Passam quase quatro meses que o Serviço de Informações e Segurança de Estado (SISE) não tem Director-Geral, desde que o anterior líder, Bernardo Lidimba, perdeu a vida em um acidente de viação, ocorrido no distrito de Mapai, província de Gaza.
Lidimba perdeu a vida no passado dia 02 de Novembro em circunstâncias até aqui não esclarecidas pelo Governo. O ex-líder da secreta moçambicana estava na companhia de mais três pessoas, nomeadamente, o motorista, o ajudante de campo e um assessor. Os três estavam hospitalizados com ferimentos, mas sem risco de vida.
Na véspera, por causa da instabilidade política a escalar para o caos que o país vive, Lidimba participou de uma reunião do Comando Conjunto das Forças de Defesa e Segurança (CCFDS), um órgão colectivo de coordenação operativa institucional cuja missão é “analisar, avaliar e delinear estratégias com vista a fazer face a diversas situações emergentes na garantia da segurança nacional”. Após essa reunião em Maputo, Lidimba partiu para uma “missão” secreta, no norte de Gaza, junto da fronteira com o Zimbabwe.
Curiosamente, ele partiu sozinho para essa missão sem a companhia do Director da Divisão de Operações Internas do SISE e do Director Nacional na Divisão de Operações Internas do SISE, e que, por regra, participaram num evento semelhante de trabalho operativo.
Os serviços secretos moçambicanos têm, neste momento, como Director-Geral Adjunto, Joia Haquirene, que ficou conhecido ao testemunhar, como primeiro declarante, no julgamento das “dívidas ocultas”, que decorreu entre Novembro de 2021 e Fevereiro de 2022, na Cadeia de Máxima Segurança, vulgo BO, na província de Maputo.
A nomeação de Haquirene, em Junho de 2022, foi vista como uma “premiação” aos préstimos daquele agente secreto durante o julgamento do caso das “dívidas ocultas”, na tenda da B.O.
Haquirene foi o fundador da GIPS, a principal empresa (veículo operativo) do SISE e um dos accionistas das três empresas caloteiras, tendo desempenhado as funções de Administrador até ao ano de 2012. O novo adjunto da secreta tinha uma quota de 30%, mas ao Tribunal disse que a participação pertencia ao SISE, pelo que, não ganhou um sequer um centavo pelas acções.
Ao Tribunal, Haquirene disse ainda que não tinha funções específicas na empresa, porém, assinou três lotes de cheques para o pagamento de diversos serviços, na ausência de um dos colegas, tendo feito cópias do segundo e terceiro lote para questões de garantia. Um dos cheques era de 10 milhões de Meticais e foi autorizado por Gregório Leão, então Director da secreta.
Gregório Leão, um dos julgados e condenados, cuja sentença ainda não transitou em julgado por o grosso dos implicados ter recorrido da mesma, caíu em desgraça como Director do SISE, um cargo que aliás os seus detentores têm tido destino no mínimo sinistro.
O finado Bernardo “Tchombe” Lidimba, sucessor de Leão, tomou posse em Junho de 2022, tendo sido o terceiro DG do SISE na administração Nyusi. Ele foi nomeado por Filipe Nyusi em Maio de 2022, em substituição de Júlio dos Santos Jane. Este tinha sido nomeado em 2017, em substituição de Lagos Lidimo. Antes da posição cimeira no SISE, Lidimba passou sucessivamente pelos cargos de Cônsul de Moçambique no Malawi (por regra, todos os chefes dos serviços consulares de Moçambique no estrangeiro são membros do SISE), Chefe do Protocolo Nacional e Embaixador no Quénia.
Como Lidimba, pouco antes da passagem de testemunho entre Nyusi e Chapo, um antigo Director o SISE, José Castiano de Zumbire, natural do Chimoio, perdeu a vida em circunstâncias estranhas em 2004, na transição entre o consulado de Joaquim Chissano e o do Armando Guebuza.
Foi Zumbire que fez a transição entre o SNASP e o SISE e, em 2004, logo após a tomada de posse de Guebuza, ele foi encontrado morto, tendo sido levantada a suspeita de “envenenamento”, alegação que nunca foi provada em sede da medicina legal.
Na altura, o falecido médico legista do Hospital Central de Maputo, Eugénio Zacarias, que era afilhado de Zumbire, bem queria fazer o derradeiro exame ao cadáver do finado para esclarecer os motivos da sua morte, mas a família foi instruída para evitar o procedimento.
Tal como Zumbire, Lidimba morreu em circunstâncias estranhas, aventando-se agora, em muitos círculos, a hipótese conspiratória da “queima de arquivo”.
”Carta” está na posse de informações dando conta que o Presidente Daniel Francisco Chapo já tem nomes e perfis em sua mesa, para a sua escolha de novo Director-Geral do SISE. Fontes de ”Carta” aventam a possibilidade de dois quadros da inteligência militar estarem na calha da ”lotaria” de Chapo.
Tais quadros da inteligência castrense têm ajudado o PR a avaliar e formular estratégia de resposta à actual escalada de caos, tanto através de dossiers como de consultas conversacionais, ao estilo de entrevistas prospectivas de emprego. Caso o Presidente Chapo opte por um desses quadros, espera-se uma razia no SISE para expurgar anticorpos produzidos pelos antigénios nyussistas.
Antigénios esses, afiançam fontes de ”Carta”, foram instalados para deliberada e criminosamente desorganizar a secreta e permitir que vários sectores empresariais ao arrepio da lei prosperem sem vigilância e escrutínio dos vários organismos de defesa e segurança, que devem operar em cadeia e como vasos comunicantes na prevenção e combate ao crime que ameaçe a segurança do Estado.
A reforma Chapista do SISE deverá atingir o topo da sua hierarquia mas, e sobretudo, vai mudar o pensamento e a estratégia de operacionalização do pensamento securitário e acabar com as boladas como a das ”dívidas ocultas”. Os defensores da emergência da escola da inteligência militar no comando do SISE, pela situação calamitosa que o país vive e a porosidade das suas várias fronteiras para toda uma panóplia de crimes que precisam de novos catálogos para o seu combate, advogam por maior vigilância e ”profiling” dos ecossistemas de redes sociais férteis ao crime e fomento da sedição nas zonas de fronteira terrestres, junto à costa e às zonas ribeirinhas, e no ciberespaço. (Milton Machel)