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1 de September, 2026

Estrela Vermelha – Uma estrela que perdeu o brilho

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A História conserva nomes como monumentos e, muitas vezes, guarda-os também como advertências. A antiga Jugoslávia e a sua estrela vermelha foram disso exemplo. Criada em 1918 para reunir os povos eslavos do Sul e transformada, depois da Segunda Guerra Mundial, numa federação socialista sob a liderança do Presidente Josip Broz Tito, a Jugoslávia parecia ter encontrado uma fórmula capaz de manter unidos sérvios, croatas, eslovenos, bósnios, montenegrinos e macedónios, apesar das suas diferenças históricas, religiosas e nacionais.

Durante décadas, Tito conseguiu manter a federação de pé. Mas, depois da sua morte, em 1980, a crise económica, os nacionalismos e velhos ressentimentos fizeram aquilo que, até então, parecia impossível, a federação desfez-se e a região mergulhou numa das mais trágicas guerras da Europa contemporânea.

E havia por ali uma estrela vermelha, símbolo maior do mundo socialista, que também não conseguiu impedir que a casa comum se desmoronasse. Se nem uma federação inteira conseguiu sobreviver sob a estrela vermelha, fica a pergunta, quem sabe injusta ou talvez apenas provocadora, por que razão haveria ela de funcionar em Maputo?

Depois da Independência de Moçambique, em 1975, o país iniciou uma profunda transformação política, económica, cultural e social. As nacionalizações foram acompanhadas por uma verdadeira revolução na toponímia. Ruas, escolas, cidades, edifícios e instituições passaram a ostentar nomes de combatentes da luta armada, dirigentes que mais se haviam destacado, países socialistas amigos que tinham apoiado a luta de libertação e figuras associadas ao novo imaginário político.

Foi nesse contexto que a antiga Rua General Joaquim de Araújo, também um general sem muitas glórias para registar,perdeu o seu nome e que a escola que ostentava a mesma designação conheceu igual transformação. Samora Machel, com a energia revolucionária de quem queria romper com os símbolos do passado colonial, não hesitou em retirar nomes que considerava incompatíveis com a nova dignidade nacional. Assim, a Escola General Joaquim de Araújo entrou numa nova vida com um novo nome, Escola Secundária Estrela Vermelha.

Ninguém, na melhor das previsões, imaginaria então que, algumas décadas depois, estaríamos aqui a discutir não a força da estrela, mas a sua capacidade de continuar a iluminar. A Escola Secundária Estrela Vermelha está situada num lugar que, geográfica e socialmente, foi uma espécie de fronteira da cidade capital,entre a chamada cidade de cimento e a cidade que crescia para além dela, nas imediações da Mafalala e da Malhangalene, junto à antiga zona do bairro indígena. Era, portanto, uma escola numa posição estratégica, recebendo jovens provenientes de mundos diferentes e socialmente bem mais complexos.

Durante muito tempo, essa localização foi uma vantagem. A escola era uma ponte entre territórios, classes sociais e oportunidades. Hoje, ironicamente, parece ter-se transformado numa fronteira entre a escola e aquilo que a própria escola deveria ajudar a combater, a insegurança, o comércio informal descontrolado, o violento e degradante mundo da droga, o roubo e a degradação do espaço público.

Construída em 1964, a antiga Escola General Joaquim de Araújo era uma instituição de referência na época da sua criação. Para além de salas amplas, tinha piscinas, ginásios, biblioteca, anfiteatros e uma infra-estrutura que hoje chamaríamos, sem hesitação, de classe A. Continua, por isso, a despertar o interesse de privados, desejosos de aproveitar alguns dos seus espaços para a instalação de ginásios e outras actividades.

Era uma escola do ciclo preparatório que encaminhava jovens para escolas técnicas e comerciais do segundo ciclo e cultivava uma verdadeira cultura de formação integral. Por ali passaram gerações de alunos e personalidades que deixaram marcas na cultura e no desporto. Talvez por essa ligação histórica, o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa visitou a escola em 2016 e recordou algumas das suas memórias.Eram cerca de 6000 alunos.

