Entre ensaios fotográficos e um sorriso difícil de disfarçar, Caido Zubaida, 60 anos, parece reencontrar-se com o tempo. Às vésperas de lançar um álbum maturado ao longo de 44 anos, o artista deixa transparecer uma felicidade quase infantil, como quem recebe finalmente a primeira bicicleta depois de uma longa espera.
Estamos na Matola, onde, no dia 30 de Maio, terá o concerto do lançamento da obra “Ytchayid Symby” – Até Que Ponto Pensam os Homens”, de Caido. Nas imagens das paredes, que circundam a grande piscina, e nas palavras ditas com a mesma intensidade, cruzavam-se memórias, heróis e silêncios: de José Craveirinha a Fernando Pessoa, de Samora Machel a Carlos Cardoso, há um desassossego que, no seu entendimento, continua a habitar a urgência do país: serem “desenterrados” pela consciência colectiva.
No livro das histórias da vida, há trajectórias artísticas que parecem desafiar a lógica do tempo. Tal como aconteceu com Caido Zubaida, a estreia conhece outros gestos tardios de afirmação, em que a maturidade não surge como atraso, mas como destino inevitável. Gil Scott-Heron regressou à gravação após longos períodos de silêncio criativo; Johnny Cash reinventou a sua linguagem artística já na fase final da vida; e Cesária Évora consolidou o reconhecimento internacional apenas depois de décadas a cantar nos circuitos invisíveis de Cabo Verde.
Em todos esses percursos, o tempo não foi inimigo; foi, antes, atéria-prima. E, no caso de Caido, esse tempo parece ter funcionado como laboratório de sedimentação estética e emocional, onde cada composição se tornou síntese de experiência vivida e observação acumulada. E é nesse mesmo registo que o músico enquadra o seu percurso como uma espécie de construção guiada, não apenas pela vontade pessoal, mas por aquilo que define como uma “graça de Deus”.
Para Caido Zubaida, os 44 anos de escrita não representam apenas persistência, mas um alinhamento quase espiritual entre tempo, propósito e revelação. O álbum que agora emerge não é, por isso, apenas um objecto artístico tardio, mas a materialização de um ciclo que se fecha no momento considerado certo. Entre fé, memória e urgência histórica, o artista acredita que a obra chega não quando é possível, mas quando deve finalmente ser escutada.
Carta da Semana (CS): Este é o primeiro álbum em muito tempo. O mundo ainda não o conhece, mas já traz consigo uma longa “carreira de tentativas” – porque, neste país, até tentar parece um destino. Como recebe este apadrinhamento da Carta de Moçambique, na pessoa do seu director Marcelo Mosse, depois de tantos anos de espera e tentativas?
Caido Zubaida (CZ): É uma grande honra para mim que a Carta de Moçambique, e em particular Marcelo Mosse, tenham apadrinhado este trabalho. É um projecto que vem de há cerca de 44 anos. Nunca perdi a esperança, mas houve sempre um certo receio: “será que algum dia vou conseguir realizar este sonho?”
Hoje, com este apadrinhamento, recebo tudo com gratidão. De certa forma, é aquilo que sempre esperei ao longo deste tempo.
“Se queremos falar de paz de forma séria, temos de começar por questionar esta lógica de dependência e de uso da força”.
CS: São 44 anos de sonho, de preparação, de tentativas de gravação e de vida musical. O que se acumula dentro de um homem quando uma obra demora tanto tempo a encontrar o seu espaço?
CZ: Acho que tudo depende de Deus, da forma como Ele conduz os caminhos. Creio que esse tempo foi necessário para que tudo amadurecesse com mais profundidade e mais qualidade – pelo menos é assim que eu vejo.
E há, também, um sinal de tempo certo. Este álbum surge agora num momento em que a própria sociedade moçambicana está a atravessar uma fase de reflexão. Isso, para mim, não é coincidência. Escrevi este álbum em 1982 e terminei em 1995. Desde então, ficou guardado. Mas acredito que houve um tempo de espera – e que agora é, finalmente, o momento certo para a sua publicação.
