No sul de Moçambique, costuma dizer-se que “o tambor não escolhe os pés que o seguem”. A música atravessa fronteiras, desarma preconceitos e cria pátrias invisíveis. Talvez por isso, em Maputo, Nampula, Inhambane ou Cape Town, o som metálico e inquieto do trompete de Miles Davis tenha encontrado abrigo em sensibilidades africanas que aprenderam a transformar dor, memória e improviso em arte.
Celebrar o centenário de Miles Davis é, para muitos, revisitar os grandes palcos do jazz mundial. Para nós, moçambicanos, é também regressar aos estúdios da Rádio Moçambique, às noites silenciosas interrompidas por um saxofone distante, às vozes radiofónicas que educaram gerações inteiras para um género musical aparentemente estrangeiro, mas que acabou por se confundir com os nossos próprios ritmos.
Embora Miles Davis nunca tenha tocado em África, o continente pulsava na sua música. Álbuns tardios como Amandla (1989) faziam referência directa às lutas de libertação e à resistência contra o apartheid na África Austral. Miles influenciou ícones africanos como HughMasekela, incentivando-os a não imitarem o jazz americano, mas a criarem a sua própria voz a partir das suas raízes.
Neste centenário, retomo o “espírito de Miles”, a inspiração permanente para a improvisação, a liberdade total de recriar, a rejeição de formas eurocêntricas rígidas e, sobretudo, essa manifesta necessidade de construir projectos de fusão. Parece ser tempo de cruzar o jazz com as linguagens locais, como sugere Izidine Faquira, radialista-mor e maior entusiasta do jazz no país. Neste centenário, revemos como as nossas estrelas fizeram o caminho inverso de Miles Davis, pegaram no jazz moldado na diáspora e devolveram-no a Moçambique com sotaque, ritmia e força para reinventar espíritos musicais.
A minha geração, a que ergueu e estruturou este país, chamem-na geração 8 de Março, a dos fazedores – hoje de cabelo mais grisalho e andar mais cadenciado, muitas vezes reformada e encostada à parede, aprendeu a gostar e a idolatrar o jazz pela insistência apaixonada da voz de Izidine Faquira. Pelas antenas da Rádio Moçambique, ele foi um verdadeiro missionário da música improvisada. Havia na sua voz uma pedagogia afectiva e uma convicção rara, a de que o jazz não era apenas um estilo musical americano, mas uma linguagem universal, capaz de dialogar com a marrabenta, com os tambores macuas, com os lamentos e timbilas chope e até com o silêncio melancólico das noites suburbanas de mapiko e zorre.
Izidine Faquira, renomado radialista com mais de 45 anos de carreira, originário da terra da boa gente, intoxicou-nos de jazz, no melhor sentido da palavra. Fê-lo com a elegância de quem sabe educar, com persistência e com um conhecimento que só ele poderia possuir. Autodidacta, escutou sons de todas as latitudes e escolheu os melhores para um Moçambique que ensaiava uma marrabenta com sabor a revolução e liberdade.
Nessa liberdade revolucionária, ele, o bom IzidineFaquira, criou e recriou milhares de programas radiofónicos e acompanhou o despertar e o adormecer de uma turma de músicos de diferentes gerações. Conhece os músicos deste país de cor e salteado. Mas foi o jazz que o distinguiu e que, de algum modo, também nos distingue a nós.
O seu programa Easy Jazz continua a ser, provavelmente, o mais consistente espaço radiofónico dedicado ao género que o país alguma vez conheceu. Ali aprendemos que ouvir jazz era também aprender a escutar o mundo e o nosso próprio interior. E talvez por isso tenhamos começado a confundir, deliberadamente, os solos de Miles Davis com as sonoridades das nossas ruas, das cerimónias tradicionais e dos quintais moçambicanos, sul-africanos ou, melhor ainda, africanos.
Costuma dizer-se que “quem ouve muitos tambores aprende a reconhecer o coração do povo”. Izidine ouviu-os todos. Acompanhou, praticamente, todas as gerações musicais do pós-independência e ajudou a construir pontes invisíveis entre o jazz universal e a criação moçambicana contemporânea. Não será surpresa se, na última semana de Maio, o ouvirmos novamente a colocar lado a lado Charlie Parker, Miles Davis, Moreira Chonguiça e Jimmy Dludlu, como se todos pertencessem à mesma banda invisível, espalhada pelos continentes. E talvez pertençam.