O artista Naguib Elias guarda, ainda hoje, referências dos seus tempos de escola. Ingressou em 1965 e recorda aquele lugar quase como o paraíso terrestre da educação na capital. Lembra-se do Professor Vilela, figura importante da Educação Física, que promoveu campeonatos interescolares e ajudou a formar uma geração de grandes basquetistas e ginastas, entre eles Mussa Tembe.

A escola tinha também um mural, no final do corredor principal, por sinal ainda preservado, associado a nomes importantes das artes, os artistas plásticos portugueses João Paulo e Querubim Lapa, além do arquitecto Pancho Guedes, autor de tantas obras em Lourenço Marques.

Era uma época em que a escola onde se aprendiam disciplinas e se formavam sensibilidades, espaço privilegiado para se cuidar dos talentos e, mais importante ainda, se formavam cidadãos. Era uma escola que tinha futuro. Talvez seja por isso que nos doa tanto vê-la a perder o presente, porque o futuro perdeu faz tempo.

A Escola Secundária Estrela Vermelha vive hoje uma encruzilhada que já não pode ser disfarçada com discursos. Os números ajudam a perceber a dimensão da queda. Em 2023, a escola matriculou2.881 estudantes. Em 2024, outros 2.667. Em 2025, o número de matrículas caiu para 2.176. E, em 2026, foram apenas 936 estudantes. Em quatro anos, a escola perdeu quase dois terços dos seus alunos.

As famílias hesitam, com razões compreensíveis, em matricular os filhos numa escola que, muitas vezes, lhes fica bem próxima. E não é difícil perceber porquê. Ao lado da escola cresceu um gigantesco mercado informal, o Dumba-Nengue, conhecido precisamente como Estrela Vermelha, e a proximidade deixou de ser uma vantagem para se transformar numa ameaça.

Há uma ironia quase cruel nisto tudo. A escola chama-se Estrela Vermelha e o mercado também. Mas, em vez de duas estrelas a iluminarem a cidade, temos uma a ofuscar a outra. Quem sabe seja mesmo caso para perguntar se o problema está na escola, no mercado ou,simplesmente, na nossa extraordinária capacidade de baptizar as coisas, sem depois cuidar daquilo que os nomes deveriam significar. Como diz o adágio popular, “quem semeia vento colhe tempestade”. E, quando deixamos crescer, durante anos, aquilo que ameaça uma escola, não devemos surpreender-nos quando ela começa a perder os seus valores, os seus atractivos fundamentais e, pior do que tudo, os seus alunos, pais e encarregados de educação.

Esta semana, num Agosto de temperaturas baixas, poucos ventos e muitas memórias, visitámos a escola. Esteve presente o carismático Gabriel Júnior, a quem a media consagrou como “filho do povo”. Durante um evento designado Jornadas Profissionalizantes, realizado em parceria com a Universidade Pedagógica de Maputo, aconteceu, em pouco mais de duas ou três horas, com os alunos fora das salas, uma cena que poderia perfeitamente fazer parte de um filme policial. Vários aparelhos celulares desapareceram sem que ninguém percebesse como. As suspeitas recaíram sobre vendedores ambulantes do mercado vizinho. Enquanto o bom do Gabriel falava, os amigos do alheio cuidavam de demonstrar as suas habilidades de batedores de carteira. Foi necessária a intervenção da Polícia da República de Moçambique, uma rusga e, felizmente, alguns aparelhos acabaram recuperados.

O mais assustador não foi apenas o roubo. Foi a perícia. Roubaram dentro de uma escola sem que os donos percebessem que estavam a ser surripiados. Crimes praticados sem violência, mas com tanta habilidade que quase parecem ilusionismo. Só que ali não havia palco, luzes, espectáculo ou aplausos. Haviam alunos, professores e uma escola que merece mais glória e honras. E uma escola não pode transformar-se numa plateia permanente para o crime.

Há algum tempo foram apresentadas propostas para retirar daquele espaço o mercado informal, precisamente pelos riscos que representa para a juventude e para a própria escola. Também se discutiu a possibilidade de a instituição passar a chamar-se Escola Secundária José Craveirinha, o que teria sido uma homenagem particularmente feliz, sobretudo nestes tempos da pós-celebração do centenário do grande poeta.