CS: Os 50 anos da independência de Moçambique podem ser o momento certo, ou mesmo necessário, para se reflectir sobre o rumo do país?
CZ: Claro, sem dúvida. Esses 50 anos convidam-nos, obrigatoriamente, à reflexão. Como sociedade moçambicana, e também como artistas, temos de contribuir de alguma forma. Contribuir no sentido de fazer chegar à sociedade, e às estruturas de governação, a percepção de que há algo que não está bem. Que é preciso parar e olhar para dentro.
Este álbum nasce também com essa intenção: a de provocar reflexão. Temos de reflectir sobre o país, porque, na minha leitura – e acredito que na de muitos moçambicanos – o país não está a seguir exactamente o caminho que todos imaginávamos no momento da independência.
CS: O que é, hoje, verdadeiramente urgente num país como o nosso, 50 depois da independência?
CZ: Eu não sei se chamaria de uma resposta simples, mas há uma urgência que me inquieta. Em vez de estarmos a alimentar a lógica de comprar armas – e quem compra uma arma, compra-a para usar – talvez devêssemos pensar noutra direção. Uma arma comprada vem sempre de fora e carrega consigo uma intenção que não é nossa. E, na maioria das vezes, quem vende não é quem sofre as consequências do seu uso.
Agora, quando olhamos para o nosso contexto, vemos que muitas vezes a violência acaba por acontecer entre nós mesmos. Moçambicanos contra moçambicanos. E isso devia obrigar-nos a pensar. Não se trata de romantizar a guerra nem a violência, mas de questionar a dependência. Porque quem fabrica, em princípio, fabrica com uma lógica de controlo, de uso próprio, de defesa. Quem compra, muitas vezes, compra já inserido numa cadeia que não controla.
Então a urgência, para mim, está em repensar isso: o que estamos a importar, porquê, e com que consequências. Se queremos falar de paz de forma séria, temos de começar por questionar esta lógica de dependência e de uso da força
CS: Ao longo de 44 anos de criação, de escrita e de espera, houve algum momento em que pensou em desistir da música? As dificuldades, o acesso ao mercado, a ausência de espaço… tudo isso alguma vez o levou a esse ponto?
CZ: Nunca pensei em desistir da música. Nunca. Foram 44 anos a escrever, a insistir nesse caminho, e a ideia de desistência nunca foi uma opção real. O que existia, mais do que isso, era uma preocupação: a possibilidade de esta história se perder.
Havia sempre esse pensamento – “e se um dia eu partir e isto ficar pelo caminho?” – como se tudo pudesse desaparecer antes de ser partilhado. Mas hoje sinto que esse risco começa a ser ultrapassado. A Carta de Moçambique está aqui, Marcelo Mosse está aqui, e isso marca o início de um novo capítulo dessa longa história. Porque isto não termina com um álbum. É uma trajectória de 44 anos que continua.
Na verdade, esta obra faz parte de uma trilogia. São três álbuns que se ligam entre si, que se interligam como capítulos de uma mesma narrativa. Um conduz ao outro, e só fazem sentido nessa continuidade. E, dentro dessa continuidade, há várias histórias. Não é apenas uma leitura do país. É também uma leitura da África Austral, da África, no geral, e até do mundo. É um projecto que sempre tentou ultrapassar fronteiras, mesmo quando ainda estava guardado.
Uma obra construída contra o tempo
CS: Mas como é que um artista sobrevive 44 anos sem palco, sem indústria e sem reconhecimento?
CZ: Eu não sei se há uma fórmula para isso. Talvez a resposta passe por outra leitura: as nossas políticas culturais, muitas vezes, não procuram este tipo de património artístico. Não vão ao encontro destas obras que existem, mas que ficam fora do circuito.
O problema, se calhar – e digo isto com alguma dureza – é também de escolhas. É, em certos casos, colocar-se a pessoa errada no lugar certo. E quando isso acontece, aquilo que deveria ser cuidado, valorizado e projectado acaba por ficar invisível.
