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30 de March, 2026

Instabilidade economica e social vai piorar em Moçambique, adverte o Banco Mundial

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O Banco Mundial adverte para um cenário de “instabilidade económica e social”, que poderá ameaçar os projectos de gás.
A economia moçambicana é um baralho de cartas que provavelmente mais cedo ou mais tarde, desmoronara’, refere o Banco, num relato invulgarmente duro publicado em 19 de março.
 “O custo da inacção está aumentando e pode ser grave. “
O Banco sublinha que “a instabilidade económica poderia afectar mais de 50 biliões de dólares em investimentos diretos externos”, particularmente no LNG.
Uma crise económica poderia “enterrar os padrões de vida, prejudicar a coesão social e enfraquecer a capacidade do governo de oferecer serviços essenciais. “Falta de coesão social é a forma cautelosa de dizer distúrbios e protestos sociais.
“A situação de segurança no norte de Moçambique permanece volátil, com um recente aumento do número de pessoas a serem deslocadas”.
Observa também que a agitação civil após as eleições de outubro de 2024 veio depois do que se chama “década perdida” de 2016-2025.
No período em questão, Moçambique se tornou “o segundo país mais pobre e entre os 10 mais desiguais do mundo”.
“Entre 2015 e 2020, a pobreza urbana aumentou acentuadamente entre 32% e 44% enquanto a pobreza rural subiu de 56% para 71%”.
Em 2015, 12.3 milhões de moçambicanos estavam mergulhados na pobreza, mas o número subiu para 19,9 milhões em 2022.
A equipa do Banco Mundial, liderada por dois jovens economistas sem links de Moçambique, conseguiu desafiar Políticas bancárias em Moçambique.
Governo admite que a situação vai piorar
As próprias projecções do governo moçambicano mostram que a situação económica e social vai piorar com uma previsão de crescimento de 1-2% entre 2026 2028, num contexto em que a população está crescendo mais rapidamente, significando um aumento da pobreza e nenhuma melhoria do nível de vida.
A Frelimo continua a dizer que as receitas do GNL vão trazer alívio em cinco anos. Mas isso não vai acontecer. Os dados bancários dizem que os próprios números do governo mostram que gastos excessivos e elevado nível de empréstimos estão crescendo rapidamente, o que irá absorva a maior parte do dinheiro do gás, e pode estar  a vista um horizonte de 15 anos antes de existir uma receita significativa do gás disponível para gastar.
Se não existirem alterações nos gastos do governo, “uma parte significativa de receitas de GNL projectadas até 2042 [vai] será desviada para cobrir desequilíbrios fiscais acumulados em vez de financiar prioridades de desenvolvimento estratégico”, estima o Banco Mundial.
Salários, dívidas e agricultores
O relatório destaca três crises que necessitam de uma acção específica.
Primeiro, a factura salarial da função pública de 15% do PIB em 2025 está entre os níveis mais altos globalmente. Moçambique tem um pequeno serviço público pago com salários e subsídios elevados.
O segundo é o rápido crescimento das dívidas. Salários e juros absorveram 87% da receita fiscal em 2025, deixando pouco para infra-estruturas e outros investimentos. O relatório diz que “as dívidas públicas são avaliadas como insustentáveis, e os atrasos no serviço de dívidas e as despesas em atraso são grandes.
De acordo com as políticas actuais, a situação fiscal provavelmente vai piorar mais. O défice orçamental global deverá alargar para cerca de 6% do PIB em 2026-2027.
A terceira questão prende-se com “o desempenho estagnante da agricultura que está a manter os pobres rurais numa armadilha da pobreza.
O Banco Mundial relata que o tamanho do sector público moçambicano é pequeno e não tem aumentado rapidamente nos últimos anos. Em 2023 foram registados 357.000 funcionários públicos, um aumento anual médio de 2,9% nos últimos seis anos. O sector público é pequeno comparado com a média da África subsariana com 3,9% de população em idade laboral (15-64 anos).
Mas como parte da concentração da riqueza e do poder no partido Frelimo, o Presidente Armando Guebuza (2005-15) converteu a Frelimo numa aliança camponesa trabalhadora para ser o partido da burocracia.
Funcionários civis tiveram que se juntar ao partido e a promoção dependia do trabalho do partido. Depois, em 2021-2 houve a reforma salarial da TSU que elevou a lei salarial em 40%. A população está crescendo, mas só tem havido um pequeno aumento no número de enfermeiras e professores; em vez disso, salários e os subsídios foram aumentados, especialmente a nível mais elevado. Desse modo, a enorme factura salarial faz parte de recompensa aos funcionários e activistas da Frelimo.
Isto cria um problema bicudo para o FMI e o Banco Mundial que exigem uma factura salarial mais baixa. A Frelimo depende desses pagamentos salariais inflacionados e não pode fazer cortes drásticos.
Moçambique já não pode ser emprestado internacionalmente, e os bancos domésticos reduziram os empréstimos ao governo.
Então o governo empresta do Banco de Moçambique (BdM, que imprime o dinheiro), com aumentos de 1,5% de PIB em dezembro de 2023 para 6% do PIB em dezembro de 2025. Entretanto, o crédito bancário para o sector privado diminuiu de 19,3% do PIB em novembro de 2023 para 16.5% do PIB em Novembro de 2025, e os gastos do governo com infra-estruturas caíram.
Nenhum apoio aos agricultores, que são a maioria dos pobres
A pobreza permanece “teimosamente entrincheirada” nas zonas rurais. O relatório do Banco Mundial diz que isto é porque a agricultura, que “conta com mais de 70% da mão-de-obra, sofre de baixos níveis de produtividade, sub-investimento e vulnerabilidades relacionadas com o clima.
O acesso ao mercado limitado é uma restrição crítica para os agricultores rurais, restringindo o seu uso de inputs agrícolas modernos (por ex. melhores sementes, fertilizantes, tractores) e resultando num dos mais baixos rendimentos de cereais por hectare na África Austral.
Actualmente, menos de um quarto de agricultores moçambicanos vende quaisquer culturas, reflectindo barreiras significativas à integração do mercado e à falta de capacidade para produzir quantidades maiores.
O crescimento agrícola per capita teve uma média de apenas 2,9 por cento anualmente, recfletindo ganhos de produtividade limitados. “
Em Moçambique, três terços de agricultores estão fora do sistema de mercado e a pobreza e desigualdade apenas serão reduzidos apoiando os agricultores familiares, que de acordo com as políticas agrícolas do Banco Mundial são bastante pobres.
Joseph Hanlon
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