Por: Francelino Zeúte
Viver no Distrito Municipal da Ka-Tembe e manter a rotina profissional ou académica do outro lado da ponte tornou-se um teste de resistência psicológica e financeira. A nossa imponente Ponte Maputo-Ka-Tembe, que nos foi vendida como o elo de união definitivo que ditaria o fim do isolamento deste ponto da capital, contrasta fortemente com o abandono das vias que a alimentam.
Para milhares de residentes, a travessia diária não se resume a contemplar a beleza arquitectónica da engenharia moderna; resume-se a um calvário logístico crónico, agravado pela gritante precariedade do sistema de transportes locais. Estudar ou trabalhar na “cidade cimento” a partir da Ka-Tembe significa viver sob a ditadura de horários sufocantes e sob a constante ameaça de ficar retido longe de casa.
O primeiro grande obstáculo desta dinâmica assenta na total irregularidade e fragilidade da rede de transportes. Os operadores privados, que deveriam assegurar a mobilidade interna, recolhem as suas viaturas inexplicavelmente cedo. Quem cumpre horários laborais normais ou frequenta cursos no período pós-laboral na cidade de Maputo depara-se, ao final da tarde, com um cenário desolador na hora de regressar à Ka-Tembe. Os poucos autocarros públicos que circulam são manifestamente insuficientes e incapazes de absorver a gigantesca procura nas horas de ponta.
As paragens transformam-se em cenários de autêntica disputa física pela sobrevivência. Quando os transportes públicos falham e os privados se retiram de circulação para proteger as suas viaturas das vias completamente esburacadas, o munícipe é empurrado para o mercado informal dos Táxi-mota. No entanto, os preços praticados por estes operadores alternativos são absolutamente proibitivos para a realidade sócio-económica da esmagadora maioria das famílias moçambicanas.
Pagar viagens diárias inflacionadas a duas rodas não é uma opção de mobilidade; é uma extorsão forçada pela ausência de planificação pública. Face a estas denúncias, a resposta mais comum e simplista das autoridades municipais recai na retórica de que “na Ka-Tembe já existem escolas e infra-estruturaslocais”, sugerindo implicitamente que quem aqui vive não necessita de se deslocar à cidade.
Esta justificação não é exequível e demonstra um desconhecimento profundo da realidade das famílias. Centralizar o debate na existência de salas de aula locais ignora que o mercado de emprego especializado, as universidades públicas e privadas de referência, os centros técnico-profissionais e o grande polo económico continua concentrado do outro lado da baía.
Forçar ou sugerir o confinamento educacional e profissional dos residentes da Ka-Tembe sob o pretexto de que o distrito tem serviços básicos é uma violação ao direito de livre escolha, de progressão na carreira e de acesso a uma educação de qualidade superior. Não podemos aceitar que a Ka-Tembe continue a ser tratada como um dormitório isolado no período nocturno ou nos dias de chuva.
Se o Conselho Municipal emite licenças e cobra taxas aos residentes, tem o dever imperativo de garantir que a circulação de transportes públicos seja contínua, alargada e até compatível com as necessidades reais de quem estuda e trabalha. Urge fiscalizar os operadores privados que encurtam rotas ou abandonam o serviço mais cedo, e urge, acima de tudo, adequar a frota pública à densidade populacional que não para de crescer deste lado de Maputo.
A ponte existe para ligar e integrar, mas enquanto a mobilidade interna na Ka-Tembe for um privilégio financeiro e um sacrifício diário, continuaremos separados da capital por um abismo de má gestão.





