“Dezenas de membros da oposição e jornalistas foram sequestrados ou mortos em Moçambique desde as eleições gerais de 2024. Enquanto as autoridades falharam em grande parte na investigação da violência, reportagens exclusivas revelam o envolvimento de figuras ligadas ao partido governista Frelimo e às forças de segurança moçambicanas na identificação e perseguição de críticos do governo”, relata um consórcio de 30 jornalistas em 10 países, coordenado pela Forbidden Stories.
Trata-se de uma rede internacional de jornalistas cuja missão é dar continuidade às investigações de outros repórteres que foram silenciados. O governo impôs um bloqueio quase total à imprensa sobre Cabo Delgado e a guerra, informou a Forbidden Stories em dois artigos publicados na terça-feira (dia 9 de Junho) e quarta-feira (10 de Junho). As reportagens foram publicadas pelo jornal moçambicano Zitamar, membro do consórcio.
Desde as eleições de 2023, cinco jornalistas foram mortos e houve dois casos de envenenamento não fatal. Uma denúncia apresentada pelo partido da oposição ANAMOLA à Procuradoria-Geral da República documenta seis casos em que “esquadrões da morte” alvejaram membros da oposição.
Um dos assassinatos de maior repercussão ocorreu em 19 de Outubro de 2024, quando um esquadrão da morte assassinou Elvino Dias, líder da oposição e advogado do candidato presidencial Venâncio Mondlane, e Paulo Guambe, um dirigente do PODEMOS, partido da oposição que apoiou a candidatura de Mondlane à presidência.
Em outro incidente, em 22 de Dezembro de 2024, homens armados não identificados balearam Eugenio Raúl Madeira, secretário de mobilização do PODEMOS na província da Zambézia. Outros casos envolvem membros de unidades especiais da polícia que supostamente sequestraram e espancaram opositores políticos.
De acordo com um relatório da Human Rights Watch de 2025, “as autoridades moçambicanas não conseguiram conduzir investigações confiáveis sobre a onda de assassinatos políticos após as eleições gerais de Outubro de 2024”.
A reportagem destaca o sequestro de Arlindo Chissale, um repórter e editor de 46 anos do Pinnacle News, um jornal comunitário online com mais de 70.000 seguidores. Especialista em sua região natal, Cabo Delgado, foi um dos jornalistas mais importantes a documentar a guerra na região. Chissale também documentou fraudes eleitorais e foi um membro actuante da nova oposição.
Na manhã de 7 de Janeiro de 2025, num dia quente e húmido, em Pemba, Chissale embarcou num autocarro com destino a Nacala-Porto. Durante a viagem, um carro branco sem identificação bloqueou repentinamente a estrada. Cinco homens, dois dos quais supostamente trajando uniformes da Polícia, arrastaram Chissale para fora do autocarro, o espancaram, o empurraram para dentro do carro e fugiram, de acordo com um relatório da ONU. Quase um ano e meio após seu sequestro, o destino de Chissale permanece desconhecido, mas presume-se que ele esteja morto.
O projecto “Moçambique Exposto” constatou que o uso de chefes de quarteirão “é um dos métodos do Estado para reprimir a dissidência. Segundo diversas fontes entrevistadas pelo consórcio, os chefes de quarteirão são agentes locais ligados ao partido governista que monitoram a população em nível de bairro. Embora não possuam status administrativo formal, eles permanecem profundamente inseridos no cotidiano dos moçambicanos [e funcionam] como os olhos e ouvidos do bairro.”
“Segundo uma fonte diplomática, chefes de bloco eram usados para monitorar membros da oposição, incluindo activistas de escalões inferiores que haviam organizado ou participado de manifestações pós-eleitorais, e então enviavam seus nomes para instâncias superiores da Frelimo. Um chefe de bloco, que falou ao consórcio sob condição de anonimato, confirmou que, em alguns casos, informações circulavam entre as estruturas locais e as autoridades”, diz o relatório.