“O sino toca em 1975, para Moçambique. E a partir daí cria-se uma expectativa muito grande de que o país passaria a estar ao serviço do moçambicano. (…) Mas o que se foi vendo, ao longo do tempo, foi o contrário disso”.
CS: Esse silêncio de tantos anos foi uma forma de proteção da obra, sobretudo na sua dimensão crítica? Ou o tempo acabou por ser, de alguma forma, favorável para que ela só agora chegasse ao público?
CZ: Não vejo isso como estratégia nem como protecção. Vejo como algo maior do que isso. Aqui há uma mão de Deus. Eu escrevo a história, mas quem determina o curso dos acontecimentos é Deus.
Havia uma expectativa muito antiga. Já em 1995, quando concluí este álbum, a ideia era gravar e publicar. Mas isso não aconteceu. As condições não permitiram. E o tempo passou. Hoje, olhando para trás, sinto que este percurso não foi interrompido, mas conduzido.
E é por isso que acredito que este é o momento certo. Não apenas para a publicação, mas para o que o álbum pode provocar: reflexão sobre a forma como o país tem sido gerido e sobre os caminhos que temos seguido.
CS: Nasceu antes da independência, mas esta obra dialoga com a agenda do país no pós-1975. Em que momento começou a perceber que a promessa desse novo país não estava a ser cumprida?
CZ: Eu até tenho um tema no álbum que ajuda a situar isso – “Ytchayid Symby”, que significa “o sino tocou”. O sino toca em 1975, para Moçambique. E a partir daí cria-se uma expectativa muito grande de que o país passaria a estar ao serviço do moçambicano. A ideia era simples: que o moçambicano se sentisse bem dentro do seu próprio país, com condições de vida, de dignidade, de realização. Mas o que se foi vendo, ao longo do tempo, foi o contrário disso.
Não quero entrar em grandes detalhes, nem em zonas demasiado sensíveis, mas a percepção que tenho é essa: o país não seguiu na direcção daquilo que muitos esperavam. E isso, de uma forma ou de outra, acabou por gerar desilusão em muita gente.
CS: Há um momento no disco em que quase se coloca a questão de saber se os mortos morreram em vão. Já encontrou alguma resposta para isso?
CZ: Não. Quando falamos de mortos, estamos a falar de uma realidade que não volta, que não se altera. Isso está fechado. Mas o que eu tento trazer, na verdade, é outra reflexão: por que razão não vamos buscar os projectos, as ideias, os pensamentos de figuras como Eduardo Mondlane, Samora Machel, Josina Machel, e até do Ngungunhane, que também é uma figura histórica importante no nosso percurso?
Ngungunhane, entre outras coisas, representa também um momento de consciência sobre o país, sobre a organização da sociedade, sobre o confronto com o colonialismo. Essas figuras, cada uma no seu contexto, deixaram uma ideia central que, para mim, é comum: a vontade de ver um país em paz, com dignidade, onde o moçambicano possa usufruir do que o país tem para oferecer.
Hoje, infelizmente, muita gente não sente isso. Por isso, neste trabalho, eu procuro sobretudo chamar atenção para essas referências. Não apenas essas quatro ou cinco figuras, mas muitas outras que contribuíram e acabaram por ser esquecidas no processo. O que eu defendo é simples: que quem hoje governa e quem toma decisões olhe novamente para esse pensamento, para essa visão de país. Porque aí está uma base possível para reencontrarmos um Moçambique mais harmonioso para todos.
CS: Se essas figuras históricas voltassem hoje, ainda que apenas em termos hipotéticos, qual acha que seria a sua reacção perante o país actual?
CZ: Hipoteticamente, acredito que seria uma desilusão total. Uma desilusão profunda. Pelo que sinto e pelo que vivi ao longo destes 60 anos, acompanhando diferentes fases da nossa história, penso que essas figuras não conseguiriam suportar as condições actuais.
O choque seria grande, porque a expectativa que se construiu ao longo do tempo não corresponde ao que se vive hoje.
CS: O seu raciocínio aproxima-se da ideia de “desenterrar” essas figuras e os seus legados. Que verdades continuam, hoje, enterradas em Moçambique?
