O Professor Doutor Óscar Monteiro, antigo colaborador, amigo e companheiro de luta de Samora Machel, revisitou os principais traços do pensamento político, intelectual e estratégico do fundador da nação moçambicana, assinalando os 40 anos do seu legado histórico.
Na sua intervenção, durante a aula magna subordinada ao tema “Samora Machel: o Intelectual Revolucionário”, Monteiro recordou momentos marcantes da luta de libertação nacional e da construção do Estado moçambicano, sublinhando a dimensão intelectual de Samora Machel, frequentemente eclipsada pela imagem do comandante militar e líder revolucionário.
O académico destacou que Samora se assumia como “um intelectual revolucionário”, sustentando que o pensamento político do antigo Presidente foi moldado não apenas pela experiência da luta armada, mas também pela leitura, pelo convívio com nacionalistas africanos e pela reflexão colectiva.
Segundo Monteiro, a principal força de Samora residia na sua capacidade de transformar ideias em acção política concreta, defendendo temas como a emancipação da mulher, a participação popular, a educação, a produção agrícola e a valorização das capacidades do povo moçambicano.
Ao longo da aula, foram igualmente evocadas figuras históricas da luta de libertação africana, entre elas Eduardo Mondlane, Patrice Lumumba, Thomas Sankara, Fidel Castro e Che Guevara, cujas trajectórias influenciaram movimentos de libertação em África.
Óscar Monteiro salientou ainda que muitos dos estudos mais profundos sobre Samora Machel estão actualmente a ser produzidos no estrangeiro, sobretudo em língua inglesa, lamentando a insuficiente produção académica nacional sobre o pensamento do antigo estadista.
Num dos momentos mais marcantes da palestra, o conferencista defendeu que Moçambique continua confrontado com desafios estruturais ligados à construção do Estado, à reconciliação interna e à gestão das diversidades étnicas e regionais.
“O Estado ou é popular ou não será sustentável”, afirmou Monteiro, sublinhando que a visão de Samora Machel assentava na participação popular como instrumento de legitimação do poder e de construção da unidade nacional.
O professor recordou igualmente o papel desempenhado por Moçambique na luta de libertação da África Austral, destacando a liderança regional de Samora Machel no apoio às independências do Zimbabwe e de outros países da região, bem como a sua capacidade de articulação diplomática junto dos chamados Países da Linha da Frente.
A conferência abordou também a questão do poder e da ética na governação.
Segundo Óscar Monteiro, Samora defendia uma liderança baseada na modéstia, no combate aos privilégios e na protecção do património público, alertando constantemente para os perigos da corrupção e do afastamento entre dirigentes e povo.
No encerramento, Monteiro considerou que o país ainda enfrenta desafios ligados à reconciliação nacional e advertiu que as novas riquezas naturais poderão agravar divisões internas, caso não sejam resolvidas as tensões históricas e sociais existentes.
“Fica à nova geração a responsabilidade de concluir esse processo”, afirmou, defendendo que o pensamento de Samora Machel continua actual e indispensável para a construção de um Estado mais justo, inclusivo e sustentável.