Porque o jazz moçambicano contemporâneo não pode ser compreendido sem reconhecer a influência estética e espiritual de Miles Davis. Em Moreira Chonguiça, o Embaixador do Jazz e etnomusicólogo que melhor interpreta o género no país, encontramos um artista que africanizou o jazz sem o aprisionar. O seu saxofone transporta os ecos de Nova Orleães, mas também o cheiro da terra molhada de Gaza, o movimento dos mercados populares da Beira e a energia dos batuques urbanos de Maputo. Moreira não copia o jazz, reinventa-o. Devolve-lhe africanidade, oralidade e corpo.
Há nele algo profundamente davisiano, a coragem de experimentar, de romper fronteiras e de procurar novas linguagens sonoras. Tal como Miles Davis recusava permanecer preso a um único estilo, do cool jazz ao fusion, de Kind ofBlue a Bitches Brew, também Moreira Chonguiçaparece compreender que a música vive de metamorfoses permanentes.
Ao seu lado ergue-se Jimmy Dludlu, agora a completar 40 anos de carreira, guitarrista dos sons mais inesperados e talvez um dos mais sofisticados pensadores da música africana contemporânea e do jazz moçambicano. Jimmy não apenas toca jazz, reflecte sobre ele com alma e coração. Em Cape Town, na África do Sul, escreveu uma tese sobre os jazzes africanos, procurando compreender como o continente reinterpretou uma linguagem nascida da dor e da resistência afro-americana.
Na guitarra de Jimmy Dludlu existe um diálogo permanente entre sofisticação técnica e memória africana. Ouvindo-o, percebemos que o jazz regressou ao continente para reencontrar as suas raízes. E é impossível não imaginar Miles Davis escutando, algures nos céus, estas reinvenções africanas do género que ajudou a revolucionar.
A pesquisadora brasileira Ana Lucia Santana, da Universidade de São Paulo, recorda que Miles Davis foi um “subversor do jazz”. Talvez esta seja a melhor definição possível. Ele nunca aceitou acomodar-se ao sucesso. Reinventou-se inúmeras vezes, enfrentou críticas, rompeu convenções e transformou o jazz numa linguagem aberta ao risco e à experimentação.
Nascido em 1926, em Illinois, Miles cresceu entre o blues materno e o rigor técnico do trompete clássico. Passou pela Juilliard, cruzou-se com Charlie Parker, John Coltrane e Gil Evans, mergulhou nos excessos da fama, caiu, levantou-se e voltou sempre a desafiar os limites da música. Obras como Kind of Blue permanecem, até hoje, como verdadeiras catedrais sonoras do século XX.
Mas talvez a sua maior vitória tenha sido outra,mostrar que o jazz não pertence a um país, mas ao espírito humano. Nós sempre defendemos que o jazz teve as suas raízes aqui. Esta ideia interpela-nos profundamente, África não pode continuar a pensar-se a partir de fora. Deve afirmar-se como sujeito pleno do seu próprio pensamento e da sua própria música. Estes músicos provam que as raízes nem sempre geram a árvore que outros desejam.
Por isso, neste centenário, Miles Davis não será apenas celebrado em Nova Iorque, Paris ou Chicago. Será também celebrado em Maputo,nos programas de rádio de Izidine Faquira, nos festivais organizados por Moreira Chonguiça, nas harmonias refinadas de Jimmy Dludlu e nos jovens músicos moçambicanos que hoje improvisam sem medo, misturando saxofones com timbilas, trompetes com marrabenta, jazz com África.
Porque a música verdadeira nunca morre. Os africanos dizem que “quando um velho músico parte, não leva consigo o tambor; deixa o ritmo nos corações”. Miles Davis partiu em 1991. Mas o seu ritmo continua entre nós. E talvez, nesta celebração do seu centenário, ele regresse simbolicamente dos céus para mais um espectáculo acompanhado pelos sons de Moçambique, esse país onde o jazz encontrou novos caminhos, novas vozes e novas almas (X).