CZ: As verdades que continuam enterradas são, precisamente, essas de que tenho falado. São essas mesmas verdades que eu acredito que os dirigentes deste país deviam voltar a procurar.
Essas figuras foram enterradas fisicamente, mas não levaram as verdades consigo. O corpo foi, mas a essência ficou cá. As ideias, os projectos, os pensamentos continuam aqui. E, se continuam aqui, então há uma responsabilidade: ir buscá-los.
De outra forma, temos também de olhar para a forma como estamos a escrever a nossa história. Não podemos inventar a história. Temos de ir à sua profundidade, ao seu contexto real, ao seu sentido original enquanto moçambicanos. Porque só assim conseguimos identificar-nos e ser reconhecidos no mundo de forma consistente. Em suma, o que está em falta, no fundo, é isto: a história.
CS: Canta em bitonga, sua língua materna. O que é que essa língua ainda preserva e que o continua a encantar?
CZ: Uma das coisas que tenho vindo a perceber, sobretudo nos últimos anos, é que sinto que o bitonga está em vias de extinção. E isso preocupa-me. Talvez por isso este álbum também apareça nessa língua, ou com presença dessa língua, como uma forma de resgate, de a trazer novamente para junto de nós.
Tenho a percepção de que o bitonga, entre outras línguas, está a sair do circuito mais visível, mais falado, mais transmitido. E isso significa uma perda. Hoje, muitos jovens já não o falam. Já não o dominam. E isso vai criando um afastamento progressivo. O que eu procuro fazer, de alguma forma, é chamar atenção para isso. Mostrar que esta língua existe, sempre existiu, e que faz parte da nossa identidade. E, se possível, evitar que desapareça.
CS: Pode ser entendido como uma forma de resistência?
CZ: É uma forma de resistência.
CS: A sua geração aprendeu música de forma quase artesanal. Hoje vive-se um universo totalmente digital, com acesso fácil a instrumentos, produção e gravação. No início, chegou a tocar em condições muito precárias, quase improvisadas. 44 anos depois, o que vê de diferente? Que progressos identifica na forma de fazer música, nos ritmos, na produção e até na própria concepção do seu álbum?
CZ: Falar de progressos na instrumentalização é falar de uma mudança profunda. Hoje em dia, vive-se num mundo em que é relativamente fácil aprender música e ter acesso a instrumentos e ferramentas de produção. No nosso tempo, isso não existia dessa forma.
Lembro-me de que, para tocar uma guitarra acústica – no meu caso – era um desafio enorme. Muitas vezes era preciso fazer pequenos trabalhos para os mais velhos, ajudar em tarefas, só para ter a oportunidade de pegar na guitarra durante dois ou três minutos. E mesmo assim, aquilo era vivido com uma intensidade enorme. Havia prazer, havia descoberta. E foi dentro desse prazer todo que essa veia artística foi crescendo.
Também venho de uma família ligada à música. A minha mãe cantava, por exemplo. Então, de certa forma, a música já existia dentro de casa, dentro da vivência familiar. Depois, tudo o resto foi sendo construído com esforço, curiosidade e persistência. E acho que foi aí que encontrei a minha forma de lutar pelo país, através da música.
“Este tempo também serviu para me dar certezas. Certezas de que aquilo que escrevi tinha um propósito e podia, de alguma forma, contribuir para a sociedade. Por isso digo que esta não é apenas a história de um álbum. São três álbuns já escritos, ligados entre si”.
CS: Então a música começa antes do músico. Há uma herança aí dentro de casa. Como era essa relação com a música na infância? E em que momento percebe que já não era apenas fascínio, mas um caminho?
CZ: É difícil dizer exactamente quando começou, porque a música já fazia parte do ambiente em que cresci. A minha mãe cantava muito bem. E eu era um dos grandes admiradores das cantorias dela. Então, fui absorvendo essa sensibilidade sem perceber muito bem. Claro que, numa certa fase, também quis seguir o futebol – e até era bom jogador [risos]. Mas a música acabou por vencer.
