Director: Marcelo Mosse

Maputo -

Actualizado de Segunda a Sexta

24 de August, 2026

Abanar a árvore: o desafio de Chapo

Escrito por

Há momentos na vida de um partido em que as palavras deixam de ser apenas palavras e passam a transformar-se em compromissos. A 11ª Conferência Nacional de Quadros da FRELIMO, encerrada domingo em Chimoio, pode ter sido um desses momentos. Sob o lema “Renovar Moçambique: Uma Nova Era, Um Pacto com o Povo”, a Conferência colocou a renovação do partido e a recuperação da confiança dos cidadãos no centro da discussão. Mas, no discurso de encerramento, Daniel Chapo foi mais longe. Reconheceu que existem práticas e comportamentos dentro da própria FRELIMO que prejudicam a imagem do partido e assumiu que, se existem “frutos podres” na árvore, será necessário “abanar a árvore até que o fruto caia”.

É uma declaração que deve ser levada a sério. Mas há uma questão talvez ainda mais importante do que aquilo que Chapo disse: como vão reagir os próprios membros da FRELIMO? Se a Conferência foi realmente um espaço de reflexão aberta, se os quadros falaram sobre os problemas do partido e do país e se a conclusão foi a necessidade de renovação, então os membros da FRELIMO deveriam abraçar o Presidente nesta caminhada. Não se trata de abraçar Daniel Chapo como pessoa, mas de abraçar a ideia de que um partido que pretende continuar a governar precisa de se renovar, corrigir os seus erros e recuperar a confiança dos cidadãos.

O próprio Presidente foi claro ao dizer que fazer diferente significa reconhecer aquilo que não está a funcionar, corrigir o que funciona mal e abandonar aquilo que já não produz resultados. Essa tarefa, porém, não pode ser exclusivamente de Chapo. Seria um erro esperar que o Presidente faça sozinho aquilo que a própria FRELIMO decidiu que precisa de fazer. Um partido com seis décadas de história, estruturas em todo o país e milhões de membros não pode entregar a um homem a responsabilidade de renovar uma organização inteira.

Por isso, a mensagem aos membros da FRELIMO deveria ser simples: se acreditam na renovação, abracem-na; se acreditam no Presidente, deem-lhe condições políticas para avançar; e, sobretudo, não confundam a defesa do partido com a defesa daqueles que eventualmente tenham usado o partido para interesses pessoais. O próprio Chapo fez essa distinção no seu discurso. Disse que na FRELIMO não há lugar para corruptos, ladrões, traficantes de drogas ou criminosos e defendeu que cada pessoa responda individualmente pelos crimes que cometer.

É aqui que começa a parte mais difícil da jornada. Anunciar uma nova era é relativamente fácil. Construí-la será muito mais difícil. Haverá resistências. O próprio Presidente reconheceu que alguns poderão tentar resistir, mas afirmou que não recuará, colocando o interesse do povo acima dos interesses individuais ou de grupos. E talvez seja precisamente por isso que os próximos meses serão decisivos.

Chapo já não tem muitas alternativas. Depois de dizer publicamente que ouvir só tem valor quando produz mudança e que não agir seria frustrar a confiança do povo, o Presidente colocou a sua própria liderança perante um teste. Agora terá de transformar a linguagem da renovação em decisões. E decisões produzem inevitavelmente desconforto. Algumas pessoas ganharão, outras perderão. Alguns interesses serão contrariados. Algumas estruturas terão de mudar. Alguns hábitos terão de desaparecer. E talvez algumas figuras que se habituaram a interpretar a pertença à FRELIMO como uma espécie de seguro contra a responsabilização descubram que essa época terminou.

É por isso que a jornada será dura. E será difícil não apenas para Chapo, mas também para a própria FRELIMO. Renovar uma organização com seis décadas de história não significa simplesmente substituir pessoas. Significa mexer em práticas, comportamentos, relações de poder e formas de pensar. Significa aceitar que algumas coisas que funcionaram no passado podem já não funcionar hoje.

Mas Chapo também terá de compreender que não pode pedir ao partido um abraço e, ao mesmo tempo, esperar que esse abraço seja incondicional. O apoio que os membros lhe devem dar deve ser um apoio exigente, um apoio que diga: avance, Presidente, mas avance na direcção que acabou de anunciar em Chimoio.
Se a nova era significa combater a corrupção, então que se combata a corrupção. Se significa responsabilizar quem comete crimes, que se deixe a Justiça trabalhar. Se significa colocar o interesse público acima dos interesses de grupos, que isso seja demonstrado nas decisões. Se significa ouvir o povo, que aquilo que o povo disse produza consequências. É aí que a promessa será testada.

A Conferência de Chimoio não deu a Chapo um cheque em branco. Deu-lhe, antes, uma responsabilidade maior. E talvez tenha dado também à FRELIMO uma oportunidade para demonstrar que ainda consegue olhar para si própria com honestidade. O Presidente disse que a Conferência terminou, mas que o verdadeiro trabalho começa quando os delegados regressarem às suas bases.

É exatamente isso. Agora os membros da FRELIMO precisam de voltar para as suas comunidades e decidir se querem ser espectadores ou protagonistas dessa nova etapa.
A Chapo caberá a parte mais difícil: avançar. Aos membros da FRELIMO caberá uma decisão igualmente importante: abraçar o Presidente naquilo que ele próprio chamou de renovação ou proteger os velhos hábitos que a Conferência disse querer ultrapassar. Chapo já disse que vai em frente. Agora precisa que a FRELIMO vá com ele. Porque, depois de Chimoio, recuar talvez seja mais perigoso do que avançar. E avançar será difícil. Muito difícil.

Mas talvez seja precisamente essa a razão pela qual este momento merece ser levado a sério. Chapo colocou a si próprio perante uma escolha e colocou a FRELIMO perante outra. O Presidente terá de demonstrar coragem para transformar as palavras em decisões. O partido terá de demonstrar maturidade para compreender que a defesa da FRELIMO não passa necessariamente pela protecção de todos os seus membros, mas pela capacidade de corrigir aquilo que ameaça a sua credibilidade. A árvore foi identificada. Os frutos também. Agora é preciso coragem para abaná-la.

Visited 11 times, 11 visit(s) today

Sir Motors

Ler 11 vezes