Era noite de quarta-feira, 16 de Março de 2022, quando a Autoridade Reguladora de Energia (ARENE) anunciou a subida dos preços dos combustíveis em todo o território nacional, devido ao “aumento do barril de petróleo no mercado internacional”, influenciado, na altura, pela invasão russa à Ucrânia.
De acordo com a comunicação feita por Paulo António da Graça, Presidente da ARENE, a partir das 00h00 do dia seguinte, quinta-feira (17 de Março de 2022), tornava-se mais caro comprar todo o tipo de combustível, sendo que a gasolina passava a custar 77,39 Meticais, o litro, enquanto o gasóleo seria vendido a 70,97 Meticais.
Já o petróleo de iluminação começou a ser comercializado a 50,16 Meticais e o quilo de gás de cozinha subiu para 80,49 Meticais. O gás veicular passou a custar 37,09 Meticais. Porém, até às 23h59m daquela quarta-feira, a gasolina custava 69,04 Meticais; o gasóleo 61,71 Meticais; o petróleo de iluminação 47,95 Meticais e o gás de cozinha era vendido a 71,02 Meticais.
Quatro anos depois, a história repete-se, desta vez derivada pela guerra no Médio Oriente, opondo o Irão e a dupla Israel/Estados Unidos da América, que levou à destruição de diversas infra-estruturas energéticas no Golfo Pérsico e ao encerramento do Estreito de Ormuz, responsável pelo escoamento de mais de 20% da produção mundial.
Mais uma vez, o Governo escolheu a noite de uma quarta-feira, 06 de Maio de 2026, para transmitir a informação. Paulo António da Graça foi, novamente, o portador das péssimas notícias: a subida generalizada e galopante dos preços dos combustíveis.
Desde às 00h00 desta quinta-feira, o gasóleo custa 116,25 Meticais por litro, enquanto a gasolina é vendida a 93,69 Meticais e o petróleo de iluminação é comercializado a 97,56 Meticais. Já o gás de cozinha passa a ser vendido a 87,82 Meticais por quilograma e o gás natural veicular custa 52,73 Meticais.
Tal como em Março de 2022, o PCA da ARENE voltou a defender que os novos preços não reflectem a realidade mundial e que Moçambique continua a praticar os preços mais baixos, em comparação com os preços que são praticados a nível da região austral de África. Porém, desta vez, não disse qual seria o preço real.
Em Março de 2022, Da Graça disse que os aumentos foram inferiores aos previstos, devido à redução de taxas para as gasolineiras. Sem a retirada das taxas, a gasolina custaria 81,78 Meticais (mais 4 Meticais), o gasóleo 74,48 Meticais (mais 4 Meticais) e o gás de cozinha seria vendido a 106,48 Meticais (mais 26 Meticais).
O reajuste de Março de 2022 era o segundo em quase cinco meses. Em Outubro de 2021, a gasolina havia passado de 62,50 Meticais para 69,04 Meticais; o gasóleo de 57,45 Meticais para 61,71 Meticais; e o petróleo de iluminação de 43,24 para 47,95 Meticais. Já o gás de cozinha passou de 58,18 Meticais para 71,02 Meticais. Ou seja, em cinco meses, o preço da gasolina aumentara em 15,00 Meticais; do gasóleo em 13,00 Meticais; do gás de cozinha em 22,00 Meticais; e do petróleo de iluminação em 7,00 Meticais.
Cálculos da “Carta de Moçambique” revelam que o preço do gasóleo, o principal motor da economia moçambicana, subiu 54,54 Meticais desde o mês de Fevereiro de 2022, altura em que a Rússia invadiu a Ucrânia, levando a uma subida galopante do preço do barril de petróleo.
Por seu turno, o petróleo de iluminação teve a segunda maior subida, ao aumentar 49,61 Meticais. O gás de cozinha subiu 16,80 Meticais, tendo registado a menor subida nestes quatro anos. O gás veicular aumentou 20,04 Meticais e a gasolina aumentou 24,65 Meticais.
