Um estudo do Observatório do Meio Rural (OMR), conduzido pelo economista Yasser Arafat Dadá, questiona se 100 Meticais são suficientes para garantir uma alimentação adequada à mulher rural moçambicana. Intitulada “Os 100 Meticais e a mulher rural moçambicana: comer para não morrer de fome ou comer para ter nutrição adequada”, a pesquisa sustenta que a capacidade de fazer o dinheiro render não deve ser confundida com o acesso a uma dieta nutricionalmente adequada.
A análise vem a propósito da emblemática e inusitada afirmação do Chefe de Estado, Daniel Chapo, de que a mulher consegue preparar o pequeno-almoço, almoço e jantar com 100,00 Meticais e até obter trocos, numa comparação de gestão financeira entre os homens e as mulheres.
A afirmação gerou reacções negativas da sociedade moçambicana, tendo obrigado o Chefe de Estado a prestar “esclarecimentos”. Daniel Chapo explicou que se referia à mulher rural, que já dispõe de produtos como farinha, batata-doce, mandioca, arroz e feijão no celeiro, utilizando os 100,00 Meticais apenas para adquirir alguns complementos, como óleo e sal.
O OMR questiona se uma família pode conseguir comer três vezes por dia e, ainda assim, não ter uma alimentação suficientemente diversificada e nutritiva. A organização diz que, até 2022, cerca de 94% da população moçambicana não tinha condições para custear uma dieta saudável, a proporção mais elevada da África Oriental, acima do Malawi, com cerca de 90%.
Com recurso à literatura, o estudo mostra que os alimentos ricos em nutrientes tendem a ser mais caros por caloria do que os alimentos de menor qualidade nutricional, sobretudo nos países de baixo rendimento, como Moçambique. Em 2021, por exemplo, os alimentos ultraprocessados eram, em média, 47% mais baratos do que os alimentos não processados.
“Em situação de forte restrição financeira, as famílias tendem, assim, a privilegiar alimentos que forneçam mais calorias pelo menor custo, em detrimento da diversidade e da qualidade nutricional. A evolução recente dos preços reforça esta pressão: enquanto o milho em grão caiu 14,4%, o peixe fresco aumentou 11,7% e o tomate 5,7%”, diz a fonte.
Segundo o OMR, a questão dos 100 Meticais é muito complexa no meio rural. Afirma que muitas famílias consomem parte daquilo que produzem, como milho, mandioca, batata-doce ou feijão, reduzindo a necessidade de comprar alimentos no mercado. Contudo, a produção própria não garante necessariamente uma dieta diversificada.
Recorrendo a um estudo do Banco Mundial, o OMR diz que os agregados rurais dependem fortemente da própria produção, mas tendem a cultivar apenas cerca de cinco tipos de alimentos. Outro estudo, da GAIN/UNICEF, concluiu que entre 10% a 15% dos agregados mais vulneráveis não conseguiriam alcançar uma dieta nutricionalmente adequada apenas através da redução dos preços ou de pequenos aumentos de rendimento. Estes grupos necessitam de intervenções específicas, sobretudo para garantir o consumo de proteína deorigem animal e ferro.
O estudo explica que a produção familiar tem custos que nem sempre aparecem nas despesas monetárias(terra, sementes, trabalho, água, transporte e risco climático), pelo que uma família que gasta apenas 100 Meticais em alimentos pode estar, na realidade, a suportar um custo económico muito superior.
O estudo chama ainda atenção para as consequências da subnutrição durante os primeiros mil dias de vida. A evidência científica associa a desnutrição infantil a menor escolaridade, menores rendimentos na idade adulta e impactos sobre as gerações seguintes.
Em Moçambique, 37% das crianças menores de cinco anos apresentam desnutrição crónica e 72,9% das crianças dos seis aos 59 meses têm anemia. Para o estudo, estes indicadores revelam que uma parcela significativa da futura força de trabalho está exposta a défices nutricionais que podem afectar o seu desenvolvimento e produtividade.
O Índice de Capital Humano de Moçambique é de 0,36, segundo o Banco Mundial (2026), o que significa que uma criança nascida hoje poderá alcançar, em média, apenas 36% da produtividade que atingiria com acesso pleno à saúde e educação.
A análise recorre ainda à teoria das “titularidades”, desenvolvida pelo economista Amartya Sen, segundo a qual a fome não resulta necessariamente da inexistência de alimentos, mas também da incapacidade de determinadas famílias para os obter através da produção, do trabalho, das trocas ou de transferências.
Aplicada ao meio rural moçambicano, o OMR defende que esta perspectiva mostra que a pergunta “100 Meticais chegam?” não tem uma resposta única.Diz que uma família rural produtora pode consumir parte daquilo que cultiva, enquanto outra, sem terra ou com produção insuficiente, depende do mercado. Por isso, a despesa monetária não representa, por si só, o verdadeiro custo da alimentação de uma família rural.
Uma refeição baseada no milho produzido pela própria família incorpora custos de terra, sementes, trabalho, água, transporte e risco climático. Embora não apareçam directamente como despesas monetárias, esses custos são economicamente reais.
Face a este cenário, a análise defende que o custo de uma dieta nutricionalmente adequada deve ser considerado na definição do salário mínimo, transferências sociais e composição de cabazes alimentares de emergência. Diz também que os sistemas nacionais de monitoria devemacompanhar não apenas a quantidade de alimentos e a despesa dos agregados, mas também indicadores como diversidade alimentar, consumo de proteínas e adequação de micronutrientes.
Para os agregados mais vulneráveis, o estudo aponta para a necessidade de transferências monetárias ou em espécie, fortificação de alimentos, suplementação de micronutrientes e apoio à produção de alimentos de maior valor nutricional. Defende igualmente uma política agrária orientada para a nutrição, com maior diversificação produtiva, apoio à horticultura e às leguminosas, investimento em cadeias de frio e inclusão de indicadores nutricionais na avaliação da produção agrícola.
No geral, a análise do OMR estabelece uma distinção entre comer para matar fome e comer para garantir uma nutrição adequada. Num país onde cerca de 94% da população não consegue custear uma dieta saudável, a questão dos 100 Meticais deixa de ser apenas sobre a capacidade de uma família fazer o dinheiro render. Passa a ser uma questão de saúde pública, pobreza e qualidade de vida: 100 Meticais podem ajudar a garantir uma refeição, mas não são, por si só, garantia de uma alimentação nutricionalmente adequada.
Aliás, o estudo mostra que o país registou progressos na redução da desnutrição crónica infantil, que passou de 43% em 2011 para 37% em 2022-23, porém, continua com taxas elevadas nas províncias de Nampula (47%), Cabo Delgado (45%) e Zambézia (44%). Ao mesmo tempo, a prevalência de anemia entre crianças dos seis aos 59 meses de idade aumentou de 69,1%, em 2011, para 72,9% em 2022.





