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7 de July, 2025

FDS intimidam e confiscam material de jornalistas em Macomia

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As Forças de Defesa e Segurança (FDS) moçambicanas voltaram, mais uma vez, a ser notícia pelas más razões e, para não variar, da sua difícil relação com os jornalistas, sobretudo no capítulo do combate ao terrorismo.

A nova ofensiva das FDS contra jornalistas foi registada no último dia 26 de Junho, no distrito de Macomia, província de Cabo Delgado, onde um grupo de profissionais da comunicação social foi submetido a uma sessão de intimidação e tortura psicológica, que culminou com o confisco do seu material de trabalho sem qualquer fundamento.

De acordo com o relato feito pelo MISA-Moçambique, numa carta dirigida ao Ministro da Defesa Nacional, a exigir esclarecimentos em torno do sucedido, um grupo de 16 jornalistas moçambicanos partiu da cidade de Pemba, capital provincial de Cabo Delgado, com destino ao distrito de Mueda, no norte daquela província, com intuito de ver o estágio das obras de asfaltagem da estrada Mueda-Negomano. A viagem foi organizada pela ANE (Administração Nacional de Estradas).

Imbuído pelo espírito jornalístico (de busca constante de notícia), o MISA relata que o grupo fez uma paragem no distrito de Macomia, onde decidiu entrevistar o Administrador daquele distrito, Tomás Badae, sobre o processo de reconstrução da vila, severamente afectada por sucessivos ataques terroristas.

Após a entrevista, diz a fonte, os jornalistas solicitaram autorização ao administrador para captar imagens de infra-estruturas destruídas, como a Secretaria Distrital e a residência oficial do próprio administrador. A autorização foi concedida sem restrições. “Contudo, ao dirigirem-se à residência do administrador, actualmente ocupada por elementos da Unidade de Intervenção Rápida (UIR), a equipa foi interpelada por cerca de cinco agentes, entre fardados e à paisana e os jornalistas informaram que havia autorização da autoridade administrativa para a recolha de imagens, mas reconhecendo que a filmagem só poderia ser realizada mediante anuência dos militares e sem que estes fossem captados nas imagens”, descreve o MISA.

O MISA afirma que, na ocasião, os agentes da UIR alegaram que não podiam autorizar a captação de imagens sem antes obter ordens do seu superior hierárquico que no momento não se encontrava presente. “Após longa espera e com o tempo da missão a esgotar-se, os jornalistas decidiram retomar a viagem sem realizar as imagens pretendidas”.

No entanto, instantes antes de abandonarem a vila, um homem à paisana supostamente membro das FDS acenou para a viatura dos jornalistas, como quem solicitava boleia. A viatura seguiu viagem sem parar, tendo o homem, em resposta, fotografado a matrícula da viatura com o seu telefone.

“Já em Miangaleua [no distrito de Muidumbe], cerca de 70 Km de Macomia, os jornalistas foram mais uma vez interpelados por um contingente das FDS de Moçambique que ordenou a retirada dos jornalistas da viatura, recolheu os documentos, ordenou que ficassem em fila e foram fotografados. Parte do material de trabalho foi temporariamente confiscado, sem apresentação de qualquer mandado ou justificativa legal”, diz a fonte.

“O grupo foi, de seguida, obrigado a regressar à vila de Macomia, onde foi submetido a interrogatórios e tortura psicológica por elementos da FDS, relativamente ao objectivo da deslocação. Após cerca de duas horas de interrogatório, sem que fosse identificada qualquer irregularidade, os jornalistas foram finalmente autorizados a prosseguir com a sua missão”, acrescenta.

Para o MISA Moçambique, estamos perante mais “uma situação alarmante” que envolve “uma actuação anti-democrática das FDS” contra jornalistas nacionais, devidamente identificados e no exercício legítimo da sua função social.

Na carta entregue ao Ministro da Defesa Nacional, na última sexta-feira, a organização exige uma investigação célere do caso por parte do Ministério da Defesa Nacional e que este “se pronuncie sobre os fundamentos legais e operacionais que sustentaram a intercepção e tratamento do grupo de jornalistas, bem como garantias de que situações desta natureza não voltarão a ocorrer”.

Esta não é a primeira vez em que as FDS se tornam notícia pelo seu difícil relacionamento com entidades civis, sejam jornalistas, assim como comunidades. Em Janeiro e Fevereiro de 2019, por exemplo, as FDS detiveram os jornalistas Amade Abubacar e Germano Adriano, na vila de Macomia, quando estes reportavam a chegada de deslocados oriundos do Posto Administrativo de Mucojo.

Já em Abril de 2020 foi a vez de Ibraimo Mbaruco ser detido pelas FDS, no distrito de Palma. No entanto, se Amade Abubacar e Germano Adriano foram detidos ilegalmente, torturados e, por fim, devolvidos ao convívio familiar, Mbaruco não teve a mesma sorte. Até hoje, não se conhece o seu paradeiro. (Carta)

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