O Ministério Público anunciou ontem ter acusado provisoriamente 6 de 5 indivíduos de um gangue (dois agentes policiais e três reclusos) por posse de armas proibidas e associação para delinquir no contexto de denúncias recebidas na instituição, em Fevereiro passado, sobre uma alegada tentativa da assassinato de Nini Satar.
Os dois agentes, detidos em Fevereiro, são Edson Muyanga, chefe dos transportes da Unidade de Intervenção Rápida (UIR), e José Nyangulele, da Polícia de Protecção. Um terceiro agente envolvido, Lenine Macamo (Chefe de Reconhecimento da UIR ao nível da cidade de Maputo), fugiu em Fevereiro. A PGR abriu um processo autónomo contra ele, no mesmo âmbito.
A PGR diz que o processo vai ser enviado para o Tribunal Judicial Provincial para julgamento. Na mesma altura em que o caso foi despoletado junto da PGR, em Fevereiro, um conjunto de gravações áudio sobre a trama foi posto a circular.
Os áudios denunciam um gangue de polícias corruptos que não se coibiu de envolver altos dirigentes do Estado na tramoia:
“O Presidente da República sabe disto, a PGR e o Bernardino também”, disparou o agente José Nyangulele, falando com um outro agente condenado por rapto, Leão Wilson, preso no pavilhão 5 da B.O. Leão e Damião Mula foram os agentes contactados para garantir que o “menino das quantias irrisórias” fosse morto na B.O., “com um tiro na cabeça, para ser rápido”.
Mas a menção de altos dirigentes do Estado não era nada verossímil. Fazia parte da narrativa manipuladora dos gangues chantagistas: o uso de nome de um agente de poder (o partido Frelimo, o SISE, etc.,) para concretizar seus intentos.
De acordo com os áudios, a execução de Nini Satar teria sido encomendada “por um branco e por um cidadão paquistanês”. O recluso contratado por Damião Mula e Leão Wilson dá pelo nome de Carlos Simões. Ele ganharia 40 milhões e soltura imediata.
Os contornos da história resumem-se no seguinte: Nini vive no Pavilhão de máxima segurança, que é o pavilhão 1; Os tais 3 polícias, 2 da UIR e 1 da PP, contactaram 2 reclusos que vivem no pavilhão 5; Os 2 reclusos, Leão e Damião, cumprem penas de 24 anos pelo rapto de Yacoob Loonat, pai do Maulana Nazir Loonat; o recluso Leão já foi polícia da FIR; como não têm acesso ao pavilhão de Nini, estes reclusos contactaram outros reclusos que vivem no pavilhão de Nini.
Ao invés de executar o plano, estes reclusos deram com a boca no trombone e o SERNAP desencadeou uma investigação, que passava por gravar conversas entre os implicados. Ou seja, o executor contratado tinha de fingir que não denunciava e que o plano se mantinha, deixando o tempo passar.
A chuva que caiu fortemente entre finais de Janeiro e Fevereiro parece não ter ajudado. De acordo com as conversas captadas, Nini devia ser executado quando estivesse em banho de sol. Mas, com chuva, não há sol…nem banho de sol. E o tempo foi passando, a impaciência aumentou na cadeia de intermediação (é curioso que os áudios não captem qualquer conversa entre a cadeia de intermediação e os principais mandantes).
O gangue vai a julgamento e, eventualmente, o nome do mandante será revelado. Numa das gravações, aparece o polícia José Nyangulele a dizer que o Boss é um branco e trabalha com um atirador paquistanês. (Carta)




