O exercício de partilhar as minhas crónicas logo após a sua publicação na Carta de Moçambique transformou o meu WhatsApp num termómetro social. É através desta rede, entre grupos de amigos e conversas privadas, que os textos circulam, ganham vida e suscitam debates. Recentemente, um comentário perspicaz de alguém por quem nutro grande apreço — o jornalista Bayano Valy — fez-me parar para reflectir profundamente sobre o destino da nossa Ka-Tembe.
Ao reagir ao meu texto, Bayano aludiu à existência de “muitos ricos na Ka-Tembe”. Sugeriu que, ao ritmo que escrevo, um futuro livro de crónicas seria facilmente absorvido pelo mercado local, pois, segundo Bayano, deste lado da baía, “já há bastante gente rica”. Esta observação tocou num ponto crucial.
O surgimento de uma nova classe abastada na Ka-Tembe não é novidade para quem aqui vive ou nos visita. Basta olhar para a imponência das novas vivendas que desafiam e embelezam a paisagem ou contemplar o desfile aparatoso de viaturas topo de gama aos fins de semana, quando os proprietários vêm monitorar o avanço das suas obras. A elite económica já escolheu a Ka-Tembe. A grande questão é: que Ka-Tembe escolheu esta elite?
Será que este grupo endinheirado se contentará em confinar o luxo e o bem-estar aos limites estritos dos seus quintais e muros altos? A realidade actual sugere um paradoxo desconfortável. Fora das mansões em crescimento, o panorama público da Ka-Tembe avança a um ritmo francamente desolador. Onde deveriam nascer infraestruturas planeadas, multiplicam-se barracas e o comércio informal desordenado. Falta quase tudo o que define uma urbanidade digna. Perante isto, urge questionar: qual deve ser o papel das elites no desenvolvimento urbano de uma terra com o potencial da Ka-Tembe?
Historicamente, em várias paragens do mundo, as elites locais não se limitaram a ostentar capacidade financeira. Elas funcionaram como motores de transformação, oferecendo capital intelectual, rede de influências (networking) e visão estratégica para impulsionar as regiões que habitam. Uma elite consciente entende que o valor real do seu património privado está intrinsecamente ligado à qualidade do espaço público que o rodeia.
A nossa elite da Ka-Tembe não pode ser moribunda, reduzida a uma relevância medida apenas pelos zeros na conta bancária ou pela sofisticação do betão armado. Ela pode — e deve, penso;liderar processos de cidadania activa. Isto significa usar o seu peso e influência para dialogar de forma assertiva com as entidades estatais e municipais, exigindo o reforço da segurança pública, a expansão da iluminação das vias e o cumprimento rigoroso do ordenamento territorial.
Mais do que isso, a responsabilidade social desta elite deve estender-se ao tecido humano local. Potenciar a Ka-Tembe passa por apoiar e financiar iniciativas juvenis, desportivas e culturais, integrando os nativos e os novos residentes num projecto comum de desenvolvimento.
A proximidade geográfica com o centro de Maputo, facilitada pela ponte, não nos pode cegar nem acomodar; precisamos de serviços públicos locais de qualidade, e não de uma dependência eterna da outra margem.
A Ka-Tembe tem tudo para ser mais do que um dormitório de luxo ou uma mera referência pelas suas mansões isoladas. Deve ser um lugar atractivo, seguro e saudável para se viver e educar os nossos filhos. Para que esse potencial se realize, precisamos que os novos donos do betão saiam dos seus quintais e assumam o compromisso de co-construir a Ka-Tembe que todos merecemos. O desenvolvimento não se faz apenas com orçamento estatal; faz-se, fundamentalmente, com a audácia e a exigência de quem tem poder para fazer acontecer.