Fora de casa, aprendizagem foi muito solitária. Não tive uma escola, nem alguém a ensinar directamente. Foi tudo muito intuitivo: observar um músico aqui, outro ali, tentar reproduzir sons, inventar uma viola de lata, experimentar sozinho… fui construindo assim o meu caminho. E mesmo hoje, sinceramente, não me considero um grande músico. Continuo a aprender.
Acho que vou passar a vida inteira a aprender música. Mas, com aquilo que fui conseguindo desenvolver ao longo do tempo, já consigo criar obras como estas que agora começam finalmente a ser ouvidas.
CS: Olhando para trás, para tudo o que não aconteceu no tempo em que desejava – os palcos, as gravações, as oportunidades – sente que perdeu alguma coisa? Ou o atraso acabou também por lhe dar algo que talvez não tivesse encontrado mais cedo?
CZ: Acho que ganhei maturidade. Ganhei tempo para compreender melhor a vida, o país e a própria música. Talvez, se tudo tivesse acontecido mais cedo, eu não tivesse a mesma profundidade nem o mesmo olhar que tenho hoje sobre as coisas.
Este tempo também serviu para me dar certezas. Certezas de que aquilo que escrevi tinha um propósito e podia, de alguma forma, contribuir para a sociedade. Por isso digo que esta não é apenas a história de um álbum. São três álbuns já escritos, ligados entre si.
O primeiro foi escrito entre 1982 e 1995. Chama-se “Até Que Ponto Pensam os Homens?” e traz o conceito do “Ytchayid Symby”. É como um primeiro despertar, uma primeira interrogação.
Mas, depois desse “sino”, veio a realidade. Entre 1996 e 2001 escrevi o segundo álbum, “A Desgraça do Negro”. Porque, afinal, o sino não trouxe exactamente a transformação e a alegria que se esperavam. E mesmo esse segundo momento não me deu todas as respostas. Então, em 2002, comecei a escrever o terceiro álbum. E só consegui concluí-lo em 2020. Foram cerca de 18 anos de escrita, de reflexão e de amadurecimento.
Ou seja, há aqui uma obra que acompanha décadas inteiras da minha própria leitura sobre o país, sobre África e sobre o ser humano.
CS: Como é que se trabalha um álbum durante 18 anos? O que sustenta um processo tão longo, emocional, criativo e até espiritual?
CZ: É difícil explicar. Hoje vemos muitos músicos a trabalharem num ritmo muito rápido: dois dias, três dias, uma semana… e está feito. E isso também é admirável. Mas comigo o processo sempre foi diferente.
Há qualquer coisa, talvez uma força espiritual, sobrenatural, que se apodera de mim quando entro nesse estado de pensamento, de escrita, de criação. E parece que é essa força que vai determinando o ritmo das coisas.
Há músicas que escrevo num ano. Outras levam dois anos. Algumas ficam ali, paradas, até eu encontrar exactamente o que procuro nelas. Então, não consigo explicar de forma técnica. Apenas sei que trabalho assim.
O terceiro álbum, por exemplo, começou em 2002 e só ficou concluído em 2020. Foram 18 anos. O segundo levou cerca de seis anos. O primeiro, mais de uma década. Cada obra teve o seu próprio tempo de maturação, e talvez isso também faça parte daquilo que elas carregam.
CS: No texto de apresentação de Marcelo Mosse há uma ideia forte de pertença colectiva em torno deste disco, quase como se este fosse um álbum já reconhecido antes mesmo de ser ouvido. Sente que esta obra nasce profundamente ligada ao imaginário e à vivência do povo de Inhambane?
CZ: Sim, sinto isso profundamente. E talvez uma das razões que me dá segurança em relação ao álbum seja exactamente essa: as pessoas de Inhambane fazem parte da construção desta obra.
É verdade que o álbum é escrito por mim, pensado por mim, gravado por mim, mas as emoções, as experiências, as viagens interiores e até aquilo a que eu chamo de “voagens” nasceram do contacto com essas pessoas, com esse ambiente, com essa vivência colectiva.
