Por: Cristiano Matsinhe
“São sepulturas, algumas delas, nas quais jáforam simbolicamente enterrados membros do governo e noutros lugares, há reserva de espaço, para outros membros, assim que se decida simbolicamente enterrá-los. Ou seja, vivemos, no momento, a época dos mortos-vivos ou vivos-mortos”. (Sara Jona Laisse).
Uma vez mais e honrando o que já é tradição, Sara Jona Laisse agracia a classe de leitores com estariquíssima obra intitulada Entre fronteiras Literárias e Outros Textos, sob a Chancela da Gala-Gala Edições que vai materializando o seu desiderato de “Fazer livros bons e belos” tal como este, assinado por Sara Jona Laisse. À Autora e à Editora, felicitações!
Esta obra – composta por duas partes com mais de trinta e cinco textos que mesclam estilos literários densos e suaves, ao mesmo tempo que se presta aos rigores analíticos da revisão de pares, na medida em que toda uma segunda parte a autora confabula, metodicamente, com muitos dos seus pares e autores a que teve oportunidade de analiticamente resenhar – já faz parte das pedras estruturais que alicerçam o nosso edifício literário.
A edição esmerou-se em estabelecer continuidades entre as crônicas e ensaios que compõem as duas partes da obra, tendo como fio condutor o renovado compromisso da autora com o que designa de “diálogos interculturais”, retratando jogos e tráficos de identidades, questões da “in(ex)clusão”, dominação, hierarquias sociais e (in)subordinações, ostracismos e estigmas, além de um metódico investimento na interpretação e caracterização das obras de seus pares, a que teve a oportunidade de escrever os prefácios, posfácios, apresentar ou simplesmente analisar, assacando ilações que ecoam na forma de escrever e dizer crônicas que Sara Laisse gosta e que não se exime de pelejar pelo devir, pois o raro, nesta obra, é encontrar um texto que termine sem a abertura de uma caixinha de Pandora, onde a autora oferece aos leitores o que parece a destrinça entre o bem e o mal, o ético e o antiético ou… simplesmente, roteiros para costurar novas narrativas sobre o social, depuradas dos venenos constitutivos e que reproduzem as inequidades de toda a sorte.
Ler as crônicas de Sara Laisse revela-se como um exercício de imersão em universos pluriculturais, retratados de forma despretensiosa, livre de jargões que, ao invés de esclarecer, obscurecem ou ocultam a conotação e denotação que a autora deseja atribuir às palavras.
O trabalho de Laisse, mais uma vez, é bem-sucedido nesta obra, “Entre Fronteiras Literárias e Outros Textos”, mantendo-se instigante como uma promessa de (re)descoberta de novos significados e significantes a partir de práticas e referências aparentemente comuns do nosso cotidiano. Para ser mais explícito, Laisse tem o dom de não trazer novidades mas, mesmo assim, transformar o que parece ser um repertório de conhecimentos cotidianos em matéria-prima bruta, a ser lapidada nos ancoradouros sociais e contextuais das dinâmicas da vida.
Um simples torcicolo ou qualquer doença e seus sintomas, fragmentos de pratos e copos partidos, simples cabelos crespos ou aparentemente sofisticados cabelos artificiais, até mesmo a falta deles, facilmente se convertem em matéria-prima para esculpir crônicas com arte e leveza que,inconfundivelmente, caracterizam a escrita de Sara Jona Laisse.
A mestria com que a autora converte “qualquer coisa” em “bom lugar para pensar”, os contornos das construções socioculturais de instrumentalização de saberes ou dizeres sociais fascina, não apenas pelo efeito surpresa ao desvendar os sentidos e nos fazer refletir sobre tópicos, objectos, temas ou problemas que se apresentam com uma escandalosa obviedade, mas que adquirem outros sentidos e se revelam, em sua complexidade, a partir do escrutínio analítico e interpretativo a que a autora se presta e empresta aos seus leitores, como verdadeiras relíquias e exemplos de desmistificação do familiar, revelando as suas essências constituintes.
Nesta obra, fica evidente que a fonte de inspiração para a construção das crônicas da autora é o que lhe é proporcionado pelo próprio acto de socializar, seja uma ida ao culto religioso, um passeio pelas Europas, uma conversa com um colega, alunos e amigos, um ruminar de mitos e lendas da recriação do mundo, como as propostas pelos zambezianos que afirmam que “natural não treme”. Mais do que isso, Sara Laisse jamais omitiu suas próprias vivências e experiências como fonte e matéria para elaborar sua escrita.
