Quando era criança, em Inhassunge, atravessar para Quelimane era uma pequena viagem. Esperava-se a maré, esperava-se o barco, esperava-se a vez. Quem viajava aprendia a calcular o tempo de outra maneira, porque a outra margem era ao mesmo tempo perto e longe, bastavam alguns minutos de água, mas podia-se perder uma manhã inteira só por causa do horário.
Cresci a achar isso normal. Hoje, quando regresso, continuo a achar isso normal, e é precisamente por o achar normal que escrevo este artigo. Porque há coisas que se tornam tão habituais numa província que deixamos de as ver. E é a deixar de as ver que se perpetuam.
Inhassunge não é exemplo único. Há muitos Inhassungesna Zambézia, distritos onde a vida está organizada à volta de uma travessia, de uma estrada que se desfaz nas chuvas, de uma escola que recebe alunos a pé há vinte quilómetros, de um centro de saúde sem energia eléctricafiável.
A província tem isso tudo. Mas também tem o oposto: tem Quelimane, cidade portuária antiga, tem o vale do Licungo com arroz que era exportado, tem o chá do Gurué que já foi famoso em mercados que hoje nos esqueceram, tem coqueirais que durante décadas sustentaram famílias inteiras antes da praga do amarelecimento letal os começar a matar um a um. Tem universidade. Tem juventude que sai todos os anos formada. Tem mulheres que sustentam aldeias inteiras com a economia que fazem na cabeça, no quintal e na bicicleta.
Toda a gente que conhece a Zambézia sabe disto. O que custa explicar a quem não conhece é a coexistência. É como pode uma província com esta riqueza ter os indicadores que tem. Não é mistério: é resultado acumulado de escolhas, de adiamentos, de prioridades que sempre estiveram noutro lado. Não vale a pena ressentir ninguém por isso, mas vale a pena olhar de frente.
Penso muito nesta questão por razão profissional, passei a vida adulta a estudar inclusão financeira, a trabalhar em microfinanças, a ver de perto como é que se sai ou não se sai da pobreza nas zonas rurais moçambicanas. Mas penso nela, sobretudo, por razão familiar. Tenho gente em Inhassunge. Tenho gente em Quelimane. Tenho a memória de uma infância em que se sabia o nome do dono da bicicleta da aldeia, o nome do professor primário, o nome do enfermeiro que ia uma vez por semana. Esse tipo de memória obriga.
Há cinco coisas que, na minha leitura, prendem a Zambézia. Não são as únicas, e a ordem podia ser outra. Mas são as cinco que voltam, em qualquer conversa séria sobre a província.
A primeira é a agricultura. A esmagadora maioria dos zambezianos vive dela, e a esmagadora maioria vive dela mal. Os solos são bons. As chuvas, apesar de tudo, ainda dão. O que falta é o resto: semente que renda, ferramenta que dure, água quando a chuva falha, crédito que não esmague, mercado que pague o que a colheita vale. Sem isto, o camponês trabalha terra fértil para colher fome.
A segunda é o porto. Quelimane foi, durante séculos, uma das cidades portuárias mais importantes da costa oriental africana. Hoje, o porto trabalha muito abaixo do que poderia. Não é por falta de mar, nem por falta de hinterland, o Maláui está ali ao lado, e há um corredor natural que sobe pelo Licungo, passa por Mocuba, e chega a Milange e à fronteira. O que falta é decisão e investimento. Modernizar o porto de Quelimane não é favor à Zambézia. É arranjar a Moçambique um segundo eixo logístico de norte-centro, com retorno económico para o país inteiro.
A terceira é o dinheiro. Quero dizer, a falta dele e o acesso a ele. Há distritos zambezianos onde a agência bancária mais próxima fica a horas de caminho. As mulheres das aldeias que conhecem o calendário agrícola melhor do que qualquer técnico de Maputo não têm onde guardar o que poupam de uma boa colheita, não têm onde pedir emprestado quando precisam, não têm como proteger-se quando vem a seca ou o ciclone. O dinheiro móvel ajudou, ajudou muito, é justo dizer, mas é insuficiente. Precisamos de microfinanças sérias no interior, de banca de proximidade, de seguro agrícola que funcione mesmo, de produtos pensados para gente que vive do que planta.