Então, este não é um trabalho isolado de um artista fechado sobre si mesmo. É um projecto alimentado pela memória, pela sensibilidade e pela experiência de um povo. Por isso acredito que não serão apenas os “manhambanes” a escutá-lo. Eles estão dentro do próprio álbum. Esta obra também lhes pertence.
CS: Como nasce uma música? O que desencadeia o processo de escrita e como transforma o quotidiano, essas vivências, inquietações e memórias coletivas em som?
CZ: A música começa sempre com alguma coisa que me atravessa. É como uma ideia, uma imagem ou um pensamento que surge de repente e fica preso na minha cabeça. Como uma nuvem que passa, mas deixa ali um ponto marcado. E esse ponto começa a exigir atenção.
A partir daí, entro num processo de reflexão. Começo a estudar aquela sensação, aquele pensamento, perceber até que ponto aquilo me interpela e qual é a minha responsabilidade diante dele. É assim que nasce a escrita.
CS: E o que nasce primeiro: a palavra ou o som? Como constrói essa ligação entre a escrita e a guitarra?
CZ: Primeiro vem a ideia. Quando aquela mensagem chega – aquilo que me obriga a falar sobre determinado assunto – ela já vem acompanhada de uma certa sonoridade, de uma intenção musical. E isso acontece de forma muito natural comigo, talvez porque sou guitarrista e tenho uma forma muito própria de tocar.
Então, enquanto vou desenvolvendo a escrita, também vou imaginando o que a guitarra precisa de fazer ali. As duas coisas acabam por nascer juntas. Não é um processo separado, de escrever primeiro e só depois pensar no instrumental. A mensagem e a musicalidade aparecem praticamente ao mesmo tempo. É como se a própria ideia já trouxesse consigo o caminho sonoro que quer seguir.
CS: Falou de uma identidade própria na guitarra. Musicalmente, o que é que esta trilogia – e particularmente este primeiro álbum – revela sobre a sua procura estética?
CZ: Este primeiro álbum mostra muito essa fase de procura. Na altura em que o escrevi, eu ainda não tinha uma linha estética completamente definida. Ainda estava a experimentar, a descobrir caminhos, referências e possibilidades sonoras.
Por isso o disco é muito misturado. Tem reggae, tem rock and roll, tem funk, tem ritmos tradicionais como Mutimba e Xigubo… é um álbum atravessado por várias influências. E isso também reflecte o momento em que foi criado: um período em que eu ainda estava à procura de uma identidade musical mais clara.
A mudança acontece depois de 1995. A partir daí começo a estudar e desenvolver aquilo que considero ser o meu estilo próprio: o Muti-blues, uma fusão entre a Mutimba do sul de Moçambique e o Blues. Foi uma tentativa de construir uma assinatura musical, uma linguagem que me identificasse verdadeiramente.
Então, de 1996 em diante, praticamente tudo o que escrevo já nasce dentro dessa linha do multi-blues. Mas este primeiro álbum ainda pertence ao tempo da experimentação, e talvez seja isso que também lhe dá essa diversidade sonora.
Chegar tarde, mas inteiro
CS: Quando as pessoas terminarem de ouvir “Ytchayid Symby”, que inquietação ou pergunta gostaria que permanecesse dentro delas?
CZ: Que está na hora. Está na hora de mudarmos.
CS: Nos vídeos de estúdio da gravação com o produtor internacional Roland, vê-se um encontro de mundos: um projecto maturado ao longo de 44 anos e uma abordagem externa à sua concepção artística. Como foi esse processo de encaixe entre a sua visão e a leitura de alguém de fora? Houve conflito criativo ou foi um processo naturalmente fluido até chegar ao resultado final?
CZ: Isto aqui foi facilitado. Foi facilitado porque, como disse, venho de Inhambane e já vinha a trabalhar com essas pessoas. Já conheciam o meu percurso e o meu tipo de trabalho. Houve várias propostas para a gravação deste álbum, mas acabei por optar por o levar para Inhambane precisamente por essa ligação, linguística, cultural e artística. Eu queria preservar essa essência.
