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26 de May, 2026

A Lição que vem de Dakar

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Há um país, neste momento, que merece a nossa atenção mais do que qualquer outro no continente. Chama-se Senegal, fica do outro lado de África, fala uma língua diferente da nossa, mas está a fazer aquilo que tantas vezes prometemos a nós próprios e raramente cumprimos: resolver as suas crises

Em 31 de dezembro de 1980, o Presidente Léopold Sédar Senghor, poeta, fundador da Negritude, contemporâneo dos grandes nomes da nossa própria geração de libertação, fez algo de extraordinário. Demitiu-se. Aos 73 anos, depois de duas décadas no poder, achou que era altura de dar lugar a outros.

E não improvisou. Quatro anos antes, em 1976, alterou a Constituição para que o seu Primeiro-Ministro, Abdou Diouf, pudesse sucedê-lo automaticamente. Em 1977 disse-lhe, sem rodeios, que era esse o plano. Foi-lhe transferindo responsabilidades, dossiês, autoridade, presença pública. Quando finalmente anunciou a demissão no tradicional discurso de fim de ano, o aparelho de Estado já estava habituado a obedecer ao sucessor.

No dia 1 de janeiro de 1981, Diouf era Presidente. Não houve aquela coreografia trágica a que África tantas vezes nos acostumou. Houve continuidade. E Senghor regressou aos seus livros na França, onde morreu velho e respeitado, com a obra política e literária consolidada.

Foi o primeiro chefe de Estado africano a sair voluntariamente do poder. Num continente onde, naquela década, os presidentes deixavam o cargo de pés para a frente ou empurrados por tanques, Senghor saiu pela porta da frente, deixou a chave em cima da mesa, e foi escrever poesia.

Há três dias, o atual Presidente do Senegal, Bassirou Diomaye Faye, despediu o seu Primeiro-Ministro, Ousmane Sonko, e dissolveu o governo inteiro.

Faye e Sonko não eram, em rigor, dois homens. Eram um só projeto político partilhado por dois nomes. Chegaram juntos ao poder em abril de 2024, sob um dos slogans mais marcantes da política africana recente: Diomaye mooy Sonko ou Diomaye é Sonko.

A justiça tinha barrado Sonko de concorrer, e Faye, seu adjunto, candidatou-se no seu lugar. Saiu da prisão dez dias antes da votação e venceu à primeira volta com 54% dos votos. Era a vitória de uma geração inteira: jovem, urbana, impaciente, conectada.

Dois anos depois, o sonho rachou. E rachou-se onde costumam rachar os sonhos africanos: na dívida.

O governo descobriu, ou decidiu tornar público, um buraco de aproximadamente treze mil milhões de dólares em dívida não declarada herdada da administração Macky Sall. O FMI suspendeu uma linha de crédito de 1,8 mil milhões. A dívida pública chegou aos 132% do PIB.

Soa familiar? Devia. Conhecemos este filme. Pagámos este filme. Continuamos a pagá-lo. As nossas dívidas ocultas são um dos episódios mais dolorosos da história recente do continente, e nenhum país africano que tenha passado pela mesma experiência pode olhar para o Senegal com outra coisa que não reconhecimento.

Faye e Sonko discordaram sobre a saída. O Primeiro-Ministro, fiel à retórica que elegera, recusou a receita ortodoxa do Fundo Monetário Internacional . O Presidente, com a responsabilidade de quem responde pelas reservas cambiais, cedeu. E despediu-o.

Sonko, despedido por decreto lido na televisão pública, não convocou os seus apoiantes para a rua. Limitou-se a dizer, num comunicado breve, que iria dormir de coração leve. Aceitou a decisão como aquilo que constitucionalmente é: uma prerrogativa do Presidente da República.

E preparou-se para mudar de campo de batalha. Vai disputar a presidência do Parlamento, onde o seu partido tem a maioria. Vai bloquear o Presidente nas leis. Vai talvez disputar, e talvez vencer as próximas eleições. Tudo dentro das instituições.

Há uma diferença que parece subtil mas é abissal: a diferença entre uma crise política e uma crise institucional. Uma é normal em qualquer democracia que mereça o nome. A outra é o sintoma de que alguma coisa muito mais profunda está partida. O Senegal vive a primeira. Tem evitado, até agora, a segunda.

Quando Macky Sall, em 2024, tentou adiar as eleições para se manter no poder, foi o Conselho Constitucional senegalês que o travou. Quando Sonko foi preso, foi a pressão popular e não um golpe, que o libertou. Quando Faye decidiu despedi-lo agora, fê-lo por decreto, e o ex-Primeiro-Ministro foi para casa. Pode haver muita coisa errada com esta sequência. Mas há também algo profundamente certo: cada ator usa as armas que a Constituição lhe dá, e nenhum recorre àquelas que a Constituição lhe proíbe.

O Senegal não é um paraíso. Tem desigualdades brutais, juventude maioritariamente desempregada, uma economia sufocada pela dívida, um aparelho de Estado pesado, uma classe política em guerra civil interna. Tem todos os defeitos que conhecemos no resto de África. Mas tem uma coisa que muito poucos países africanos conseguiram consolidar em mais de cinquenta anos de independência: uma cultura institucional onde a derrota política não é o fim do mundo, e a vitória política não é uma licença para tudo.

Nunca teve um golpe militar. Resistiu à vaga autoritária dos anos noventa. Resistiu à vaga de juntas militares dos anos vinte deste século, que tem varrido o Sahel à sua volta como uma epidemia. E continua, em 2026, a demonstrar que mesmo as ruturas mais ásperas dentro do poder podem ser resolvidas sem sair da Constituição.

Os povos africanos têm demonstrado, vezes sem conta, que têm capacidade de mobilização, sentido de justiça e disposição para arriscar muito por aquilo em que acreditam.

Senghor soube perder o seu próprio cargo, em pleno apogeu, em 1980. Diouf, vinte anos depois, soube perder umas eleições para Abdoulaye Wade e ir-se embora sem ressentimento. Sonko, esta semana, soube perder um governo e mudar de campo sem destruir o país.

É um músculo que se treina, esta arte de perder. E é um músculo que, em grande parte de África, continuamos sem exercitar o suficiente.

Olho para o que se passa em Dakar com uma mistura de admiração e melancolia. Admiração pelo que eles têm conseguido construir. Melancolia pelo que tantos países africanos ainda não começaram verdadeiramente a construir.

Senghor, lá onde estiver, deve estar a ler os jornais com aquele meio-sorriso de quem percebeu, há muito tempo, que a maior obra política da sua vida não foi o que escreveu nem o que governou, foi o que teve a coragem de deixar.

Há lições que se aprendem com a história. E há outras que, por orgulho, por medo ou por mero hábito, continuamos a recusar aprender.

Cabe-nos decidir, em cada país deste continente, de que lado dessa fronteira queremos estar.

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