Nessa perspectiva, aqueles que se dedicarem ao estudo da obra, ou melhor, do legado de Sara Laisse, já têm metade do caminho percorrido para retratá-la biograficamente, pois fragmentos de sua vida estão impregnados e espalhados ao longo de suas crônicas, como selos de autenticidade do que é dito e escrito em seus textos. Ao abordar temas como cabelos, a autora se inclui como sujeito pesquisado e ponto de observação sobre as interpretações que as pessoas e, em um sentido mais amplo, as sociedades se prestam. Ao discutir assuntos relacionados à religiosidade, espiritualidade e cultura, ela evoca sua postura eclética em relação à vida ou faz alusões aos sincretismos culturais, referindo-se a si mesma como, simultaneamente, produto e produtora de suas próprias experiências, que são iconizadas no conceito de “interculturalidade” que galvaniza a imersão da autora no acto de reescrever a diversidade sociocultural.
A pedagogia que permeia toda a escrita de Sara Laisse sempre se destaca, a cada crônica ou ensaio, com a clareza de quem manipula nossos hemisférios mentais, o esquerdo ou o direito, proporcionando ao leitor a oportunidade de enxergar possibilidades onde antes poderiam existir apenas convicções. Ao abordar o desafio de desenvolver habilidades ambidestras em um contexto de forte preconceito e estigmatização dos canhotos, a autora nos conduz por uma jornada de redescoberta do que é normativamente padronizado, desconstruindo os artefactosnarrativos utilizados para compor e costurar crenças.
Mais do que isso, nas crônicas compiladas nesta obra, a autora “trava novos combates” contra múltiplas formas e experiências de dominação, exclusão, expropriação ou destituição do outro (com particular ênfase para “a outra”), mostrando, “com A + B”, como ser destro não deve ser antítese para ostracizar os canhotos e que a adaptação social às diferentes formas de performances corporais não deve ser uma batalha a ser vencida à palmatória, senão por meio de diálogos inclusivos e reativizadores das realidades.
O mesmo se pode dizer da sua acolhedoraabordagem sobre a homoafectividade, num mundo caracterizado pela predominância de preconceitos visceralmente lesivos e descaracterizantes. Aoabordar este tema, a autora encontra espaço para enquadrar as dimensões sociais e institucionais da construção e reprodução do preconceito, com o exemplo da Associação LAMBA, cujo dossier de legalização como corpo associativo foi posto em banho-maria, nas gavetas da burocracia de Estado, por muitos e longos anos.
A mesma genica que a autora usa para cronicarsobre os tópicos supracitados, usa-a para revisitar, criticamente, os processos de construção das narrativas heróicas, desmitificando o “que se fala ou se cala” quando se invoca Josina Machel, os papéis de género, a estereotipada “função social da mulher” corriqueiramente dita “batalhadora”, “quesegura o lar”, “que acorda cedo” e muitas outras referências de peso similar que, aos olhos da autora, concorrem para a perpetuação de um sistema patriarcal que confrange a mulher de desfrutar da plenitude da igualde de direitos, muito além da subordinação a sistemas de crenças e tabus com carácter opressor. E porque, tomando de empréstimo a expressão que intitula uma das cronicas, “natural não treme”, na mesma obra a autora encontra espaço para a exemplificação de práticas e experiências em que os oprimidos, a mulher em particular, demostra a sua capacidade de agenciamento social.
Através da imersão nos meandros da cultura Makuwa e dos sistemas matrilineares da região centro e norte do país, a autora subverte a visão da mulher como objecto de prazer, para inscrevê-la em cenários onde a praxe social prima pelo respeito ao direito da mulher em perseguir seus prazeres e deleites, sem que isso tenha que transformar-se em factores de roturas sociais: O Assertivo “se não aquenta apantona”, “mas deixa a milha filha em paz” evidencia, não uma promessa de ruptura, mas uma tensão constituinte das relações sociais, demonstrando como as relações e o equilíbrio social se cozem com linhas ténues e que a gestação de consensos sociais materializa-se por múltiplas avenidas.
