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14 de April, 2026

Dia do Jornalista Moçambicano: profissionais enfrentam censura, precariedade e desafios digitais

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Num contexto marcado por rápidas transformações tecnológicas e persistentes fragilidades estruturais, jornalistas moçambicanos continuam a exercer a profissão sob múltiplas pressões, que vão desde limitações económicas até interferências políticas e dificuldades no acesso à informação.

Apesar do crescimento das plataformas digitais e do surgimento de novos actores no ecossistema mediático, profissionais do sector afirmam que os desafios históricos persistem, afectando directamente a qualidade e a independência do jornalismo no país.

Membros da classe pronunciaram-se sobre o panorama que se vive no sector, a propósito do Dia do Jornalista moçambicano, assinalado a 11 de Abril, desde 1978, em celebração da criação da Organização Nacional de Jornalistas, actualmente designada Sindicato Nacional de Jornalistas.

O jornalista, director do Jornal 4Vês Repórter e activista social, Nádio Jaime Taimo, aponta a sustentabilidade financeira dos órgãos de comunicação social como uma das principais preocupações.

Segundo Taimo, a escassez de publicidade, aliada à sua distribuição selectiva, compromete o funcionamento dos meios independentes.

“O acesso à publicidade não é equitativo. Há uma clara influência política na forma como os anúncios são distribuídos, o que acaba por penalizar órgãos mais críticos”, afirma.

Taimo relata ainda casos em que contratospublicitários foram cancelados após alegadas pressões externas, numa tentativa de condicionar a linha editorial.

A par disso, o jornalista denuncia a persistência de práticas de censura e restrições no acesso à informação.

Segundo refere, instituições públicas tendem a disponibilizar apenas dados superficiais, recusando-se a comentar matérias sensíveis ou investigações em curso.

Esta realidade é corroborada pela jornalista e especialista em comunicação Cátia Mangue, que identifica o acesso à informação como um dos principais entraves à prática jornalística em Moçambique.

“Temos dificuldades em obter respostas de entidades oficiais, sobretudo, quando estão em causa assuntos polémicos ou que envolvem figuras públicas. O recurso ao chamado ‘segredo de Estado’ continua a ser frequente”, explica.

Mangue sublinha ainda que, além das limitações institucionais, há uma crescente pressão política e económica sobre as redacções. Em alguns casos, reportagens são interrompidas ou alteradas após contactos externos, o que levanta preocupações quanto à independência editorial.

As condições de trabalho constituem outro desafio significativo. Salários baixos, falta de equipamentos adequados e dificuldades em coberturas sensíveis são descritos como problemas recorrentes.

Muitos jornalistas recorrem a meios próprios para exercer a profissão, evidenciando a precariedade do sector.

A especialista alerta também para práticas de aliciamento no exercício da profissão, referindo que alguns profissionais são influenciados por incentivos financeiros associados à cobertura de determinados eventos.

“Há situações em que se oferece um ‘per diem’, que pode variar entre 500 e mil meticais, influenciando a forma como a informação é tratada. Isso fragiliza a independência do jornalista”, afirmou.

Segundo Mangue, estas práticas tiram partido das dificuldades financeiras enfrentadas pela classe, contribuindo para a degradação dos padrões profissionais e da credibilidade do jornalismo. Ainda assim, defende a necessidade de resistência por parte dos profissionais.

“É preciso coragem para enfrentar estas pressões e manter o compromisso com a verdade”, sublinha.

A especialista apela ainda à adaptação às novas tecnologias, incluindo ferramentas de inteligência artificial, que devem ser utilizadas como aliadas na produção de conteúdos de qualidade.

“Não podemos fugir às novas tecnologias. O importante é saber utilizá-las em benefício do bom jornalismo”, acrescenta.

Por sua vez, o jornalista e editor do jornal Evidências, Reginaldo Tchambule, considera que o principal desafio actual é encontrar o equilíbrio entre velocidade e rigor.

“A informação circula rapidamente, sobretudo nas redes sociais, mas o jornalismo deve continuar a distinguir-se pela verificação e pelo tratamento rigoroso dos factos”, defende.

Tchambule destaca ainda que a migração da publicidade para plataformas digitais e influenciadores reduziu significativamente as receitas dos meios tradicionais, agravando a já frágil sustentabilidade financeira do sector.

No domínio da segurança, Lourino Wanheta Bom, jornalista da Tua TV, alerta para os riscos crescentes associados ao exercício da profissão no país.

Bom assinala que persistem casos de perseguição contra jornalistas, alguns dos quais envolvendo Forças de Defesa e Segurança ou indivíduos alegadamente ligados a essas instituições.

“Se o jornalista não se sente seguro, a produção e a publicação de notícias acabam por ser afectadas, comprometendo o princípio fundamental do jornalismo, que é a verdade”, afirma.

O profissional recorda ainda casos recentes de violência contra jornalistas, sublinhando que o clima de insegurança pode levar à autocensura e limitar o acesso à informação.

Joana da Lúcia, jornalista do Canal de Moçambique, entende que os desafios se têm intensificado, sobretudo, no trabalho de campo.

“Há momentos em que estar no terreno deixa de ser apenas uma missão profissional e passa a ser um risco real, devido à inacessibilidade das fontes, assédio sexual e falta de segurança”, afirma.

Segundo a jornalista, trabalhar num órgão com postura crítica aumenta a exposição e os riscos.

Além disso, aponta a questão salarial como um dos principais entraves.

“Muitos jornalistas trabalham com remunerações baixas e, por vezes, irregulares, o que afecta não só a qualidade de vida, mas também o exercício da profissão”, refere.

Joana da Lúcia acrescenta que há profissionais que, mesmo com formação e experiência, enfrentam dificuldades para garantir necessidades básicas, tornando o quotidiano mais exigente.

Perante este cenário, especialistas e profissionais defendem a necessidade de reforçar a formação contínua, investir na literacia digital e preservar os princípios éticos do jornalismo, como forma de garantir a credibilidade da informação.

Refira-se que o Dia do Jornalista Moçambicano é assinalado a 11 de Abril, desde 1978, em celebração da criação da Organização Nacional de Jornalistas, actualmente designada Sindicato Nacional de Jornalistas.

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