A quarta é a fuga dos quadros. Esta dói mais do que se diz. Todos os anos, as universidades e os institutos politécnicos da província formam jovens com talento, com formação, com vontade. E quase todos partem. Vão para Maputo, vão para a Beira, vão para o estrangeiro. Não os culpo, eu próprio passei muito tempo longe, fiz desde a secundária até à universidade fora dela. Mas há aqui uma sangria silenciosa que, ano após ano, custa à província mais do que qualquer ciclone. E ao contrário do ciclone, não vem nos jornais.
A quinta é o clima. Idai. Eloise. Gombe. Freddy. São os nomes que ficaram. Cada um deles levou aldeias, escolas, pontes, vidas. E todas as vezes recomeçamos quase do mesmo ponto. Reconstruímos a escola que tinha caído. Voltámos a pôr a ponte. Voltámos a refazer a estrada. Sem que, entre um ciclone e outro, se consolide a resiliência que evitaria que da próxima vez fosse igual. Habitação resiliente, sistemas de aviso prévio que cheguem mesmo às aldeias do mato, seguros agrícolas verdadeiros para os pequenos Produtores, tudo isto custa. Mas o custo de não fazer é maior, e quem o paga é sempre quem menos tem.
Nada do que escrevi acima é novidade para quem conhece a província. Quem viveu nela sabe destas coisas mesmo sem as ter sistematizado. O que me parece importante dizer, agora, é que estas cinco coisas se transformam, ou não, em função das escolhas que se fazem. Não há fatalidade aqui. Há, sim, atrasos acumulados que se vencem com método, com paciência e com gente capaz.
Penso muito em quem fica. Penso nas mulheres que conheço de aldeias do baixo Zambeze, que com economia de centavos sustentam famílias inteiras e que ainda assim conseguem mandar filhos para a escola. Penso nos professores primários que dão aulas a salas onde o quadro está partido. Penso nos enfermeiros que percorrem postos sanitários a motorizada para fazer vacinação. Penso nos camponeses do Gurué, do Milange, do Alto Molócuè, do Morrumbala, que continuam a plantar como se o país lhes pertencesse. E pertence, só que ainda não chegámos lá.
A Zambézia, da forma como a conheço, é capaz de muito mais do que aquilo que hoje é. Não preciso de números para o afirmar; basta-me a memória da terra. Mas para chegar a esse mais é preciso que a província fale por si, com voz própria, exigente, técnica, presente nos sítios onde se decide o que se faz. É preciso quadros que conheçam a província por dentro, e que tenham método para a servir. É preciso pôr o melhor do nosso tempo nisto, e não no que distrai.
Quando atravesso de novo para Inhassunge, e espero o barco, e espero a maré, e espero a vez, penso sempre na mesma coisa: que a paciência das pessoas desta terra é uma riqueza, mas não pode continuar a ser tratada como um recurso natural a explorar. Quem fica à espera há tanto tempo merece, finalmente, que se chegue.
Quando em plena campanha, o então candidato e actualPresidente da República, Daniel Francisco Chapo, diz-me num encontro acidental em Lisboa: “ Dino, Mocuba vai ser a capital legislativa de Moçambique. Vamos?”. Quase me caíram lágrimas.
Divagamos por Tanzânia, África do Sul e Estados Unidos da América, e como as diversos braços do Estado estavam estruturados naqueles países e, porque Moçambique ainda mantinha toda a máquina concentrada em Maputo. E fazia todo o sentido, afinal Mocuba é onde Moçambique se abraça.
Penso em mim, 250 casas ou quartos para cada deputado, casas protocolares, casas ou quartos para o pessoal de apoio e convidados, hotéis, restaurantes e muitas outras coisas que estarão a ir para aquela da província.
É a essa Zambézia que pode ser, e que ainda tarda em ser, que vale a pena dedicar o melhor do que somos.
Em Moçambique, ainda é possível.