Na segunda parte da obra, a autora exibe o seu vasto manancial intelectual e toda uma epistemologia das artes, literatura, antropologia e filosofia para, com um invejável rigor metodológico e de forma magnânima, fazer uma ode aos seus pares escritores, artistas e outros, perpassando múltiplas gerações.
Na parte dois da obra, a autora inaugura, visto no conjunto dos textos, uma profícua plataforma de diálogos intertextuais explorando, à fundo, obras e textos de alguns dos nossos mais consagrados autores emparelhados numa espécie de espelho, em que os ícones da literatura moçambicanadesfilam no mesmo panteão, com os seus herdeiros, não no sentido genealógico do termo, é claro.
Para não ser redundante, escuso-me da tarefa de fazer resenhar as reflexões e análises dos cruzamentos reflexivos que a autora faz sobre as obras de seus pares na segunda parte do livro cabendo-me, apenas, convidar os leitores a capitalizarem do privilégio que nos é dado pela autora para revistar estilos, formas e conteúdos de parte do nosso edifício literário, compilados num mesmo espaço, numa sequência de folhas que, no que experienciei, ao abrir vem-nos uma sede de ver a página seguinte.
Em parcos termos, com esta obra Entre fronteiras Literárias e Outros Textos, de Sara Laisse, estamos diante de uma obra com sabor autobiográfico, “uma literatura” simultaneamente engajada e militante, “uma literatura” solidária e humanista, que revolve a beleza, os traumas da coexistência social mostrando com que moedas se fazem as regras sociais e onde podem estar escondidas as moedas que podem ser usadas para recriar os (des)equilíbrios das vivencias sociais. Uma obraque revisita os meandros dos ritos da vida, das fontes de crenças e valores sociais, mas também das estruturas mentais e linguísticas que viabilizam a interação sociocultural.
Uma obra que evoca e prima pela harmonia, conforme o retrato das mulheres descritas numa das crónicas, que se debatiam em encontrar as melhores formas de pressionar os homens para a prossecução da paz: entre greve de sexo e exposição da nudez em marcha o que poderia ser mais dissuasivo?
Por fim, mas de não de menos importância, nesta obra, Sara Laisse inaugura uma forma de pensar e retratar temas e problemas de consequências estruturalmente fundantes dos modos de ser e estar em sociedade, ao converter “o político” em tema, sujeito e objecto de crónica, estabelecendo um novo marco na sua forma de pronunciar pensamentos. Não obstante as ressalvas com que a autora procura acautelar os leitores sobre a delicadeza dos temas retratados, arrebatou-me com a mestria que lhe é característica, em dois explícitos ensaios, em que retrata cenários políticos conjunturais com devida equidistância e admirável generosidade. Mais do que os seus habituais “passeios no parque”, nesta obra a autora desbrava novos vieses de cronicar ao abraçar, “o político”, como tema da sua fluida e aprazível escrita. Um caminho sem volta, creio eu, para o nosso deleite literário e achocalhar de consciência (política, sobretudo). O excerto abaixo, fala por si:
“Ninguém ganhará a contenda, enquanto não baixarmos a cólera, não nos chamarmos à razão: uns e outros. Não dialogarmos e não nos recordarmos do sentido da justiça e da paz. O mandato do “grande poder”, do partido que está na “ordem do dia” no país, já vai adulto em idade, mas em actos continua a injustiçar e a escravizar os mandados, os que têm “menos poder”. Entretanto, a injustiça e a escravatura não têm mais lugar para triunfar. Sempre foram combatidos e continuarão a sê-lo. Sempre houve “pequenos” e “grandes poderes”, mas há que se ponderar o respeito de uns sobre outros, sobretudo dos maiores pelos menores”.
A imagem da moeda no braço do gira-discos não me saiu da cabeça, assim que terminei de ler o livro. Uma vez mais, Sara Laisse soube equilibrar o peso da sua caneta, ao escrever estas crónicas e ensaios e, de “bacela”, mostrar-nos as fontes e formas de materialização da sua arte, além de demonstrar um genuíno apreço e compromisso com o outro (no feminino, em particular) e com todos os seus leitores (universalmente falando) abordando temas e problemas que nos fazem pensar, ajuizar, sorrir e chorar ou simplesmente relaxar… como as boas obras literárias não defraudam.
Chidenguele, 27 de Maio de 2026





