A entrevista de Daniel Chapo à RTP, transmitida esta sexta-feira, 17, será provavelmente recordada pelas respostas sobre o terrorismo, o diálogo político ou os grandes projectos de gás. Suspeito, porém, que o momento mais importante tenha passado quase despercebido, escondido numa resposta longa, quando afirmou que “a segurança e a paz em Moçambique são, consequentemente, a segurança energética do mundo.”
Vale a pena regressar a essa frase. Não porque anuncie uma nova política, nem porque altere, por si só, a realidade em Cabo Delgado. Vale a pena porque ela revela uma forma diferente de explicar Moçambique ao mundo. E, em política externa, a forma como um país enquadra os seus interesses costuma anteceder a forma como decide defendê-los.
A frase não apareceu por acaso. Também não foi um exercício evocado ao sabor de retórica. Ao longo da entrevista, Chapo foi preparando esse desfecho. Primeiro recordou que “o terrorismo não é só um assunto de Moçambique. É um assunto global.” Depois explicou por que razão considera insuficiente limitar o apoio internacional à formação das Forças de Defesa e Segurança, defendendo que grupos armados equipados com armamento moderno não podem ser enfrentados apenas com capacitação e meios não letais. A seguir fez questão de recordar que a TotalEnergies retomou o projecto Mozambique LNG, que a ExxonMobil prepara um investimento avaliado em cerca de 20 mil milhões de dólares e que, na Bacia do Rovuma, convivem empresas italianas, francesas, norte-americanas, chinesas, japonesas, indianas e parceiros provenientes de praticamente todos os grandes centros económicos.
Só então chegou ao ponto que verdadeiramente lhe interessava: “Todos nós percebemos que o gás está em Moçambique, mas não é para Moçambique só.” É nesta passagem que a entrevista muda de natureza. Até aí, Daniel Chapo falava de terrorismo. A partir dali, começa a falar de geopolítica.
Durante anos, Cabo Delgado foi apresentado, dentro e fora do país, como um problema de segurança nacional. Era essa leitura que sustentava os sucessivos pedidos de apoio militar, financeiro e humanitário dirigidos aos parceiros internacionais. Chapo não abandona esse enquadramento. Faz, porém, uma operação política mais sofisticada: desloca o centro da conversa. O terrorismo continua a ameaçar Moçambique, mas passa igualmente a ameaçar um activo estratégico no qual o resto do mundo já investiu milhares de milhões de dólares e do qual espera retirar benefícios durante décadas. A diferença não é apenas de linguagem. Trata-se duma mudança de posição.
Até aqui, Moçambique dirigia-se aos seus parceiros a partir da condição de um país que precisava de ajuda para proteger um recurso estratégico. Nesta entrevista, o Presidente introduz uma ideia diferente: quem pretende beneficiar do gás moçambicano tem igualmente interesse em garantir que esse gás continue acessível, que os investimentos sejam protegidos e que Cabo Delgado permaneça estável.
É por isso que a enumeração das empresas presentes na Bacia do Rovuma não constitui um detalhe técnico. Pelo contrário, funciona como a demonstração do argumento. A ENI lidera dois dos grandes projectos. A TotalEnergies prepara a retoma do Mozambique LNG. A ExxonMobil avança para um dos maiores investimentos privados previstos em África. A estas juntam-se empresas asiáticas e africanas. Quando Chapo faz essa lista, está a desenhar um mapa de interesses internacionais muito antes de retirar a conclusão política e a conclusão é precisamente aquela frase que passou quase despercebida: “A segurança e a paz em Moçambique são, consequentemente, a segurança energética do mundo.”
Há aqui uma inversão que merece atenção. Durante muito tempo, o discurso diplomático moçambicano assentou numa lógica simples: apoiar Moçambique era um acto de solidariedade perante um país confrontado com uma ameaça grave. Chapo não rejeita essa lógica, mas acrescenta-lhe outra, mais próxima da linguagem das relações internacionais contemporâneas. O apoio deixa de ser apresentado apenas como um gesto de solidariedade. Passa a ser descrito como uma convergência de interesses.
É exactamente assim que as grandes potências costumam justificar a defesa de corredores marítimos, rotas comerciais ou regiões produtoras de energia. Não invocam apenas princípios. Invocam interesses estratégicos. Ao enquadrar Cabo Delgado dessa forma, Chapo procura retirar o conflito da periferia africana e colocá-lo no centro das preocupações energéticas de um mundo que continua a procurar fontes alternativas de abastecimento.
Nada disto significa que a comunidade internacional alterará automaticamente a sua política para Moçambique. A política externa raramente muda por causa de uma entrevista. Mas também é verdade que as mudanças começam, muitas vezes, pela forma como um país escolhe contar a sua própria história.
Talvez seja esse o aspecto mais relevante da conversa concedida à RTP. Pela primeira vez, um Presidente moçambicano não se limita a pedir ajuda para defender um recurso nacional. Recorda, com uma serenidade pouco habitual, que esse recurso deixou de interessar apenas a Moçambique. E quando um recurso passa a integrar os cálculos estratégicos de várias economias, a segurança do território onde ele se encontra deixa igualmente de deixar de ser apenas um assunto interno.
É uma nuance na formulação, mas, em diplomacia, há nuances que redefinem inteiramente o sentido de uma conversa.





