A STV publicou ontem, logo a seguir ao seu jornal da noite, uma grande reportagem sobre a Estrada Nacional Número 1 (N1), na qual expôs o que a globalidade dos moçambicanos já sabia:’que parte considerável daquela rodovia está em estado lastimável, de quase intransitabilidade, apesar da sua importância na ligação entre as três regiões de Moçambique.
Mesmo sem mostrar de forma explícita – ou mesmo desinteressada? – os troços da N1 que foram já alvo de intervenção, sobretudo desde meados de 2025, estando, por isso, em condições razoáveis, a STV acabou assumindo que nem tudo está mal na N1, ao referir que 45% da estrada está em situação de intransitabilidade, do que se extrai, por exclusão de partes, que os remanescentes 55% estão bons.
Esta é, na verdade, a mais pura verdade, “pecando”, talvez, por não ser objecto de comunicação minimamente estruturada aos moçambicanos, sobretudo por parte da Administração Nacional de Estradas (ANE): há, efectivamente, troços da N1 que já não são o que algumas imagens de arquivo da STV exibiram, no que se incluem os que beneficiaram de obras de manutenção periódica, ou seja, de intervenção emergencial.
Sendo inegável que em jornalismo o que normalmente vende é o que não está bem – até como _wake-up call_ para quem governa, tendo, por isso, como missão resolver problemas! -, sobretudo quando se sacrifica o equilíbrio informativo, como que a pretender mostrar que nada vai bem, o estado actual dos troços já intervencionados mostra a assertividade do Presidente da República, Daniel Chapo, quando disse na Assembleia da República, em finais de 2025, o seguinte: “A N1 está a ser reabilitada em silêncio e sem holofotes e nem reportagens”.
Carta sabe, de uma fonte da ANE, que, há semanas, iniciaram obras de grande envergadura no troço Gorongosa-Caia, numa extensão de 84 quilómetros, sob a responsabilidade de um empreiteiro chinês apurado em concurso público internacional, a CRBC, contando elas com o financiamento do Banco Mundial.
Ainda sobre a reportagem de ontem do Ricardo Machava, da STV, abundam opiniões desabonatórias ao Governo de Chapo sobre o actual estado da N1. Percebe-se a frustração, mas era mesmo expectável que em apenas um ano, marcado por alguns meses de paralisação material do país por conta da crise pós-eleitoral, o actual Governo colocasse a N1, em toda a sua extensão (perto de dois mil quilómetros), em condições? Certamente que não!
Por outro lado, ainda que o próprio Presidente Chapo possa, eventualmente, não ter ciência disso, pela natural pressão que sobre ele recai quanto à urgência da normalização do país, a reportagem da STV é-lhe muito favorável, bem vistas as coisas.
Pelas andanças que já tivemos na gestão de projectos, estamos em posição de afirmar, com ampla segurança, que qualquer projecto sério, seja ele na perspectiva de direitos (como o seria um projecto sobre governação democrática, por exemplo), ou na perspectiva de necessidades (como é o caso da reabilitação ou reconstrução de uma estrada), há algo fundamental que deve ser feito logo no seu início: um baseline study, ou seja, um estudo de linha de base, sem o qual a aferição de progresso pode ser uma operação demagógica.
Por isso, a reportagem de ontem sobre a N1 pode ser assumida como uma espécie de baseline sectorial essencial que a STV ofereceu, gratuitamente, à Administração Chapo, agora que já tem a máquina minimamente oleada, uma vez estar já esgotado o chamado “período de graça”.
Neste contexto, um baseline, um estabelecimento da linha de base, ou seja, do “status quo” no momento do início de um projecto, como o é a reabilitação e/ou reconstrução da N1, deve ser visto como uma ferramenta imprescindível de accountability, de prestação de contas, cujo fulcro é a realização de uma análise detalhada do objecto a ser alvo de intervenção, sendo feito no início do mesmo.
Não somos ingénuos para acharmos que o Banco Mundial, bem assim outros parceiros do Governo de Moçambique, estejam a financiar, ou prestes a fazê-lo, intervenções profundas na N1 sem que a ANE tenha documentado, no project proposal, o estado actual da rodovia. Diríamos o mesmo quanto a estudos económicos, sendo estes que informam o processo decisório sobre quais troços devem ser priorizados, em detrimento de outros.
Mas o povo, a opinião pública, a sociedade em geral, não se alimenta de relatórios técnicos, que muitas vezes terminam em circuitos-fechados, mas de percepções que são comumente construídas pelos órgãos de comunicação social, como é o caso da situação em pauta.
Com a cada vez mais crescente severidade das mudanças climáticas, conforme o evidenciam os estragos que as chuvas e inundações de inícios deste ano causaram na zona de 3 de Fevereiro e na baixa de Xai-Xai, na N1, é óbvio que os custos das obras, nos termos anteriormente orçamentados, devem ser actualizados. E construir uma estrada resiliente às mudanças climáticas não é nada barato, podendo rondar os cerca de USD dois milhões por cada quilómetro, se se quiser mesmo construir em linha com o estado-da-arte.
Além da extraordinária consultoria gratuita oferecida pela STV, o Presidente Chapo tem outra razão para ser um homem feliz: a iminente construção da nova ponte sobre o Rio Licungo e a respectiva estrada circular, à entrada de Mocuba (para quem vai na direcção Quelimane-Nampula), sobre a N1, com o que se porá ponto final aos cortes na ligação centro-norte que amiúde acontecem na N1, dado o estado precário em que se encontra a “ponte velha”.
A nova ponte sobre o Rio Licungo, que Carta sabe estar orçada em pouco mais de USD 300 milhões, financiados pelo Governo norte-americano através da agência Millennium Challenge Corporation (MCC), vai ser erguida em linha com as mais avançadas tecnologias de resiliência climática, o que deve ser visto como o rumo a seguir, apesar dos elevados investimentos que se demandam.
Concluindo, seria até uma genial ideia que Daniel Chapo chamasse Daniel David, o dono da STV, e Ricardo Machava, o jornalista que fez a reportagem dominical que deu mote a este texto, para lhes agradecer, na presença do Ministro dos Transportes e Logística, João Matlombe, pela extraordinária consultoria gratuita que lhe proporcionaram, e que chegou em tempo certo.





