo em comum um perfil transaccional similar, sendo que,em conjunto, no período entre Janeiro de 2022 e Setembro de 2025, transferiram cerca de 28.609.872.908,28 MT, o correspondente a 49% (quarenta e nove por cento), dos valores movimentados por todas as agências de viagem e turismo envolvidas no presente relatório”.
A entidade responsável pelo combate ao branqueamento de capitais sublinha que várias agências de viagens e turismo usaram contas bancárias particulares, dos seus empregados incluindo de gestores seniores, para efectuarem pagamentos de somas avultadas para as contas bancárias tituladas pelas referidas agências de viagem e turismo, supostamente relacionadas com a actividade operacional destas entidades, facilitando desta forma a ocultação desses rendimentos às autoridades fiscais e dificultando a identificação da real origem dos fundos.
“Registaram-se transacções de cidadãos estrangeiros, de nacionalidades consideradas de alto risco e cujos negócios também são considerados de alto risco, a favor de cidadãos nacionais, presumindo-se que estes tenham sido usados como veículos e/ou ‘testas de ferro’, sendo que, por sua vez, transferiram parte considerável destes fundos a favor das agências de viagem e turismo e, finalmente, estas canalizaram os referidos fundos a favor de uma Organização Internacional, que posteriormente os transferiu para o estrangeiro”, detalha a fonte.
Traçando o perfil das entidades suspeitas, o GEFiM diz que o esquema envolve empresários, gestores de agências de viagens, estrangeiros, funcionários de baixo escalão e até pessoas politicamente expostas, algumas com cargos no Estado moçambicano. As empresas visadas estão na Cidade de Maputo e nas províncias de Nampula e Cabo Delgado.
O GEFiM diz que as agências de viagem “aproveitaram-se das vulnerabilidades, inerentes ao uso de numerário para o pagamento de serviços relacionados com viagens e turismo, com o intuito de introduzirem fundos no sistema financeiro, provavelmente de origem ilícita”.
A entidade suspeita que tenham sido praticados os crimes de branqueamento de capitais; fraude fiscal e outros crimes tributários; falsificação de documentos com o intuito de exportar ilicitamente capitais; bem como outros crimes que só a investigação poderá identificar. Igualmente suspeita a prática de outros crimes conexos, como é o caso de corrupção, tráfico ilícito de estupefacientes e de substâncias psicotrópicas e associação para delinquir.
Lembre-se que, entre Outubro de 2022 e Outubro de 2025, Moçambique esteve na “lista cinzenta” do Grupo de Acção Financeira Internacional (GAFI) devido à sua ineficiência no combate ao branqueamento de capitais. O país só saiu da lista após cumprir um conjunto de 26 recomendações deixadas pelo GAFI.





