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7 de July, 2026

Pregação e retórica sectária são as novas tácticas do Estado Islâmico em Moçambique – ACLED

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O Estado Islâmico Moçambique (ISM, na sigla em inglês) está empenhado em impor um enclave na zona costeira da província de Cabo Delgado, através da pregação, coerção e sectarismo, refere a última análise da Armed Conflict Location&Event Data (ACLED), uma entidade independente especializada em estudo de conflitos armados no mundo.

A análise, elaborada pelo especialista sénior da ACLED, Peter Bofin, indica que o ISM tenta construir um reduto no seio das comunidades da referida faixa costeira e conquistar legitimidade. A “praça forte” que o ISM projectada estende-se ao longo de 100 quilómetros da costa da província de Cabo Delgado e 50 quilómetros para o interior, num perímetro em que os insurgentes têm conseguido exercer alguma liberdade de circulação, apesar da presença das forças governamentais.

Ao alcançar esse domínio territorial, os “jihadistas” pretendem manter as suas principais bases militares e obter legitimidade junto da população, diz Bofin. “Desde 2023, a abordagem do ISM tem sido crescentemente sectária e baseada no discurso religioso. O Estado Islâmico encoraja esta abordagem ao nível central e reforça-a através dos seus ‘media’”, lê-se no estudo.

Apesar dessa perspectiva, os rebeldes continuam a atacar civis, sem enfrentar uma resposta efectiva do Estado, principalmente, em alguns distritos do sul do hipotético enclave na província. A dificuldade das forças governamentais em conter as incursões dos insurgentes vai minar a autoridade do poder formal, alerta o documento.

A ACLED avisa que o contínuo e forte investimento na presença das Forças de Defesa do Ruanda (RDF), para garantir a segurança do projecto Mozambique LNG, ao mesmo tempo em que o ISM continua a atacar comunidades noutras zonas de Cabo Delgado, pode criar um ambiente de hostilidade social em relação aos empreendimentos de gás natural.

Em Março último, um habitante da área costeira do distrito de Mocímboa da Praia disse a um jornalista que “quando te cruzas com os militares, o teu coração vai para a boca. É melhor encontrares-te com os insurgentes do que com os soldados”, escreve a ACLED, citando o aludido residente.

Há poucos anos, as declarações daquele habitante seriam surpreendentes: antes de 2022, os insurgentes recorriam à brutalidade, sendo o episódio mais atroz a decapitação de mais de 50 residentes, num só incidente, recorda o documento. Nessa altura, os grupos armados destruíam, frequentemente, casas, lojas e infra-estruturas públicas.

Mas nos últimos anos, o ISM tem procurado seguir uma abordagem menos violenta nas comunidades da zona costeira de Cabo Delgado, onde procura instalar uma área de influência distinta, ao longo da estrada N380 e da região marítima para o oeste e leste, bem como entre a vila da Mocímboa da Praia, a norte, e o distrito de Quissanga, a sul.

Nessa área de influência, os insurgentes almejam um campo social de apoio para as suas acções e tentam veicular uma posição política que rejeita o Estado secular, advogando um poder baseado na sua interpretação da lei islâmica.

De acordo com Peter Bofin, essa narrativa não é propriamente nova, sendo um regresso a uma retórica que já era defendida por alguns dos líderes do grupo nos anos anteriores ao início de açcões armadas da insurgência

Contudo, nota Bofin, a tentativa de instalação de um enclave costeiro tem crescido com a filiação dos insurgentes ao Estado Islâmico (IS), em 2022, apesar de a relação entre esses dois movimentos remontar a 2018.

Apesar de o padrão actual estar sustentado por um vocabulário de sectarismo religioso, é também influenciado por configurações étnicas e religiosas antigas naquela região. Essa matriz torna problemático o combate ao extremismo apenas com base na abordagem militar, alerta a ACLED.

Morreu Machude Omar e subiu Farido

A análise daquela entidade vocacionada ao estudo de dados sobre conflitos armados no mundo refere que o reposicionamento da estratégia do ISM foi precipitada pela mudança da realidade no terreno.

O grupo esteve quase a ser completamente derrotado em 2021, quando o Ruanda e a Missão Militar da África Austral (SAMIM) empreenderam uma intervenção militar, para conter a insurgência, que estava perto de tomar o controlo da província de Cabo Delgado.

Os rebeldes ocuparam a vila de Mocímboa da Praia, em Agosto de 2020, e, por pouco tempo, outras três vilas distritais, nesse mesmo ano. O ataque a Palma, em Março de 2021, às portas do projecto de LNG da TotalEnergies, levou à intervenção internacional.

As operações do Ruanda e da SAMIM destruíram bases dos insurgentes no sul de Mocímboa da Praia e levaram à sua expulsão da vila, reduzindo drasticamente o número de efectivos do ISM e quebrando o seu sistema logístico.

