Director: Marcelo Mosse

Maputo -

Actualizado de Segunda a Sexta

9 de July, 2026

Agências de viagem apontadas como “lavandarias” de dinheiro

Escrito por

Um Relatório de Análise Estratégica do Gabinete de Informação Financeira de Moçambique (GEFiM) revela que empresas que actuam no sector de agenciamento de viagens e turismo tem servido de lavandarias de dinheiro ilícito, tendo movimentado, por dia, pelo menos 24 milhões de Meticais em depósitos em numerário, entre os meses de Janeiro do ano 2022 e Setembro do ano 2025, sendo que os valores foram posteriormente transferidos para as contas bancárias de uma organização internacional.

De acordo com o Relatório consultado pela “Carta”, o GEFiM analisou, durante 45 meses, um total de 83 comunicações de operações suspeitas, quatro comunicações de actividade suspeita, 1.526 transacções de informação adicional, 68.739 transacções de limiares e Relatórios de Informação e/ou Inteligência Financeira, tendo apurado um montante de 58.258.763.435,45 Meticais, correspondente ao montante creditado nas contas bancárias tituladas por uma Organização Internacional.

Segundo o GEFiM, as agências de viagens e turismo têm estado a transaccionar avultadas somas de dinheiro, de forma fraccionada, através transferências bancárias e depósitos em numerário, atingindo o montante de 24 milhões de Meticais por dia (em depósitos), sendo que os valores são posteriormente transferidos para contas bancárias de uma Organização Internacional, “presumindo-se assim, que se esteja a efectuar pagamentos ilícitos, que não resultam da prestação de serviços resultantes do objecto social daquele sector de actividade económica, com a intenção de introduzir fundos de origem ilícita no sistema financeiro, e seguidamente exportar ilicitamente os mesmos por via deste organismo internacional”.

O GEFiM explica que a análise das agências de viagens e turismo deveu-se ao facto de estas terem registado depósitos de somas avultadas em numerário, tratando-se de um sector que deveria registar transacções maioritariamente com recursos a transferências electrónicas, cheques e pagamentos via POS, segundo a instituição. “Este facto levantou suspeitas sobre a real origem dos fundos, adicionado ao facto destes terem sido transferidos na sua maioria para o mesmo beneficiário, designadamente, uma Organização Internacional”.

Do trabalho de análise realizado, diz o Relatório, pontificaram cinco agências de viagem e turismo, sendo que grande parte delas constam de Relatórios de Inteligência Financeira disseminados pelo GIFiM, “tendo em comum um perfil transaccional similar, sendo que,em conjunto, no período entre Janeiro de 2022 e Setembro de 2025, transferiram cerca de 28.609.872.908,28 MT, o correspondente a 49% (quarenta e nove por cento), dos valores movimentados por todas as agências de viagem e turismo envolvidas no presente relatório”.

A entidade responsável pelo combate ao branqueamento de capitais sublinha que várias agências de viagens e turismo usaram contas bancárias particulares, dos seus empregados incluindo de gestores seniores, para efectuarem pagamentos de somas avultadas para as contas bancárias tituladas pelas referidas agências de viagem e turismo, supostamente relacionadas com a actividade operacional destas entidades, facilitando desta forma a ocultação desses rendimentos às autoridades fiscais e dificultando a identificação da real origem dos fundos.

“Registaram-se transacções de cidadãos estrangeiros, de nacionalidades consideradas de alto risco e cujos negócios também são considerados de alto risco, a favor de cidadãos nacionais, presumindo-se que estes tenham sido usados como veículos e/ou ‘testas de ferro’, sendo que, por sua vez, transferiram parte considerável destes fundos a favor das agências de viagem e turismo e, finalmente, estas canalizaram os referidos fundos a favor de uma Organização Internacional, que posteriormente os transferiu para o estrangeiro”, detalha a fonte.

Traçando o perfil das entidades suspeitas, o GEFiM diz que o esquema envolve empresários, gestores de agências de viagens, estrangeiros, funcionários de baixo escalão e até pessoas politicamente expostas, algumas com cargos no Estado moçambicano. As empresas visadas estão na Cidade de Maputo e nas províncias de Nampula e Cabo Delgado.

O GEFiM diz que as agências de viagem “aproveitaram-se das vulnerabilidades, inerentes ao uso de numerário para o pagamento de serviços relacionados com viagens e turismo, com o intuito de introduzirem fundos no sistema financeiro, provavelmente de origem ilícita”.

A entidade suspeita que tenham sido praticados os crimes de branqueamento de capitais; fraude fiscal e outros crimes tributários; falsificação de documentos com o intuito de exportar ilicitamente capitais; bem como outros crimes que só a investigação poderá identificar. Igualmente suspeita a prática de outros crimes conexos, como é o caso de corrupção, tráfico ilícito de estupefacientes e de substâncias psicotrópicas e associação para delinquir.

Lembre-se que, entre Outubro de 2022 e Outubro de 2025, Moçambique esteve na “lista cinzenta” do Grupo de Acção Financeira Internacional (GAFI) devido à sua ineficiência no combate ao branqueamento de capitais. O país só saiu da lista após cumprir um conjunto de 26 recomendações deixadas pelo GAFI.

Visited 99 times, 99 visit(s) today

Sir Motors

Ler 103 vezes