E isso fez toda a diferença. São pessoas com quem já tinha relação, já havia proximidade de trabalho. Antes mesmo deste álbum, já tinha gravado cerca de sete temas nos estúdios do próprio Roland. Portanto, não houve choque de mundos no sentido difícil. Houve continuidade.
CS: Está a dizer que, se este álbum tivesse sido gravado noutro espaço – Maputo, Beira, ou mesmo fora do país – o resultado não seria o mesmo, por causa dessa sensibilidade e desse contexto?
CZ: É. Porque aqui o que conta é a conexão com o espaço. Existe uma ligação que não é apenas técnica, é sensível, é quase orgânica. Eu acredito que poderia ser outra coisa se tivesse sido feito noutro lugar, mas não seria isto. O trabalho que foi feito aqui não é meramente técnico. É profundamente sensorial.
Aliás, isso também está presente na própria capa do disco: os coqueiros, a praia, o sino… tudo remete a esse lugar. É tudo dali. No fundo, é um trabalho de raiz, pensado a partir de Inhambane para o mundo.
CS: Aos 60 anos, com 44 anos de percurso e finalmente com uma obra física que chega ao público, o que é que se espera agora de Caido Zubaida?
CZ: O que se espera agora de mim é continuidade. Há um compromisso que se vai criando naturalmente com o tempo. E esse compromisso, para mim, é continuar com firmeza, com muita garra, dar seguimento a este trabalho.
Aliás, a ideia é chegar até ao terceiro álbum. Se fosse possível, e se as pessoas que estão a gerir este projecto permitissem esse caminho, o meu pensamento seria esse: lançar este disco agora em 2026 e, em 2027, apresentar a segunda parte da trilogia, e em 2028 a terceira. Porque isto, para mim, é uma espécie de trilogia fechada. Não é apenas um ciclo aberto, mas um percurso que tem princípio e tem fim.
E há aqui também uma sensação muito clara em mim: eu sinto que já escrevi aquilo que tinha de escrever. Não no sentido de incapacidade, mas no sentido de missão cumprida. Aquilo que tinha de vir através de mim, aquilo que me foi incumbido – como eu vejo, pela mão de Deus – já está neste corpo de trabalho. Por isso, já não me vejo a escrever indefinidamente.
Posso continuar a fazer música, posso continuar a tocar, a apresentar, a estar em palco… mas o acto de escrever, para mim, tem aqui um fim natural: o terceiro álbum desta trilogia.
CS: Diz que este ciclo já está concluído e que os três álbuns representam tudo o que tinha a escrever ao longo destes 44 anos. No dia 30, para além do lançamento, haverá também um concerto. O que é que as pessoas podem esperar desse momento ao vivo? Especialmente aquelas que o vão conhecer pela primeira vez.
CZ: Eu acredito que o próprio trabalho fala por si. As próprias músicas acabam por conduzir as pessoas até dentro desse universo. São obras muito trabalhadas, muito pensadas, e de uma forma ou de outra, quem estiver presente vai sentir-se puxado para dentro desse ambiente, como se fosse uma imersão naquela “praia” de que falamos. E, ao entrar ali, acaba por acontecer um encontro entre a obra e o público. É lá que se faz a festa.
CS: Para terminar, depois de 44 anos de percurso – que quase equivalem a uma vida inteira – o que gostaria de deixar como mensagem final sobre este trabalho, os seus desafios e tudo o que foi necessário para chegar até aqui?
CZ: São 44 anos… se fosse uma vida, já teria filhos crescidos. É um percurso longo, cheio de tentativas, de avanços e recuos, de trabalho contínuo. Mas, no fundo, o que posso dizer é que tudo isso está reflectido nestes álbuns. Os desafios, as dificuldades, as buscas… tudo está lá.
E agora, olhando para trás, sinto que este ciclo cumpre o seu sentido. Os desafios foram grandes ao longo do percurso. O álbum foi concluído ainda em 1995, mas o caminho até aqui foi longo e marcado por muitas incertezas.