A organização teve de procurar uma nova abordagem, na sequência desses reveses, para reagir a esta nova situação militar no terreno. Dois desenvolvimentos importantes moldaram a reorientação da estratégia.

Primeiro, o IS reconheceu os insurgentes que actuam em Moçambique como uma província separada, com a organização a difundir os primeiros ataques no país, a 09 de Maio de 2022, cinco anos após o início da violência armada em Cabo Delgado. Antes desse evento propagado pelos media do IS, Moçambique era parte da Província do Estado Islâmico da África Central (ISCAP).

Segundo, houve uma mudança na liderança do grupo, entre 2022 e 2023, apesar de o topo da hierarquia do ISM sempre ter sido opaco. “Contudo, sabemos que a IS Central estava a advogar uma mudança na abordagem do grupo em Moçambique, que veio com a mudança na liderança. O comandante militar mais proeminente dos insurgentes, Bonomade Machude Omar, participou numa reunião na RDCongo [onde estão as bases do ISCAP], tendo sido criticado pelo IS pelas tácticas usadas em Moçambique. Omar foi aconselhado que ‘nas áreas sob sua influência, tinham de parar de matar civis e começar a cobrar impostos aos que querem viver nessas áreas”, nota Peter Bofin.

Esse encontro aconteceu numa altura em que Hytham al-Far, um dirigente do IS, de nacionalidade jordaniana, estava a visitar a África Oriental. Al-Far terá contribuído para o aumento da influência do IS sobre ISM.

As FADM mataram o comandante operacional Omar, em Agosto de 2023, e Farido Sulemani ocupou a vaga deixada pelo insurgente abatido em combate. Farido é de Mocímboa da Praia, tal como Omar, e tem familiares na vila

Entre 2022 e 2023, o líder espiritual do ISM, Sheikh Hassan, também conhecido por Abu Yassir Hassan, um cidadão tanzaniano, foi substituído por uma figura conhecida por Ulanga, que também é da Tanzania.

Não está claro quando e porquê Hassan foi substituído. As autoridades moçambicanas dizem que foi morto em Julho de 2023, mas a SAMIM afirmou que ele foi abatido em Fevereiro desse ano. No final de 2023, o ISM já estava filiado ao IS, tinha uma nova liderança e adoptou uma nova estratégia com as comunidades.

Sob a liderança de Farido e Ulanga, o ISM tornou-se mais sectário, procurando apoio das comunidades predominantemente islâmicas, na zona costeira, de uma forma mais activa, mas mantendo uma postura mais agressiva com os civis de outras áreas, através da violência e expropriação, assinala Peter Bofin.

A partir de 2022, os alvos civis reduziram drasticamente, na faixa costeira entre Mocímboa da Praia e Quissanga, e aumentaram no oeste de Mueda e no sul de Namuno e Chiúre. Essa mudança reflecte o impacto imediato da intervenção militar estrangeira, no  enfraquecimento e dispersão da insurgência.

Desde 2023, a diminuição de alvos civis tem sido acompanhada do aumento de outras actividades, como visitas às comunidades, à procura de apoio ou  apelos para a não-cooperação com as forças governamentais, pregações ocasionais e compra de produtos, às vezes, impondo preços, através da coerção.

No enclave, o ISM procura controlar a circulação de pessoas e bens, através de uma espécie de “portagens” ilegais, nas estradas. Essa abordagem tem sido mais incisiva ao longo da costa, principalmente em Macomia e no sul de Mocímboa da Praia.

Para a ACLED, a mudança táctica revela uma agenda política: aspirações territoriais, para impor um controlo baseado em princípios do Islão. Antes de 2022, declarações públicas dos insurgentes eram raras, mas vinham à superfície, de modo esporádico.

Um exemplo é um vídeo gravado em Quissanga, em Março de 2020, quando a vila estava temporariamente ocupada pelos insurgentes. Três homens apareciam no vídeo com uma bandeira do IS, afirmando que não querem a bandeira da Frelimo.

Entre o segundo semestre de 2022 e 2023, a propaganda tornou-se mais frequente. Em Agosto de 2022, num outro vídeo, um militante do IS, dirigindo-se ao então Presidente da República, Filipe Nyusi, disse que a guerra iria continuar “até à aplicação da ‘sharia’ em Moçambique”.

Entre Outubro 2022 e Fevereiro de 2023, o grupo distribuiu textos escritos à mão, em que declarava que a sua luta era pela introdução da “sharia” e que os muçulmanos não tinham que ter medo dos insurgentes.

Para os “cristão e judeus”, a opção é aceitar o Islão, pagar a “jizya”, um imposto cobrado aos não muçulmanos, ou enfrentar uma “guerra infinita”. Trata-se de ditames impostos pela retórica do IS, enfatiza Peter Bofin. (José Machicane)

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