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3 de September, 2026

Petrolífera malawiana descarta segundo pagamento à empresa moçambicana lesada em cerca de 400 mil dólares

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A Companhia Nacional de Petróleo do Malawi (Nocma na sigla em inglês) declarou que não fará um segundo pagamento de 403.615,63 dólares, cerca de 700 milhões de kwachas, a moeda malawiana, a um prestador de serviços moçambicano, após cibercriminosos terem desviado o pagamento.

A importadora estatal de combustíveis insiste que agiu estritamente de acordo com as instruções da prestadora de serviços, a Moz Handlings LDA, e que a responsabilidade pela fraude recai sobre a fornecedora.

O golpe ocorreu em Abril, depois que criminosos se infiltraram nas comunicações por email entre a Nocma e a Moz Handlings LDA, que presta serviços de agenciamento marítimo e desembaraço aduaneiro no porto moçambicano de Nacala, no Oceano Índico, ao abrigo do acordo Governo a Governo (G2G) concebido em 2024 pelo regime do ex-presidente Lazarus Chakwera.

No seu mais recente posicionamento, a Nocma afirmou ter cumprido a sua obrigação e que não vai pagar duas vezes.

“Pagamos à Moz Handlings LDA uma única vez e temos comprovativo desse pagamento. Não faremos um segundo pagamento e mantemos a nossa posição de que o valor em dívida já foi pago”, disse o director executivo da Nocma, o engenheiro Emmanuel Matapa, que relatou o caso à Polícia malawiana em 15 de Maio deste ano.

“Não podemos ser obrigados a pagar o mesmo valor duas vezes simplesmente porque o email deles foi “hackeado”. A responsabilidade pelo email “hackeado” e pela alteração fraudulenta das instruções bancárias não pode ser transferida para nós, visto que já havíamos efectuado o pagamento para a conta cujos dados nos foram fornecidos”.

As investigações subsequentes mostram que defraudadores invadiram o email da Moz Handlings LDA em 17 de Março de 2026 e se fizeram passar pela assistente de vendas Patrícia Maria José, usando o endereço [email protected] em vez do endereço verdadeiro [email protected].

Utilizando o email falso, os hackers solicitaram à Nocma, em 21 de Março, que utilizasse novos dados bancários de uma conta aberta no Bank of America. A Nocma processou o pagamento em 28 de Abril através do Banco Nacional do Malawi (NBM na sigla em inglês), após os seus funcionários certificarem as facturas enviadas pelo email invadido.

A Nocma alega ainda que a Moz Handlings LDA está agora “astutamente a tentar obter um segundo pagamento, alegando que o pagamento inicial não lhe foi entregue”.

A correspondência entre a importadora de combustíveis e Handlings LDA mostra ainda que os defraudadores forneceram facturas e instruções bancárias que convenceram os funcionários da Nocma a processar o pagamento sem suspeitar de nada.

Génese do problema

Após a decisão do governo malawiano, em Novembro de 2024, de fazer a transição do Sistema de Licitação Aberta (OTS na sigla em inglês) para a aquisição de combustíveis via G2G (governo para governo), a Nocma foi designada para desempenhar um papel central na importação de produtos petrolíferos.

A Nocma afirma que o acordo introduziu novos processos contratuais, financeiros, de transporte e desembaraço aduaneiro envolvendo múltiplos fornecedores e prestadores de serviços internacionais, antes que esses procedimentos estivessem totalmente desenvolvidos e institucionalizados.

A este respeito, a Nocma afirma ter contratado a Moz Handlings para prestar serviços de agenciamento marítimo, movimentação de produtos e desembaraço aduaneiro no Porto de Nacala.

Com base na documentação do resumo das facturas da Moz Handlings, o referido pagamento está distribuído entre 13 de Agosto de 2025 e 28 de Janeiro de 2026.

A acta da 86ª reunião ordinária do conselho de administração da Nocma mostra que, após a conclusão das operações relevantes, a Moz Handlings emitiu facturas e um extracto de conta em Janeiro de 2026.

Na carta à polícia datada de 15 de Maio, Matapa afirmou que, entre 28 de Janeiro de 2026 e 16 de Março de 2026, o oficial sénior de operações da Nocma, Jacob Sesani, estava a comunicar-se por email com a assistente de vendas da Moz Handlings, Patrícia Maria José.

No entanto, a partir de 17 de Março de 2026, um cibercriminoso invadiu a correspondência por email entre Sesani e Patrícia e bloqueou a comunicação da Moz Handling Services LDA com a Nocma Ltd.

“O hacker se fez-se passar por Patrícia Maria José e continuou a se comunicar com funcionários da Nocma usando o endereço de e-mail falso [email protected].”

A carta observa que o endereço era ligeiramente diferente daquele usado anteriormente por Patrícia José, que era [email protected].

A carta dos hackers mostra que o banco beneficiário é o Bank of America, conta número 237055126003 em nome de Moniray Mozhandlings LDA, com código Swift BIC BOFAUS3NXXX e IBAN número 237055126003.

Posteriormente, em 15 de abril, o Bank of America, por meio de Christene Petersen, funcionária responsável pela área de Tesouraria Global, Operações Comerciais e Patrimoniais, enviou uma carta à Moz Handlings Services LDA confirmando a existência do número da conta. A conta da Moz Handlings LDA está localizada no Access Bank em Moçambique.

Nocma relatou ainda à polícia que, após os hackers assumirem o controlo da comunicação, eles enviaram facturas legítimas da Moz Handling Services, um extracto da conta e uma carta obtidos dos emails invadidos.

“O hacker indicou que os dados da conta impressos no rodapé das facturas não deveriam ser usados, pois estavam sujeitos à auditoria e, portanto, os fundos não poderiam ser acessados caso o pagamento fosse feito para a mesma conta”, dizia a carta.

A transferência dos fundos no Centro de Atendimento do Banco Nacional do Malawi seguiu as instruções contidas em carta enviada no mesmo dia pelo gerente financeiro da Nocma, Dingiswayo Sambo, e pelo gerente de desenvolvimento de negócios, Sam Ulaya.

Uma correspondência do banco também mostra que o dinheiro foi creditado nessa conta no mesmo dia.

Sinal de alerta

A fraude só foi descoberta dias depois de cibercriminosos terem executado o golpe.

Correspondências posteriores mostraram que os emails não estavam a ser entregues e estavam a retornar como mensagens não entregues.

Desde então, a Nocma contratou especialistas jurídicos em crimes económicos digitais para tratar do assunto e garantir que a empresa estatal não sofra prejuízos financeiros.

Na semana passada, a polícia prendeu Micklas Reuben, vice-director executivo da Nocma e Jacob Sesani, por alegado envolvimento no processo de pagamento.

 

 

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