A mesma mobilização institucional, legal e política feita para atrair e manter grandes investimentos em Moçambique deveria ser aplicada às Pequenas e Médias Empresas (PME) por serem estas que podem gerar emprego e dinamizar a economia nacional, sustenta o economista José Sulemane. Ele considera necessária a criação de uma infraestrutura legal e de políticas públicas capazes de facilitar a abertura e funcionamento das Pequenas e Médias Empresas.
Falando há dias durante uma aula aberta intitulada “Um mundo sob tensão: crescimento, inflação e os riscos geopolíticos 2026-2027”, realizada na Universidade Pedagógica, em Maputo, o antigo Director Nacional do Plano e recentemente reformado do Fundo Monetário Internacional (FMI) argumentou que o país precisa de criar condições para que mais empresas nacionais sejam abertas, funcionem e cresçam.
Segundo Sulemane, embora os megaprojectos tenham importância estratégica, a capacidade destes de gerar emprego em larga escala é limitada quando comparada com o potencial das PME.
“Temos de ser proporcionais na criação de pequenas e médias empresas e criar infraestruturas como fazemos com os mega-projectos, porque estas é que vão empregar mais pessoas num contexto como Moçambique”, sublinhou.
O economista, que foi Director Nacional de Planificação e Orçamento entre 2000 e 2005, explicou que a aposta é particularmente relevante num contexto em que a África Subsahariana precisa de criar cerca de 20 milhões de empregos por ano para responder ao crescimento da sua população.
Políticas sectoriais sem estratégia integrada
Para José Sulemane, um dos principais desafios de Moçambique está na existência de várias políticas sectoriais que não estão alinhadas em torno de um mesmo objectivo nacional de desenvolvimento.
“Temos várias políticas sectoriais, que não estão integradas. A estratégia de crescimento só vai funcionar se todo o sector público estiver alinhado e a trabalhar em prol do mesmo propósito”, afirmou.
Na sua apresentação, o economista defendeu a necessidade de uma sequência clara de reformas, apontando que nem todas as mudanças podem ser implementadas simultaneamente.
“Quando se define uma prioridade, todo o país tem de trabalhar em torno do mesmo assunto. Fazer tudo não é possível”, disse.
Como exemplo, citou o caso do Vietname, que conseguiu transformar sectores como o café, em fonte de comércio internacional, através de uma estratégia articulada entre políticas públicas, produção e integração económica.
Crescimento económico não significa necessariamente desenvolvimento
Ao abordar o cenário global, Sulemane alertou que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) não deve ser confundido com melhoria das condições de vida da população.
Segundo o economista, o crescimento precisa de reflectir-se no rendimento per capita e numa maior capacidade produtiva da economia.
Sulemane defendeu que a transformação económica exige uma combinação entre Estado e sector privado, com aposta na produtividade, exportações, indústria de transformação, serviços, capital humano, infra-estruturas e tecnologia.
Choques globais exigem maior preparação interna
Falando sobre a inflação, crescimento e riscos geopolíticos, o economista explicou que os efeitos das crises internacionais chegam aos países através de canais como energia, alimentos, comércio, finanças e ajuda ao desenvolvimento.
Segundo Sulemane, a capacidade de resposta depende das condições internas existentes antes das crises, incluindo reservas financeiras, dívida pública e capacidade institucional.
Referindo-se à posição da África Subsahariana na economia mundial, destacou que a região continua com um peso reduzido no comércio global, apesar de representar uma parcela significativa da população.
Para Moçambique, defendeu que os recursos naturais devem ser vistos como complemento e não como substitutos de uma estratégia mais ampla de desenvolvimento.
Sulemane concluiu que, num mundo cada vez mais interligado e multipolar, os conflitos internacionais têm efeitos globais, tornando a cooperação, a diplomacia e a coordenação entre países elementos essenciais para a estabilidade económica.

