Há dias telefonei para reservar uma sala num dos nossos centros de conferências, por estes dias tão solicitados. A senhora pediu-me alguns minutos para verificar a agenda. Do outro lado da linha, percebi que folheava um caderno de compromissos e suspirava como quem descobre, página após página, que o país inteiro decidiu reunir-se exactamente na mesma quinzena.
Regressou pouco depois com a serenidade de quem anuncia uma previsão meteorológica. – Professor, lamento muito, mas, para este ano, já não temos uma única data disponível. Eu até julguei que ela estivesse equivocada. Afinal, não estava a pedir o Estádio Nacional para a final da Taça de Moçambique. Era apenas uma sala pequena, de preferência com ar condicionado que funcionasse e um projector que não pedisse desculpa de vinte em vinte minutos.
Desliguei o telefone e lembrei-me de Filipe Mata, cronista maior da saudosa Revista Tempo. Escrevia que, depois da independência, criámos tantos chefes, dos grupos dinamizadores às comissões, dos secretários aos coordenadores, que seria impossível realizar uma reunião nacional com todos eles no mesmo local. Nem o maior estádio do país conseguiria acomodá-los.
Hoje, talvez, fosse obrigado a actualizar a crónica. Adoptaria um estilo próximo do amigo Juma Aiuba, do Sérgio Raimundo Militar, do Mia Couto, do Areosa Pena ou, quem sabe, até do radiofónico Arune Valy, lá das margens do Zambeze. Só eles, suspeito, teriam paciência e ironia suficientes para descrever o que se passa hoje nos nossos hotéis e centros de conferências, todas as manhãs de segunda a sexta, e por vezes também aos sábados, para o desespero das famílias.
Os chefes, esses, continuam muitos, espalhados da base ao topo. Verdadeiros conglomerados de chefaturas, subchefaturas e chefaturas adjuntas. A diferença é que agora, não importa o dia ou a hora, andam todos ocupados em conferências. Aproveitam para sonecar discretamente atrás de óculos escuros, verificar o telemóvel por baixo da mesa e beber café gratuito reforçado com bolinhos ou salgados.
Vivemos uma época extraordinária. Há conferências distritais, nacionais, regionais, internacionais, provinciais, científicas, estratégicas, técnicas, multissectoriais, de harmonização, validação, reflexão, concertação, auscultação, capacitação e sensibilização. Muito em breve, teremos uma Conferência Nacional sobre o Crescimento Exponencial das Conferências. Já ouço o nome completo: Conferência Nacional Multissectorial de Alto Nível para a Harmonização Estratégica da Proliferação de Conferências, rumo a uma Visão Integrada e Sustentável.
Será precedida por uma reunião preparatória, uma reunião de coordenação da reunião preparatória e, se o orçamento permitir, um workshop de capacitação dos facilitadores. Depois virão a validação das conclusões, a disseminação dos resultados e uma retrospectiva para avaliar se a validação foi, de facto, validada. Há um velho adágio popular que diz que “a árvore não cresce porque nos reunimos à sua volta”. Talvez nunca tenha sido tão actual. Não deixa de ser curioso.
Somos um país onde um problema raramente caminha sozinho. Leva atrás de si um seminário, um painel, um grupo de trabalho, uma mesa-redonda e uma conferência internacional, geralmente com tradução simultânea e um parceiro de cooperação a financiar os coffee-breaks. O problema chega primeiro e senta-se na primeira fila. A solução fica lá fora, pede autorização para entrar e, às vezes, nem chega a ser anunciada no programa.
Começo a suspeitar que existe uma economia silenciosa sustentada pelas nossas reuniões. Prosperam os centros de conferências e os hotéis com pacotes de meia diária e diária completa. As empresas de catering trabalham sem descanso, entre samosas, croquetes e sumos naturais que nunca são assim tão naturais. Os fabricantes de crachás, blocos, canetas, pastas, roll-ups e camisetes também agradecem. Nasceu uma indústria de “kits do participante”, com o logótipo do parceiro em destaque e o do Governo, discretamente, ao lado.
Cada conferência procura superar a anterior.Ecrãs maiores, flores mais vistosas e vídeos institucionais mais emocionantes. Não falta o ritual da abertura, com o hino nacional, as notas de boas-vindas e os discursos protocolares. O programa prevê início às oito e trinta; começamos, com sorte, às dez. Já se fala num “fuso horário das conferências”, paralelo ao tempo real, onde uma hora vale, em média, duas. As perguntas da assistência ficam para o final e acabam respondidas apressadamente, ou trocadas por um elegante “infelizmente o tempo não permite”.
