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13 de May, 2026

Encolhimento de órgãos genitais: Sessenta pessoas linchadas pela multidão no último mês

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Pelo menos sessenta pessoas foram mortas no último mês, acusadas de usar feitiçaria para encolher ou roubar pénis, o órgão genital masculino. Acredita-se que um olhar ou um toque ou aperto de mão é o suficiente para fazê-lo. O pânico começou em Cabo Delgado em 18 de Abril e se espalhou para todas províncias.

Das mais de 60 pessoas linchadas, incluem-se dois professores, uma enfermeira, um agente da Polícia e um funcionário municipal. No entanto, até agora ainda não foram encontradas vítimas com pénis encolhidos ou roubados.

“Um psicólogo clínico, Ibraimo Colabo, disse aos repórteres que oito homens tinham ido ao hospital queixando-se que os seus genitais tinham encolhido. Os exames médicos mostraram que não havia nada de errado fisicamente com eles. No entanto, dois deles estavam em estado de pânico, em resultado da sua crença nos rumores”, relatou a AIM (28 abril), Agência de Informação de Moçambique.

Até agora, centenas de pessoas foram presas no país em conexão com o fenómeno. Em Chimoio, província de Manica, onde um professor foi espancado até à morte, “o indivíduo que alegou ter o pénis encolhido foi levado para uma esquadra de Polícia, onde se descobriu que os seus órgãos genitais estavam intactos, provando que era um mero rumor”, reportou a AIM (5 de maio).

O partido Frelimo e os funcionários governamentais tem reiterado que nenhum órgão genital foi encolhido ou roubado e que as notícias são falsas. Mas, a Frelimo não é confiável e o pânico e o medo facilmente ganham espaço. Paul Fauvet da AIM (27 de abril) observou que “não há nada de novo nas queixas das bruxas que roubam pénis”.

A reivindicação também foi feita durante a caça às bruxas na Europa medieval. O célebre manual de caça às bruxas do século XV “Malleus Malificum” (Martelo das Bruxas) afirmou que as bruxas podiam roubar pénis, e transforma-lo em animais de estimação.

Pénis roubados parecem novos em Moçambique, mas dois antropólogos moçambicanos estudaram outros fenômenos que podem estar relacionados. Moçambique tem sofrido repetidamente motins de cólera, na qual as comunidades pensam que em vez de colocar cloro na água, trabalhadores da saúde estão colocando a cólera na água pública. Isto leva regularmente ao linchamento de trabalhadores sanitários e activistas locais da Frelimo.

Em 1998, o antropólogo Carlos Serra enviou equipas de estudantes da Universidade Eduardo Mondlane (UEM) para investigar. Eles ficaram chocados com o que encontraram. Pobres pessoas em muitas áreas acreditavam que as elites locais não só queriam explorar os pobres, mas também queriam matá-los.

Nos surtos da cólera recorrentes no país, ainda há revoltas e linchamento por causa da desconfiança total das elites locais. Alcinda Honwana, no seu livro de 2012: “O tempo da juventude: trabalho, mudança social e política em África”, descreve o prolongado período de tempo em que os jovens africanos são “não mais crianças, mas também ainda não adultos independentes”, a que ela chamou de “waithood”. Tornar-se adulto independente é ter já estabelecido meios de subsistência e famílias, enquanto ser “homem” significa ter um emprego e uma família.

A crescente crise em África é a falta de emprego, o que significa que um rapaz não se pode tornar um homem. As manifestações da Geração Z em Moçambique de novembro de 2024 a março de 2025 resultaram da fraude eleitoral e da falta de emprego e futuro. Colocar essas duas ideias antropológicas pode explicar o que está acontecendo. Esperança e a falta de emprego é uma castração simbólica – jovens machos são impedidos de se tornarem “homens”. Os distúrbios da cólera são sobre a crença dos pobres de que as elites os querem mortos. Não é um longo passo para acreditar que elites querem castrar jovens pobres

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