Tenho o maior apreço e respeito pela nova Vice Governadora do BM mas manda me a consciência que alerte para a fragilidade desta pretensão de num futuro próximo sermos capazes de colocar o Metical como moeda transacionavel na região e fora de portas do nosso País.
Seria bom mas esta pretensão não se transforma numa realidade só porque queremos e porque implementamos o RTGS.
Para que uma moeda nacional passe a ter uso transacional a nível internacional — servindo como moeda de troca, reserva de valor e unidade de conta fora das suas próprias fronteiras —, ela precisa de cumprir um conjunto de condições macroeconómicas, políticas e institucionais.
De uma forma simples diria que há pelo menos quatro condições básicas fundamentais que devem subsistir:
1- Estabilidade Económica e Poder de Compra
Nenhum agente internacional aceitará uma moeda que desvaloriza rapidamente. A estabilidade económica garante previsibilidade a longo prazo.
* Baixa Inflação: um histórico de inflação controlada garante que a moeda retém o seu valor ao longo do tempo.
– Solidez Orçamental: políticas fiscais e monetárias prudentes evitam crises de dívida soberana que possam minar a confiança na moeda.
2- Estabilidade Política e Segurança Jurídica
A moeda reflete diretamente a força das instituições do país que a emite.
* Estado de Direito: Investidores e governos estrangeiros precisam de ter a certeza de que os seus ativos não serão confiscados e de que os contratos serão cumpridos.
* Independência do Banco Central: um banco central livre de interferências políticas de curto prazo sinaliza que a moeda não será intencionalmente desvalorizada para fins eleitorais.
3- Liquidez e Mercado Financeiro Desenvolvido
Para ser transacional, a moeda tem de estar disponível em grande escala e ser fácil de comprar ou vender a qualquer momento.
* Dimensão Económica: o país emissor deve ter uma quota significativa no comércio global e um PIB expressivo (como os EUA ou a Zona Euro).
* Mercados de Capitais Profundos: é essencial a existência de mercados financeiros sofisticados (como mercados de obrigações de tesouro líquidos) onde os detentores estrangeiros possam aplicar a moeda com segurança e rendimento.
4- Convertibilidade Total (Ausência de Controlos de Capital)
Esta última condição, é muitas vezes a derradeira barreira que impede grandes economias de internacionalizarem as suas moedas.
* Livre Fluxo de Capitais: o dinheiro deve poder entrar e sair do país sem restrições ou autorizações governamentais burocráticas.
Exemplo prático: O Renminbi (Yuan) da China, apesar de pertencer à segunda maior economia do mundo, vê o seu uso transacional internacional limitado pelo forte controlo que o Banco Popular da China ainda exerce sobre a saída de capitais e a taxa de câmbio.
É salutar e até bonito o sonho que a Vice Governadora proferiu mas há que ter os “pés” bem assentes na terra.
(JFFJ)