De conferência em conferência, acumulam-se pastas, agendas, canetas, blocos por estrear e relatórios que ninguém lerá antes do próximo encontro sobre o mesmo tema. Há quem chegue cedo para garantir lugar junto à mesa dos salgados e quem desapareça assim que recebe o certificado.
Ah, o certificado. É talvez o verdadeiro produto final de muitas jornadas. Comprova que se esteve presente; não necessariamente que se aprendeu, contribuiu ou mudou alguma coisa. E, em certos círculos profissionais, uma parede coberta de certificados vale, por si só, uma reputação.
Há também a fotografia de família, que reúne as mesmas figuras nas primeiras filas, enquanto os técnicos que redigiram o documento em debate ficam de pé, lá atrás, fora do enquadramento. No fim acontece sempre o mesmo milagre: as recomendações. Magníficas, acertadas e elegantemente redigidas. Algumas dessas recomendações têm até uma extraordinária capacidade de sobrevivência. Viajam de conferência em conferência, mudando apenas de capa, fonte tipográfica e logótipo do financiador. Imagino duas delas encontrando-se à entrada de um auditório. Uma pergunta: “querida, ainda por aqui?”. A outra responde: “desde 2011. Disseram-me que hoje talvez seja implementada”.
É provável que, algures num arquivo digital, exista uma pasta chamada “Recomendações 2011-2026 – versão final_final_revista_última”, com vários documentos quase idênticos, todos aguardando o seu momento de glória.
Um velho camponês dizia que “a enxada não lavra porque foi elogiada; ela lavra porque penetrou na terra”. É essa a diferença entre discutir e transformar. Não nos faltam diagnósticos, estratégias, planos de acção, roteiros, matrizes, indicadores, folhas de rota e apresentações em PowerPoint, cada uma mais colorida do que a anterior. Falta-nos, por vezes, o mais difícil, executar.
Há muito que sabemos o que fazer em relação à educação, saúde, agricultura, estradas, emprego dos jovens, industrialização, investigação científica e administração pública. As soluções já foram apresentadas dezenas de vezes. Mudam os logótipos, o mestre de cerimónias, o moderador e o patrocinador. Muda também o nome do grupo de WhatsApp criado no encerramento, que recebe fotografias e mensagens entusiásticas e, três semanas depois, entra num silêncio tão profundo quanto o das próprias recomendações.
Num tempo em que a economia exige prudência, pergunto-me onde encontramos tantos recursos para eventos cada vez mais sofisticados. Talvez, para muitos actores, financiadores incluídos, a conferência se tenha tornado o próprio indicador de desempenho. Realizou-se o evento? Óptimo, a rubrica orçamental foi executada, o relatório de actividades ganhou mais uma linha e a fotografia de grupo entrou no relatório anual. Que a mudança prática tarde a chegar é um detalhe para outro relatório.
Será que debatemos porque ainda não conhecemos as soluções? Ou porque discutir se tornou uma forma confortável de adiar decisões, repartir responsabilidades e garantir que ninguém decidiu sozinho? Como diz a sabedoria macua, “quem passa o dia a medir o campo nunca chega a semeá-lo”.
Talvez esteja aí a nossa maior inquietação. Confundimos o movimento com o progresso, a agenda cheia com a obra feita, o debate com a transformação, o número de participantes com o número de problemas resolvidos e a pasta pesada com o dossier arrumado.
Tenho, por isso, uma proposta absolutamente séria. Que organizemos uma Conferência Nacional para inventariar todas as conferências realizadas nos últimos seis meses. Convidaríamos os moderadores mais requisitados e os mestres de cerimónia cuja voz já reconhecemos de olhos fechados. Só os títulos dariam um respeitável compêndio. Se lhes juntarmos notas conceptuais, discursos, apresentações, recomendações, declarações finais e comunicados de imprensa, precisaremos de uma conferência adicional apenas para decidir onde arquivar tantos volumes.
Quem sabe se, no encerramento, alguém terá a ousadia de apresentar a recomendação mais revolucionária de todas, durante algum tempo, reunir menos e fazer mais.
Porque há problemas que já ouviram discursos suficientes. Já viram flores sobre a mesa, ouviram hinos, aplaudiram vídeos institucionais e posaram para fotografias de família. Agora esperam, silenciosamente, longe dos holofotes e dos ponteiros laser, por quem tenha a coragem de lhes responder com acções.





