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29 de August, 2026

Almoço com Manteigas: o futuro de Mocuba e o resgate da Ka-Tembe

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No passado dia 21 de Agosto, participei num concorrido evento organizado por uma organização da sociedade civil, onde estive em representação da organização para a qual trabalho. Foi lá que cruzei caminho com o deputado da Assembleia da República, José Manteigas. Confesso que o meu olhar estava moldado pelo preconceito que frequentemente nutrimos pela nossa nata política: a imagem de figuras distantes, intocáveis, que apenas vemos nos ecrãs da televisão em acesos debates. Para a minha surpresa, desmistifiquei o homem. Encontrei um cidadão de uma simplicidade extrema, atento e disponível para o diálogo. Descobri também que, ao contrário do que pensava, a sua raiz não está em Nampula, mas sim na Zambézia — mais concretamente em Mocuba.

Partilhámos a mesa à hora do almoço e, entre garfadas e reflexões sobre o desenvolvimento do país, a conversa fluiu naturalmente para as decisões que redesenham a nossa geopolítica. Levantei sobre a anunciada transferência da Assembleia da República para Mocuba, uma promessa eleitoral de Daniel Chapo.

Como zambeziano, o deputado Manteigas não escondeu o entusiasmo. Para ele, a ida do Parlamento para Mocuba será a “machadada final” para consolidar aquela região como o polo de desenvolvimento que há muito sinaliza, superando inclusive a capital provincial, Quelimane. É uma visão que subscrevo por inteiro. Quando em 2023 tive a oportunidade de visitar Mocuba a trabalho, senti de perto o pulsar e o avanço daquela terra. Há ali uma energia de progresso inegável. Como defensor da descentralização, alegra-me ver o poder a desconcentrar-se da capital.

Contudo, como residente e patriota da Ka-Tembe, não pude deixar de partilhar a minha tristeza com o reverso desta moeda. O meu argumento ao deputado Manteigas foi assente numa premissa de justiça territorial: se o plano de expansão do Estado deixa de contemplar a Ka-Tembe como o futuro centro do poder — redirecionando a antiga perspectiva de a Ka-Tembe acolher a cidadela parlamentar em favor de Mocuba —, a estabilidade local exige contrapartidas. A Ka-Tembe não pode ver as suas promessas de desenvolvimento preteridas sem compensação. Precisamos de investimentos de igual dimensão que funcionem como íman económico e incitem o desenvolvimento que nos é severamente negado.

Foi nesse momento do almoço que coloquei na mesa a solução que considero mais viável: a emancipação administrativa da Ka-Tembe, elevando-a da categoria de Distrito Municipal para a de Município autónomo. Actualmente, vivemos num sufoco financeiro e num isolamento gritante porque o Conselho Municipal de Maputo nos esqueceu. Se formos um município independente, ganhamos o poder de reter as receitas locais e, acima de tudo, a autonomia política para atrair, negociar e licenciar investimentos directos no turismo, na agricultura e nas pescas entre outras áreas. Deixamos de alimentar um saco roto centralizado para gerir recursos focados directamente nas nossas estradas, valas de drenagem, iluminação e serviços públicos essenciais.

Para o meu contentamento, o deputado José Manteigas escutou atentamente e subscreveu a minha perspectiva. Ele concordou que a municipalização é, de facto, o gatilho mais rápido para fazer o nosso distrito dar o salto qualitativo de que precisa. A realidade actual da Ka-Tembe é penosa. Se a imponente ponte nos ligou geograficamente ao resto da capital, o poder público local continua a brilhar pela ausência no ordenamento interno e nos serviços de proximidade.

O distrito transformou-se numa imensa tela de crescimento horizontal erguida unicamente pela força, suor e resiliência dos cidadãos de bem que, como eu, decidiram fazer desta margem o seu lar. Como costumo dizer aos meus vizinhos e amigos: na Ka-Tembe, a qualidade de vida só existe dentro dos nossos quintais. Assim que passamos o portão para a rua, confrontamo-nos com um deserto de infraestruturas secundárias, com a falta de transportes eficientes e a escuridão pública. É um vazio gritante de planeamento urbano.

A descentralização de Moçambique é justa e necessária, e Mocuba merece o seu novo estatuto. Mas, Maputo não pode esquecer que a Ka-Tembe também faz parte do mapa. Se o destino do Parlamento já não passa pela Ka-Tembe, que nos devolvam a autonomia. A emancipação para Município não é apenas um desejo político; é uma urgência de sobrevivência para que a Ka-Tembe deixe de ser um mero dormitório esquecido e passe a ser dona do seu próprio destino.

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