Vezes sem conta, escutamos as pessoas afirmarem que “cada velho que morre é como uma biblioteca que se fecha”. A imagem é poderosa. Cada ancião leva consigo experiências, histórias, conhecimentos e sabedorias que, muitas vezes, jamais serão recuperados. Mas as bibliotecas nasceram, precisamente, para desafiar essa finitude, para contrariar essa verdade que, durante muito tempo, fez parte do destino das sociedades. As bibliotecas são lugares onde a memória resiste ao tempo e onde o conhecimento encontra formas de sobreviver às gerações. A nossa biblioteca, em particular, aprendeu a ser o espaço onde o diálogo entre o passado, o presente e o futuro acontece todos os dias.
Neste Dia Mundial das Bibliotecas, não celebramos apenas um edifício repleto de livros. Isso não faria justiça ao significado desta comemoração. Celebramos este e outros espaços que alimentam o pensamento crítico, estimulam a investigação, preservam a memória colectiva e democratizam o acesso ao conhecimento.
A Biblioteca Central da Universidade Pedagógica de Maputo (UPM) ocupa um lugar muito especial nesta missão. Localizada no coração da cidade de Maputo, recebe anualmente milhares de utilizadores, crianças dos jardins de infância,estudantes do ensino secundário das escolas públicas vizinhas, estudantes universitários, investigadores, professores e cidadãos movidos apenas pela curiosidade intelectual.
O seu acervo ultrapassa os 15.900 títulos, com uma média de três exemplares por obra, reflectindo um esforço permanente de actualização e diversificação bibliográfica. A estes juntam-se mais de 40 mil monografias, dissertações e teses, produzidas ao longo da história da instituição, constituindo um dos mais importantes repositórios da investigação académica nacional.
Nas suas estantes convivem colecções raras do período colonial, obras fundamentais do período pós-independência, documentos sobre a luta de libertação nacional, publicações dos seus protagonistas, bem como centenas de livros produzidos por docentes da própria UPM, no activo ou eméritos. Este património faz da Biblioteca um espaço privilegiado para compreender a história da educação, da cultura e da construção do Estado moçambicano.
Embora a Biblioteca ainda não acompanhe os quase quarenta anos de existência da UPM, sendo cerca de meia década mais jovem, afirmou-se rapidamente como uma das maiores e mais relevantes bibliotecas universitárias de Moçambique.
Esta afirmação também se construiu graças à generosidade de muitas famílias e instituições que confiaram à UPM a preservação das suas memórias. O saudoso Professor Paulus Gerdes, antigo Reitor, matemático de renome internacional e um dos maiores investigadores da etnomatemática africana, legou à Universidade a sua extraordinária colecção bibliográfica e documental. Outras famílias seguiram-lhe o exemplo, entre elas as famílias Antão, Loforte e Durão, enriquecendo continuamente este património colectivo. A estas juntam-se contributos relevantes de personalidades como o Professor Renato Matusse, bem como de autores individuais que, através da oferta das suas obras, ajudam a manter viva a circulação do conhecimento.
A Biblioteca tem beneficiado, igualmente, do apoio de instituições nacionais e internacionais que, por meio de doações, parcerias e oferta de livros, ampliam o seu acervo e fortalecem a sua missão pública. Entre essas instituições destacam-se a FEMA, a WLSA, a Universidade do Minho, a Universidade de Lisboa, a Embaixada da França, a Embaixada da Espanha, o Alto Comissariado da Índia e a Universidade de São Paulo. A este movimento de generosidade somam-se editoras e distribuidoras, como a Kapicua – Livros e Multimédia, a Alcance, a Gala-Gala e a Ethale, que têm contribuído para aproximar o livro dos seus leitores e para renovar, de forma permanente, a vida intelectual da Biblioteca.
Cada doação é cuidadosamente catalogada pelas equipas técnicas da Biblioteca, que desempenham um trabalho silencioso, rigoroso e profundamente humano, garantir que o legado de cada autor, investigador ou família permaneça acessível às gerações futuras.
Igualmente, diversas instituições nacionais e internacionais confiaram os seus espólios à nossa guarda. Entre elas destaca-se a extinta USAID, que depositou na Biblioteca um vasto conjunto de relatórios, estudos e documentação técnica, incluindo versões digitais, hoje indispensáveis para investigadores de múltiplas áreas.
Mas uma biblioteca moderna não vive apenas dos livros que conserva. A Biblioteca Central da UPM tornou-se igualmente um vibrante espaço de encontros culturais e científicos. Recebe, regularmente, lançamentos de livros, homenagens a escritores nacionais e estrangeiros, debates, conferências, exposições, seminários e apresentações de revistas científicas com revisão por pares, produzidas pela própria Universidade. Os mais de três mil utilizadores mensais da Biblioteca bebem também destas experiências.
É, por isso, um lugar onde a leitura encontra a criação, onde a investigação dialoga com a sociedade e onde a cultura se reinventa permanentemente. A UPM orgulha-se da responsabilidade histórica que assumiu na formação de professores e de sucessivas gerações de quadros que hoje servem Moçambique em todos os sectores da vida nacional. Grande parte da intelectualidade moçambicana passou pelas suas salas de aula, pelos seus laboratórios e, inevitavelmente, pela sua Biblioteca.
Celebrar esta Biblioteca é, portanto, celebrar uma parte importante da construção do capital humano do país. O futuro reserva-nos novos desafios e novas oportunidades.
No âmbito do memorando de entendimento celebrado com uma reputada empresa do ramo energético, está prevista a disponibilização de equipamentos e soluções tecnológicas que permitirão ampliar significativamente os serviços digitais, facilitando o acesso remoto ao catálogo e às consultas em linha pelos nossos utilizadores. Será mais um passo decisivo para aproximar a Biblioteca das exigências da sociedade do conhecimento.
As bibliotecas deixaram há muito de ser simples depósitos de livros. Hoje, são centros de inovação, de preservação da memória, de produção científica e de cidadania. A Biblioteca da UPM é tudo isso. É um lugar onde a história permanece viva, onde a ciência se constrói diariamente e onde milhares de jovens descobrem, todos os anos, que cada livro aberto representa uma nova possibilidade de transformar o mundo. Mais do que uma biblioteca, ela é uma verdadeira catedral da literatura, da ciência e da memória de Moçambique.
Neste Dia Mundial das Bibliotecas, renovamos o compromisso de continuar a cuidar deste património, porque os livros preservam o passado, iluminam o presente e ajudam-nos a escrever, com esperança, o futuro. Uma universidade mede-se também pela qualidade da sua biblioteca. E uma nação mede-se pela importância que atribui aos seus livros





