Tudo aconteceu muito rapidamente e de surpresa, como se de uma cena de filme de acção se tratasse. Por alguns minutos, o Mercado Estrela Vermelha – um dos mais emblemáticos “dumba-nengues” da capital – transformou-se num verdadeiro “far west”: tiros para o ar, pedras arremessadas, vidros partidos, vendedores e compradores em pânico correndo de um lado para outro, mercadorias e produtos derrubados…
Enfim, um verdadeiro caos.
Os factos: pouco passava das 14:30 horas, desta segunda-feira, quando uma viatura da polícia, com perto de meia dúzia de agentes a bordo, irrompeu pelo “coração” do mercado adentro, isto na Av. Emília Daússe. Mais ou menos a meio do percurso, mais precisamente na secção de venda e reparação de telemóveis e de outros aparelhos electrónicos, os agentes da polícia imobilizaram a viatura, saltaram cá para fora e capturaram um indivíduo. Um vendedor.
Ao que apuramos, os agentes sabiam perfeitamente ao que iam. O objectivo era deter um indivíduo que estava em posse de um telemóvel roubado a uma jovem que, na última sexta-feira, foi barbaramente assassinada, após ter sido estuprada, no bairro do Zimpeto.
O dito indivíduo é vendedor de telefones celulares.
O acto da detenção do alegado meliante terá acontecido de forma “normal”, pese embora alguns protestos (igualmente “normais”) deste, e de alguns dos seus colegas. Assim que o indivíduo foi devidamente “embarcado”, a viatura das autoridades pôs-se em marcha, continuando pelo eixo central do mercado, até alcançar a Av. Romão Fernandes Farinha, onde desviou, seguindo em direcção à Av. Marien Ngoaby.
O que a polícia não estava à espera era de encontrar a estrada bloqueada (tráfego intenso e obras numa das bermas da via), mesmo defronte das novas instalações da Universidade Católica de Moçambique. Vai daí, houve necessidade de se fazer um compasso de espera.
Foi precisamente nesse momento, que de repente começaram a chover pedras na sua direcção.
É que afinal, não conformados com a detenção do colega, vários outros vendedores haviam (per)seguido sorrateiramente a viatura da polícia. Quando se aperceberam que a mesma se imobilizara mais adiante, viram ali a oportunidade sublime para dar asas à sua indignação, arremessando pedras aos agentes da polícia.
Acossados, os agentes da lei e ordem optaram por tomar uma medida de choque: disparar tiros para o ar, de forma a dispersar os seus atacantes. Segundo testemunhas, foram entre seis a dez disparos consecutivos, que não só puseram os “apedrejadores” em fuga, como deixaram todo o mundo em polvorosa – já que ninguém sabia o que efectivamente se estava a passar.
A seguir foram as cenas já descritas acima.
Importa salientar que o arremesso de pedras em direcção à viatura policial provocou danos colaterais: pelo menos dois carros que se encontravam estacionados por perto tiveram os seus vidros partidos – caso para dizer que estavam no “sítio errado à hora errada”.
O Chefe saiu de fininho…
Quando a nossa reportagem se fez ao local, cerca de 30 minutos transcorridos, já a “vida” tinha voltado à normalidade. Era como se nada tivesse acontecido – a dinâmica do Estrela é mesmo essa.
Além de ouvir várias testemunhas, tentamos obviamente contactar o Chefe do Mercado: o chefe Paulo (ninguém nos soube dizer qual o seu apelido). Indicaram-nos a sua banca, e lá fomos nós.
Curiosamente, o chefe também é negociante de celulares e outros aparelhos electrónicos – ou seja, o seu “estabelecimento” sita justamente na área onde tudo começou.
Para nosso espanto, o chefe Paulo já havia recolhido os seus pertences e abalado para casa. Os colegas, quando questionados, contaram-nos o seguinte: “O chefe Paulo é assim mesmo: basta dar 15:30 horas, vai-se embora. Ele é como os funcionários públicos. Por acaso até estava aqui quando vieram recolher o nosso amigo e aconteceu toda aquela situação. Pouco depois, como sempre, arrumou as suas coisas e foi-se”…
“El dorado” dos campanhistas
Embora não se possa considerar corriqueira, a situação que se viveu esta segunda-feira no Mercado do Estrela Vermelha, está longe de ser inédita.
Não são poucas as vezes em que surgem relatos de tiroteios, protagonizados não só por agentes da polícia, mas também por malfeitores.
O Estrela é um dos mais movimentados mercados da área metropolitana da capital, mas a sua localização tem sido alvo de muita controvérsia, dado o facto de se situar justamente ao lado de uma Escola Secundária (da qual lhe “levou” o nome) e, mais recentemente, de duas outras instituições de ensino superior.
O Mercado foi requalificado aqui há uns anos quando, à semelhança do que aconteceu a vários outros, a edilidade edificou um muro ao seu redor, supostamente, para obrigar que vendedores só pudessem operar intramuros, liberando assim as estradas e passeios.
A verdade é que, se tal algum dia chegou a acontecer, terá sido sol de pouca dura.
Aliás, o facto de o próprio Chefe do Mercado, vender os seus produtos num passeio é disso sintomático.
Apesar de a classe política, de uma maneira geral, repudiar as condições de funcionamento daquele local, a verdade é que o Estrela é por excelência o “el dorado” para a realização de campanhas políticas duns e doutros, em vésperas de eleições, sendo que todos eles prometem reformas a cada ciclo eleitoral.
Porém, até hoje, nem água vai nem água vem, e os desmandos continuam…(HL)