Refira-se que a então crise energética, causada por sanções ao petróleo russo, seria depois revertida a nível mundial, menos em Moçambique, onde o reajuste foi paliativo até à actual crise energética. Aliás, dois meses depois do primeiro reajuste após a guerra na Ucrânia (em Maio), a gasolina subiu de 77,39 Meticais para 83,38 Meticais; o gasóleo de 70,97 Meticais para 78,97 Meticais; o gás de cozinha de 80,49 Meticais para 85,53 Meticais; o petróleo de iluminação de 50,16 Meticais para 71,48 Meticais; e o gás veicular de 37,09 Meticais para 40,57 Meticais.
Já no mês seguinte (Junho), registaram-se novos aumentos, com o gasóleo a subir para 87,97 Meticais, tornando-se o mais caro desde então; a gasolina para 86,97 Meticais; e o petróleo de iluminação para 75,58 Meticais. Os restantes produtos não registaram alterações. Ao longo destes quatro anos, os combustíveis sofreram reajustes inferiores a 5,00 Meticais, sendo que o preço mais baixo, por exemplo, da gasolina foi de 83,57 Meticais.
Revisão da estrutura de preço
Um dos “nós de estrangulamento” do negócio dos combustíveis, em Moçambique, de acordo com especialistas, é a estrutura de preço. Em Julho de 2022, o Centro de Integridade Pública (CIP) divulgou um estudo, no qual mostrava que a estrutura do preço à volta da importação, armazenamento, distribuição e venda dos combustíveis ao cidadão é que encarecia o preço final do produto, sendo que, na altura, de acordo com o estudo, o gasóleo chegava ao país a 54,01MT/litro e era vendido ao consumidor final (o cidadão) a 87,97MT/litro, um aumento de 33,96 Meticais.
Em Setembro de 2025, o Governo moçambicano anunciou a pretensão de rever a estrutura do preço dos combustíveis, sobretudo do gasóleo e da gasolina, como forma de mitigar o actual custo de vida, marcado por preços proibitivos dos produtos de primeira necessidade.
A intenção consta do Plano de Recuperação e Crescimento Económico (PRECE), aprovado pelo Conselho de Ministros. O documento refere que a ideia passa por reduzir o custo da gasolina e do gasóleo em 14,75 Meticais/litro e 10,84 Meticais/litro, respectivamente, “com efeito multiplicador em toda a cadeia de produção que tem esses dois tipos de combustíveis como um dos seus factores de produção”.
Para tal, o Governo pretende rever três componentes principais, com destaque para a taxa de manuseamento portuário, considerada uma das mais elevadas da região, na actualidade. Actualmente, o país cobra, para o manuseamento dos combustíveis, uma taxa de 0,86 Meticais/litro, sendo que a ideia é baixá-la até 0,43 Meticais/litro.
“A adopção das medidas propostas sobre os custos logísticos de importação poderá resultar numa redução total estimada de 0,50 Meticais/litro no preço final dos combustíveis”, diz o Governo, para quem a redução da taxa de manuseamento portuário “não só aliviaria os custos internos, como também contribuiria para aumentar a competitividade dos portos moçambicanos”.
As outras componentes a serem revistas na estrutura do preço dos combustíveis são as de estabilização, da margem de instalações centrais de armazenagem e a taxa das despesas bancárias. Por exemplo, na componente de estabilização, Moçambique cobra, actualmente, 3,50 Meticais/litro, sendo que o valor proposto é de 3,0 Meticais/litro, uma redução de 0,50 Meticais/litro. O Governo disse ainda que quer reduzir os custos logísticos na importação dos combustíveis (com IVA) em 0,50 Meticais/litro. Até ao momento, não se sabe o que é feito do plano do Governo.
Refira-se que os combustíveis constituem um dos principais negócios da elite política, sendo apontados como os principais financiadores da campanha eleitoral da Frelimo. Um estudo do CIP, de 2016, revela que “parte dos valores desviados, devido à manipulação dos preços CIF [custo, seguro e frete], foi usada para financiar a campanha eleitoral do partido no poder”.