Craveirinha, afinal, foi vizinho da escola,escreveu sobre Moçambique, sobre a dignidade humana, sobre a liberdade e sobre a condição do nosso povo. A sua poesia embebedou-nos a todos, e as suas marcas continuam tatuadas em quase todos os nossos escritores. Mas o problema fundamental já não é o nome da escola. Podemos chamar-lhe Estrela Vermelha, General Joaquim de Araújo, José Craveirinha ou simplesmente Escola Secundária Número (1) Um. Nome nenhum ensina uma criança e nemprotege um aluno. Nome nenhum substitui segurança, disciplina, professores, bibliotecas, laboratórios e um ambiente digno para aprender.

O povo na sua sabedoria diz sempre, “a casa não se conhece pelo telhado, mas pelos alicerces”. E chegamos, assim, ao dilema que ninguém parece querer enfrentar. A escola está a perder alunos, a infra-estrutura degrada-se e as famílias procuram alternativas. Entretanto, nenhuma instituição parece suficientemente ousada para enfrentar, no seu verdadeiro sentido, o problema do mercado informal e do comércio ilegal que se instalou naquele espaço,eventualmente, porque em algum lugar do cálculo político, aparece sempre a palavra voto.

E aqui precisamos de dizer uma coisa incómoda. Não se pode sacrificar o futuro de milhares de jovens no altar do medo de perder votos. Uma sociedade que tolera um comércio degradante e ilegal por receio das consequências políticas acaba por descobrir, mais tarde, que o preço da omissão é muito mais alto.Aquele voto foi perdido faz tempo.

Se não conseguimos garantir que uma das escolas historicamente mais importantes da cidade seja um lugar seguro para aprender, então precisamos de ter coragem para mudar de estratégia. Uma possibilidade seria transformar aquele espaço numa academia policial, aproveitando a infra-estrutura existente e fazendo da própria presença institucional da polícia um instrumento de recuperação daquele perímetro. Quem sabe a Estrela Vermelha pudesse, finalmente, voltar a ter alguma utilidade pública, não como símbolo político, mas como lugar de formação daqueles que devem proteger a cidade.

Existe, entretanto, uma segunda possibilidade, e esta talvez seja ainda mais bonita. Há bastante tempo que o ISARC procura espaços adequados para a formação de quadros superiores das artes e da cultura. Por que não imaginar aquela infra-estrutura recuperada como uma grande instituição de ensino superior dedicada às artes, à cultura e à criatividade? Uma escola que já formou atletas, estudantes e artistas poderia transformar-se num Instituto Superior José Craveirinha, preservando a memória do lugar e devolvendo-lhe uma vocação de formação. Seria uma forma de salvar a escola sem destruir a sua história. Uma forma de mudar a sua função sem apagar a sua memória.

Nessa nova vida, José Craveirinha poderia finalmente encontrar a paz que merecem os grandes poetas, não apenas no silêncio da eternidade, mas no rumor dos jovens que aprendem, criam, cantam, pintam, representam e pensam. Porque, no fundo, o problema nunca foi a estrela.Fomos nós que deixámos de cuidar do céu onde ela deveria brilhar.

A Escola Secundária Estrela Vermelha não precisa de outro nome para voltar a ser importante. Precisa de uma decisão.Precisa, estou convicto, de deixar de ser um lugar onde os pais têm medo de matricular os filhos e voltar a ser um lugar onde os filhos tenham vontade de estudar, brincar e aprender a ser cidadãos honestos e exemplares.

Precisa de deixar de conviver com o crime para voltar a conviver com o conhecimento e a descoberta. A Estrela Vermelha terá de deixar de formar apenas memórias e voltar a formar a nova geração de que Moçambique necessita.E, acreditem, talvez seja esta a maior ironia de todas, uma escola chamada Estrela Vermelha não deveria estar a apagar-se justamente diante dos nossos olhos. No norte do país, se dizquando a árvore cai, todos correm para saber onde ela vai tombar”. Nós sabemos onde esta árvore está a tombar. Sabemos há demasiado tempo. O que falta saber é se teremos coragem de segurá-la antes que caia. Porque uma cidade que deixa morrer uma escola está, silenciosamente, a deixar morrer uma parte do seu próprio futuro.

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