Moçambique acaba de receber uma das maiores promessas de investimento da sua história recente. O conglomerado internacional Al Mansour Holdings anunciou a intenção de canalizar 20 mil milhões de dólares para sectores estratégicos como a energia, a agricultura, o petróleo e gás, o turismo, a habitação, os hospitais e as infra-estruturas.
O montante impressiona não apenas pela sua dimensão, mas também pela comparação: equivale praticamente a todo o Produto Interno Bruto (PIB) do país em 2023, estimado em 20,6 mil milhões de dólares pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).
Um país de potencial e riscos
Moçambique continua a ser um mercado de elevado potencial. As previsões de crescimento acima dos 5% nos próximos anos são sustentadas sobretudo pelo gás natural liquefeito (LNG) e pelas indústrias extractivas. A agricultura mantém-se como o maior empregador, enquanto o turismo permanece como uma promessa ainda por cumprir.
Contudo, os desafios estruturais são profundos. Mais de 70% da população vive abaixo da linha da pobreza, a economia informal absorve mais de 80% da mão-de-obra e o país encontra-se classificado como em risco de sobre-endividamento. A insegurança em Cabo Delgado, onde se concentram os grandes projectos de gás, continua a ser um obstáculo sério para qualquer investidor.
A escala do desafio
Mobilizar 20 mil milhões de dólares em Moçambique não será tarefa simples. A injecção de capital não pode ser feita de uma só vez, sob pena de provocar inflação, desvalorização da moeda e riscos acrescidos de corrupção.
A experiência de outros mega-projectos sugere que o investimento terá de ser faseado ao longo de uma década, com desembolsos associados a marcos de execução claros. Assim foi estruturado o projecto de LNG da TotalEnergies em Cabo Delgado ou a refinaria de 19 mil milhões de dólares de Aliko Dangote, na Nigéria.

Como aplicar o dinheiro?
Mais importante do que o montante é a forma como será aplicado. Nenhum grupo privado consegue financiar sozinho um pacote desta magnitude. A Al Mansour terá de envolver bancos em sindicância, agências de crédito à exportação e instituições multilaterais como a International Finance Corporation.
Outro ponto crítico é a capacidade de absorção dos sectores. A energia e o gás já provaram ser capazes de atrair investimento estrangeiro de grande escala. Mas a agricultura e o turismo carecem ainda de estradas, energia eléctrica e sistemas de irrigação para se tornarem verdadeiramente competitivos. Ao mesmo tempo, o Estado dispõe de pouca margem de manobra: em 2024, 92% das receitas fiscais foram consumidas por salários da função pública e pelo serviço da dívida, restando quase nada para co-investimento.
O que está em jogo
Se for bem executada, esta promessa poderá ser transformadora. Poderá criar empregos, dinamizar cadeias de fornecimento e diversificar exportações, reduzindo a dependência excessiva do país de poucos produtos. Investimentos em habitação e hospitais teriam impacto social imediato, aliviando sistemas públicos sobrecarregados.
Mas os riscos são igualmente claros: a violência em Cabo Delgado, a fragilidade institucional, a escassez de mão-de-obra qualificada e as ameaças à transparência podem comprometer o sucesso. Sem salvaguardas ambientais e sociais robustas, o investimento poderá até gerar contestação local.
Lições de outros projectos
O histórico africano e global oferece sinais claros. O próprio projecto de LNG da TotalEnergies, também de 20 mil milhões de dólares, foi travado pela insurgência em Cabo Delgado. A refinaria de Dangote na Nigéria mostra que mega-projectos privados são possíveis, mas apenas com forte alinhamento governamental. Os grandes corredores ferroviários e portuários financiados pela China em África provam que é possível mobilizar valores desta escala, mas quase sempre atrelados a compromissos de fornecimento de matérias-primas.
Entre a esperança e a cautela
A promessa da Al Mansour é um sinal de confiança internacional no potencial de Moçambique. Mas também coloca o país perante um teste crucial: será capaz de transformar promessas em resultados concretos?
O Governo deve definir prioridades claras, reforçar os mecanismos de transparência e exigir cláusulas de conteúdo local e transferência de competências. A Al Mansour, por seu lado, terá de alinhar-se com parceiros multilaterais, adoptar financiamento faseado e garantir padrões ambientais e sociais sólidos.
Se for bem gerido, este compromisso poderá marcar o início de uma nova fase de transformação estrutural. Caso contrário, arrisca-se a ser apenas mais um anúncio vistoso, destinado a ocupar manchetes sem nunca chegar ao terreno.





