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1 de July, 2026

Relatório aponta crescimento da desinformação no espaço digital em Moçambique

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Um Relatório do MISA-Moçambique sobre o Estado da Desinformação no Espaço Digital em Moçambique, no ano de 2025, alerta para o crescimento do fenómeno da desinformação no ambiente digital e os impactos estruturais que representa a democracia, instituições e para a sociedade.

Apresentado pelo jornalista e pesquisador Armando Nhantumbo, o estudo adopta uma definição baseada em dois elementos centrais: a criação ou manipulação deliberada de informação e a intenção explícita de enganar ou obter ganhos políticos, económicos ou sociais.

Segundo o pesquisador, a desinformação deixou de ser um fenómeno periférico para se tornar um dos principais desafios contemporâneos. A fonte recordou que, há cerca de duas décadas, os debates sobre ameaças às democracias concentravam-se em questões como fraudes eleitorais, conflitos e crises políticas. Actualmente, a desinformação ocupa um lugar central nas discussões sobre a saúde democrática.

Para explicar este cenário, Armando Nhantumbo apontou uma conjugação de factores que descreveu como uma “tempestade perfeita”, nomeadamente, a expansão da internet, o crescimento das redes sociais digitais e o avanço da inteligência artificial. Estes elementos, segundo o jornalista, alteraram profundamente os mecanismos tradicionais de circulação da informação.

O investigador destacou ainda o enfraquecimento do papel dos chamados gatekeepers – mecanismos tradicionais de filtragem e validação da informação – permitindo que qualquer utilizador se torne simultaneamente consumidor e produtor de conteúdos. Para ele, apesar de este processo ter democratizado o acesso à informação, trouxe igualmente desafios relacionados com a veracidade e a responsabilização.

Outro factor apontado por Nhantumbo está relacionado com o modelo de funcionamento das grandes plataformas digitais, que tende a favorecer conteúdos polémicos, controversos ou emocionalmente mobilizadores, em detrimento de informação factual e verificada.

Em Moçambique, apesar dos níveis relativamente baixos de acesso digital, os indicadores continuam em crescimento. De acordo com os dados apresentados, o país conta com cerca de sete milhões de utilizadores da internet e perto de quatro milhões de utilizadores de redes sociais, cenário que amplia os desafios relacionados com a qualidade da informação.

O relatório sublinha que a desinformação não constitui um fenómeno novo, mas encontra actualmente condições mais favoráveis para prosperar, impulsionada pela erosão da confiança pública nas instituições democráticas, nos processos políticos e nos meios tradicionais de comunicação.

A recolha de dados para o relatório decorreu ao longo de 2025 e foi realizada através de uma plataforma baseada em inteligência artificial, capaz de monitorizar conteúdos digitais em tempo real e identificar informações potencialmente falsas. Posteriormente, os conteúdos passaram por processos de verificação que combinaram ferramentas digitais de fact-checking com técnicas tradicionais de apuramento jornalístico.

De acordo com o Relatório, os casos identificados foram classificados segundo diferentes graus de veracidade, destacando-se duas categorias principais: informação completamente falsa (criada sem qualquer base factual) e informação manipulada ou enganosa (quando conteúdos reais são retirados do contexto original para produzir interpretações falsas).

Entre os resultados apresentados, o relatório identificou 81 casos de desinformação em 2025, comparativamente aos 28 casos registados em 2024. Embora o estudo anterior tenha abrangido apenas o período compreendido entre Julho e Dezembro, os dados apontam para uma tendência de crescimento. Dos 81 casos analisados, 64 foram classificados como completamente falsos, enquanto 10 correspondiam a conteúdos manipulados.

De acordo com o relatório, a dimensão política destacou-se como a área mais afectada pela circulação de desinformação. Entre os exemplos apresentados constam falsas notícias sobre alegados pedidos de demissão, mortes de figuras públicas, detenções e outros conteúdos atribuídos indevidamente a órgãos de comunicação social. Além da política, o relatório identificou ocorrências em áreas como economia, sociedade e emprego, incluindo tentativas de fraude através de anúncios falsos de recrutamento.

Outro aspecto observado pela pesquisa foi o crescimento de páginas, grupos e perfis criados especificamente para amplificar conteúdos de desinformação. Entre as estratégias usadas destacam-se o anonimato, o uso de pseudónimos e a reprodução de formatos visuais semelhantes aos dos órgãos de comunicação social tradicionais, numa tentativa de conferir legitimidade aos conteúdos.

Quanto às plataformas utilizadas, o Facebook foi identificado como principal espaço de origem da desinformação em Moçambique, seguido pelo WhatsApp, que desempenha um papel relevante na redistribuição e amplificação dos conteúdos.

Por essa razão, o jornalista Armando Nhantumbo defende que o combate à desinformação exige respostas estruturais e coordenadas entre Governo, sociedade civil, academia, meios de comunicação social e plataformas digitais.

O pesquisador recomenda o reforço das iniciativas de verificação de factos; o investimento em literacia digital desde o ensino básico; o fortalecimento da investigação científica; o desenvolvimento de mecanismos regulatórios equilibrados; e uma comunicação institucional mais rápida e transparente. “O cidadão deve deixar de ser apenas consumidor de informação e assumir um papel activo, questionando conteúdos, fontes e contextos”, sentenciou. (Marta Afonso)

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