Trago aqui de forma metafórica, o “ceteris paribus”, expressão latina que pode ser traduzida como “mantidas inalteradas todas as outras coisas”, para reflectir sobre a relação entre a bota e a língua, ou seja, mudam-se as botas (os actores políticos de proa) e surgem ou novas ou velhas línguas (figuras escolhidas para manter a (s) bota(s) reluzente(s).
Lutei comigo mesmo para encontrar um título que se adequasse à reflexão que pretendo levantar neste escrito. Primeiro chamei de “Velhas botas e novas línguas” numa clara alusão às velhas figuras de proa do nosso cenário político e as vozes criadas para defender os nossos acertos e desvios de governação. Depois coloquei-me num exercício de tentar posicionar o título usando a inversão; e chamei de “Novas botas e velhas línguas”; aqui a tentar aludir as novas personagens e figuras de “relevo” do panorama político nacional, tanto dos antigos como do novo ciclo de governação.
E neste exercício de posicionamento e reposicionamento, em busca de um título que se ajustasse ao desvaneio que aqui apresento, caí num ciclo de imaginação e reflexão sobre o ovo, a galinha, as botas, as línguas e as escovas. A conclusão não podia ser mais esclarecedora pelo menos para mim; colocadas as premissas maiores e menores, concluí talvez o mais óbvio para alguns e menos para outros: que a linha separação entre o ser ético e o parecer ser ético é ténue e exige algo que falta a muitos – a coerência, verticalidade e integridade. Entre o desejo da afirmação pessoal e a lógica do desinteresse, do bem servir, há uma contradição efémera e um paradoxo existencial _ vou chamá-lo de paradoxo do estomago.
Somos produto de vivências, experiências, conjunturas, decisões e, porque não do nosso livre-arbítrio, que nos leva a posições algumas vezes questionáveis. É no uso deste livre-arbítrio que se encontra a elevação ou a decadência, a ponderação positiva ou a mediocridade.
E por falar em mediocridade, temos estado a sedimentar na nossa sociedade, principalmente no seio dos mais jovens, a ideia segundo a qual, o trampolim para a ribalta e para o tacho, passa necessariamente pela deslealdade; os ganhos fáceis e imediatos quando acompanhados de certa (in) dignidade podem sustentar a vida individual e da colectividade. Temo-nos especializado em actos de sistemática apologia à pequenez, e nos tornamos uma ilha de nós mesmos, de premiação de medíocres, ou daqueles que tem a língua mais apurada para se fazerem às botas.
O debate em torno das botas e dos seus limpadores, não é novo e nem pretendo esgotar neste trocadilho. É algo que se mostra mais profundo do que parece; o acto de “lamber” e “escovar”, tem ganho alguma notoriedade (negativa a meu ver) para cada par e marcas de botas que tiramos do armário a cada ciclo de (des) governação. Hoje, habita nos meios de comunicação, uma legião de personagens que se esmera para controlar a opinião pública, informando algumas vezes e desinformando outras tantas vezes, sempre vestindo capas críticas; alguns destes personagens tem um denominador comum – buscam por oportunidades para se sentar e defender o indefensável a troco de honras e posições. É, caso para revisitar a máxima atribuída a Maquiavel _ se em política os fins justificam os meios, façamos um pouco mais para sustentar essa política do vale tudo.
Na medida que fomos construindo narrativas e transformando falhas sistémicas, momentos menos conseguidos e erros clamorosos em acertos de estômago, sedimentamos a ideia de que o país, afinal pode ser secundário e terciário à nossa vontade de ser mais um alguém na mesa do tacho.
Trago aqui a “Ceteris paribus” – expressão latina muito usada nos meandros económicos e sociais, para analisar a relação entre a bota e a língua, numa perspectiva de responsabilidade e responsabilização. A relação entre o sujeito (quem escova e quem lambe), o objecto (a bota), e a consequência política, social e ética dessa ação.
Entendo eu que, não é a simples existência da bota a causa principal deste fenómeno destrutivo, tampouco a criação de mecanismos para manter a bota reluzente mesmo quando não deve. É sim, a ideia criada e sustentada, que a bota deve manter-se sempre limpa e aparentar, estar nova, ainda que imersa em poeira, lama e outros dejetos indesejáveis.
A nossa incapacidade de conversar, integrar, aglutinar, ouvir e perceber o outro, posicionou-nos no cimo de uma torre elitista – a torre de marfim nas palavras de Edgar Morin, onde metaforicamente alude-se a atitude de indiferença e de distanciamento em que a classe política colocou-se em relação aos seus governados. A postura egocêntrica e elitista faz com que o nosso desejo de ter as botas limpas, atropele a racionalidade e a lógica para perceber que somos ou que deveríamos ser apenas um pouco mais humanos.
Não importa mais a ética social nem o bem-estar colectivo. Importa mais, desprezar o conhecimento, a história, o povo, fazer “hossanas”, aplaudir o inaceitável e produzir narrativas e teorias para alimentar falsos debates e desconstruir a pouca memória que ainda nos resta.
Há um trabalho muito profundo a ser feito para restaurar a dignidade, o bom senso e o ser humano de valor, de dotação humana, o carácter, e o orgulho de ter mãos limpas.
Dos fracos não reza a história, alguém o disse!




