Uma semana depois da entrega de 190 novos autocarros pelo Presidente da República, a crise de transporte de passageiros continua a marcar o quotidiano de milhares de cidadãos na Área Metropolitana de Maputo, permanecendo várias horas nas paragens, além de ser obrigados a fazer ligações para chegar aos seus destinos.
Na segunda-feira passada, o Chefe de Estado procedeu à entrega de 190 autocarros, dos quais 40 destinados ao transporte escolar e 150 para o transporte público de passageiros. A medida foi apresentada como uma resposta urgente à crise agravada pela subida do preço dos combustíveis, paralisações dos transportadores semi-colectivos e constantes denúncias de cobranças ilegais por parte dos operadores de “chapas”.
Destes autocarros, 100 foram entregues aos Municípios de Maputo e Matola (50 cada), 30 para autarquias de Marracuene e Manhiça (15 cada), 10 para a autarquia de Boane e 10 para as autarquias de Namaacha e Matola-Rio (cinco cada).
Entretanto, apesar da garantia, cidadãos ouvidos pela “Carta de Moçambique” relatam que os novos veículos continuam “invisíveis” em várias rotas das autarquias de Marracuene, Boane, Maputo, Matola e Matola-Rio. Entre quinta e sexta-feira, “Carta” esteve na rua para monitorar a nova frota de autocarros e testemunhou a circulação reduzida dos mesmos em vários pontos da região metropolitana.
No bairro Nkobe, no município da Matola, por exemplo, Cármen Laurinda Cossa afirmou ter visto apenas um dos novos autocarros desde o anúncio oficial da frota. “Continuamos a sofrer muito com problemas de transporte. Ainda dependemos de machimbombos antigos e degradados, que chegam a avariar durante a viagem”, afirmou.
Segundo Cármen, o sentimento entre os residentes de Nkobe é de abandono por parte da edilidade da Matola. “Ficamos horas na paragem à espera desses novos carros e nada. Ouvi dizer que colocaram apenas dois autocarros aqui, mas até esses parecem circular apenas no final do dia e cobram 23,00 Meticais [e não 21,00 Meticais, oficialmente estabelecidos]”, revelou a fonte, para quem “o nosso bairro foi esquecido”.
Situação semelhante vive Aly Nlhavaguane, residente no bairro Patrice Lumumba, também no município da Matola. Relata dificuldades diárias para chegar ao trabalho, na baixa da cidade de Maputo. “Não tem sido fácil apanhar transporte. Não sabemos os horários desses autocarros e nem sequer sabemos se existem nesta rota. Para sair de Patrice até à Baixa somos obrigados a fazer três ligações. O ‘chapa’ chama bairro, depois Jardim e só depois Baixa. Em cada ponto dizem que a rota terminou e voltam a cobrar. A situação continua complicada”, assegura.
As reclamações da ausência dos novos autocarros multiplicam-se nas redes sociais e nas paragens de transporte, onde muitos passageiros questionam o paradeiro dos badalados autocarros anunciados pelo Governo.
Em conversa com a nossa reportagem, Egídio Langa disse ter percorrido longas distâncias sem se cruzar com nenhum dos novos autocarros. “Na quinta-feira, fiz o trajecto Zimpeto-Museu e não vi nenhum autocarro novo. Na manhã desta sexta-feira fiz Zimpeto-Jardim e também não vi nenhum. É estranho porque são rotas muito movimentadas e devia ter visto pelo menos um autocarro”.
Além da escassez nas estradas, alguns dos novos autocarros já começaram a apresentar problemas mecânicos. Entre quarta-feira e sexta-feira, pelo menos dois autocarros foram filmados imobilizados em plena via pública, nas cidades de Maputo e Matola. “Dizem que são novos, enquanto são recondicionados”, afirmam os utentes, em forma de chacota com a nova aquisição. Outro autocarro envolveu-se num acidente de viação poucos dias após entrar em circulação.
Ainda assim, há bairros onde a presença da nova frota já começa a ser notada. Por exemplo, na Mozal, no Município da Matola-Rio, e na Matola-Gare, no Município Matola, alguns residentes dizem sentir uma ligeira melhoria no acesso ao transporte.
Marla Jacinto Mondlane, residente na Matola-Gare, afirma que já viu vários autocarros novos em circulação. “Em apenas dois dias consegui ver mais de quatro autocarros novos a circular. Sentimo-nos privilegiados porque antes sofríamos muito para apanhar transporte para a cidade. Mesmo assim, as paragens continuam cheias, o que mostra que ainda são insuficientes”.
O Conselho Municipal da Cidade de Maputo reconhece que grande parte da frota ainda não entrou em funcionamento. Segundo o Vereador de Mobilidade, Transportes e Trânsito, Juvêncio Bule, muitos dos autocarros apresentados ao público ainda aguardam pela conclusão de processos administrativos relacionados com matrícula e seguro.
Falando no programa “Café da Manhã”, da Rádio Moçambique, transmitido na última sexta-feira, Bule explicou que alguns veículos se encontram em fase de licenciamento, enquanto outros aguardam pela emissão das respectivas apólices de seguro.
Sem avançar números exactos, a fonte admitiu que apenas parte da frota está actualmente operacional. Dos 50 autocarros entregues, apenas 28 se encontram efectivamente em circulação. O responsável garantiu, no entanto, que os restantes veículos deverão entrar em funcionamento nos próximos dias, assim que forem concluídos os trâmites burocráticos. Porém, não avançou a data exacta.
Enquanto os novos autocarros não chegam de forma efectiva às ruas, refira-se, a população continua dependente dos “chapas”, enfrentando tarifas irregulares, encurtamento de rotas e superlotação.





