A África do Sul acusou na quarta-feira (15) o Gana e a Nigéria de conduzirem uma campanha persistente para isolar o país do resto do continente africano, sob pretexto de criticar ataques xenófobos contra os seus cidadãos.
Pretoria declarou que os dois países estão a propagarem notícias falsas sobre xenofobia para criar a impressão de que o país agora é um Estado pária e que tribunais internacionais precisam intervir, disse Vincent Magwenya, porta-voz do Presidente da África do Sul, CyrilRamaphosa, em conferência de imprensa.
“Mais preocupante tem sido a disseminação de informações falsas por um representante diplomático de um país que se tornou central nesta campanha. Até mesmo as trocas diplomáticas rotineiras durante reuniões foram deliberadamente deturpadas para criar a impressão de que a África do Sul está sendo isolada”, afirmou Magwenya.
Questionado se Gana estava a propalar informações falsas sobre a África do Sul, o porta-voz de Ramaphosa foi peremptório: “A resposta é sim”.
O porta-voz presidencial salientou que a África do Sul identificou o que descreveu como uma campanha “impulsionada principalmente por Gana e, em menor grau, pela Nigéria”.
Magwenya sublinhou que Pretória expressou as suas preocupações directamente ao Alto-Comissário de Gana, Benjamin Quashie, sobre a disseminação de notícias falsas a respeito da África do Sul.
“O Alto-Comissário deve se esforçar para verificar as informações que divulga e fazer isso por meio das autoridade”, frisou.
Avançou que não havia evidências de que os ganenses tivessem sido afectados de forma desproporcional pela recente onda de protestos contra a imigração ilegal na África do Sul.
“Houve um incidente envolvendo um cidadão e não foi um incidente fatal.
“E, portanto, é surpreendente que continuemos a presenciar essa postura anti-diplomática e não construtiva vinda de alguns em Gana”, acrescentou.
Magwenya afirmou que havia líderes políticos no Parlamento do Gana que reconheciam o desafio que a África do Sul enfrentava e que não estavam satisfeitos com a postura do Alto-Comissário e do ministro ganês das Relações Exteriores, Samuel Okudzeto Ablakwa.
Gana solicitou que União Africana (UA)inclua a questão da xenofobia na África do Sul na agenda da cimeira da organização, que será realizada no Egipto em Outubro,antecedida de uma reunião dos ministros das Relações Exteriores da organização continental em Julho, em Adis-Abeba.
O porta-voz presidencial também foi questionado se a África do Sul esperava represálias de países como Nigéria e Gana, já que alguns líderes desses países, principalmente parlamentares, haviam afirmado que os activos de empresas sul-africanas nesses países deveriam ser nacionalizados como forma de punir o país.
“Não há absolutamente nenhuma razão para que Gana, por exemplo, opte pela nacionalização de activos de empresas sul-africanas”, respondeu a fonte.
Embora a Presidência tenha ouvido os apelos, Magwenya afirmou que só responderá se eles se tornarem política oficial do governo.
“Ouvimos os rumores e só responderemos a algo oficial”, enfatizou.
Referiu que as relações económicas e comerciais entre os dois países eram mutuamente benéficas e que, por exemplo, “a maioria, senão todos os funcionários da empresa sul-africana de telefonia celular MTN em Gana eram ganenses”.
A apropriação de activos de empresas sul-africanas em qualquer país seria contraproducente, alertou.
“Isso sinalizaria que esses países estão agora fechados para o comércio e os negócios”, destacou.
O porta-voz de Ramaphosa insistiu que Gana e Nigéria estão a espalhar narrativas falsas de xenofobia para isolá-la, aproveitando-se de um contexto marcado por crescentes tensões associadas a ataques xenófobos.
“Isso ocorre apesar das inúmeras comunicações oficiais do governo condenando actos de justiça com as próprias mãos contra estrangeiros, reafirmando o papel primordial do Estado na aplicação das leis de imigração e o compromisso com a supremacia da nossa Constituição”, disse Vincent Magwenya.
Crítica pública
Diplomatas e outros funcionários do Gana e da Nigéria criticaram publicamente Pretória, incluindo acusações de que o governo não investigou adequadamente os supostos assassinatos de alguns de seus cidadãos na África do Sul, durante protestos e distúrbios contra imigrantes.
Magwenya também parecia estar se referindo especificamente ao adiamento de uma reunião da Comissão Binacional África do Sul-Gana em Acra, que um porta-voz do governo ganês disse ter sido devido a ataques contra ganeses, mas que Pretória insistiu ser devido a sobreposição de agendas.
O porta-voz presidencial afirmou que a campanha estava “perdendo força”, pois a África do Sul não estava isolada e permanecia “firmemente engajada com o continente africano e com o resto do mundo”.
Mencionou a propósito os compromissos recentes de Ramaphosa, incluindo o seu encontro na última sexta-feira em Paris com o presidente francês Emmanuel Macron e a co-presidência da reunião do Grupo de Líderes do Comite Directivo de Alto Nível sobre Educação, juntamente com o Director-Geral da Unesco e a sua participação na Cimeira de Transformação da Educação +4.
Magwenya também citou os encontros ou conversas de Ramaphosa este ano com os Presidentes de Moçambique, do Malawi, do Botswana, do Quenia, Zimbabwe e da República Democrática do Congo, país que a África do Sul está a ajudar a combater o surto de Ebola, bem com os líderes dos países da União Aduaneira da África Austral (SACU).
“Esta é uma África do Sul engajada com o continente africano e que jamais poderá ser isolada”, afirmou disse, acrescentando que “a visão de que a voz de autoridade da África do Sul está perdendo força está bem longe da verdade, assim como da realidade”.
Adiantou que a iniciativa diplomática de Ramaphosa junto aos líderes africanos sobre migração estava em andamento. A iniciativa, anunciada no mês passado, faz arte dos cinco pilares da estratégia presidencial para lidar com a imigração ilegal.
O governo sul-africano reiterou que a migração ilegal é um desafio continental comum que exige cooperação em vez de confronto.
O porta-voz presidencial Vincent Magwenya afirmou que o executivo permanece comprometido em combater a imigração ilegal por meio de processos constitucionais e da colaboração com os países vizinhos.





