O Estado Islâmico em Moçambique (ISM, sigla em inglês) está se apresentando como uma autoridade alternativa na costa de Cabo Delgado, facto que poderá corroer ainda mais o controle governamental das áreas costeiras e centros urbanos próximos, como Mocímboa da Praia.
De acordo com a Organização de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos (ACLED), em 2025, o ISM passou a visar cada vez mais civis no sul de Cabo Delgado e em Nampula, sendo provável que tais ataques ocorram nos próximos 12 meses e continuem a prejudicar o desenvolvimento do Estado, das comunidades e do sector privado.
Um pequeno enclave sob influência do ISM persiste entre a costa e a estrada N380, na província de Cabo Delgado. Desde 2022, o grupo adoptou uma postura menos violenta, embora ainda coerciva, em relação às comunidades locais.
A ACLED assinala que, buscando capitalizar o ressentimento histórico contra o partido no poder, a Frelimo, e partindo do pressuposto de que a sua mensagem ideológica alcançará comunidades predominantemente muçulmanas, o ISM procura estabelecer legitimidade política na região.
A intervenção internacional, iniciada em 2021 e que reduziu o grupo a apenas 300 insurgentes, impulsionou essa mudança de táctica. Antes da intervenção, o grupo contava com mais de 2.000 insurgentes e ameaçava tomar o controlo de grande parte da província de Cabo Delgado pela força.
Longe das zonas costeiras, a violência do ISM contra civis está a aumentar. Nas estradas principais, nas margens da sua área de influência, o ISM sequestra civis para obter resgate, o que dificulta a circulação de pessoas e bens, incluindo ajuda humanitária. Mais a sul, em zonas rurais de Cabo Delgado e na província de Nampula, o grupo ataca comunidades. O objectivo destes avanços é o deslocamento de pessoas, o que complica as respostas humanitárias e de segurança. É possível que se prevejam mais ataques nos próximos meses.
A ameaça do presidente ruandês, Paul Kagame, em abril, de retirar as tropas aumentou a possibilidade de uma mudança na arquitectura de segurança no norte de Moçambique. Recorde-se que Ruanda ameaçou retirar as suas forças, a menos que o governo de Moçambique e as empresas petrolíferas que operam em Cabo Delgado façam acordos de pagamento.
Apesar disso, as forças ruandesas permanecerão na província por pelo menos 12 meses, depois do governo moçambicano ter garantido o financiamento das tropas do Ruanda em Cabo Delgado, após impasse com a União Europeia, segundo anunciou o ministro ruandês das Relações Exteriores e Cooperação Internacional, Olivier Nduhungirehe.
Com mais de 5.000 soldados em Cabo Delgado, Ruanda tem sido essencial para garantir o projecto de gás natural liquefeito no norte da província. O destacamento beneficiou de fundos da Facilidade Europeia para a Paz (EPF na sigla em inglês).
Contudo a verba comunitária termina formalmente neste mês de Maio, ao fim de 36 meses de financiamento num total de 40 milhões de euros, forçando Maputo a assumir os encargos para evitar a retirada das tropas ruandesas. Apesar do anúncio oficial feito por Kigali, o governo moçambicano tem mantido até ao momento um silêncio absoluto sobre os termos financeiros do novo acordo.





