O Partido Aliança Nacional para um Moçambique Livre e Autónomo (ANAMOLA) acusou, na segunda-feira (26), o Governo moçambicano de “total e completo improviso” na gestão das cheias que afectam o país, apontando a falta de preparação, articulação institucional, meios humanos, materiais e financeiros.
A posição foi expressa pelo presidente do partido, Venâncio Mondlane, durante uma conferência de imprensa realizada na sede nacional daquela formação política, em Maputo.
“Convocámos esta reunião para dar a conhecer um relatório intercalar da intervenção do ANAMOLA nesta tragédia das cheias e também as nossas perspectivas de futuro”, afirmou Mondlane.
Segundo o dirigente, “cerca de 650 mil pessoas foram afectadas, o que corresponde a aproximadamente 150 mil famílias”, com maior incidência nas províncias de Gaza, província de Maputo, cidade de Maputo e província de Inhambane”.
No total, “82 mil casas foram inundadas, das quais cinco mil totalmente destruídas”, além de “cerca de 167 mil hectares de produção agrícola destruídos”, um factor que, segundo o ANAMOLA, compromete seriamente a autonomia económica das populações afectadas.
Embora várias entidades tenham estado envolvidas na resposta às cheias, incluindo igrejas, partidos políticos, organizações não-governamentais, sociedade civil e o próprio Governo, o presidente do ANAMOLA apontou a “falta de articulação” como um dos principais problemas.
“Houve várias instituições a trabalhar para o mesmo fim, mas sem coordenação efectiva, o que dificultou a minimização da dor das populações e criação de perspectivas claras para a reconstrução e retoma da vida”, sublinhou.
Mondlane recordou que dados da Direcção Nacional de Gestão de Recursos Hídricos e do Instituto Nacional de Meteorologia já tinham alertado para o risco elevado de cheias nas sete principais bacias hidrográficas do país, incluindo Incomáti, Umbelúzi, Maputo e Limpopo.
Apesar desses avisos, o Governo só publicou o plano de contingência em Outubro de 2025, criticou.
“O primeiro problema é que o plano foi tardio. O segundo é que não chegou a ter 50% do orçamento previsto. E o terceiro é que os meios previstos, barcos, meios aéreos, centros de acolhimento, alimentos, medicamentos e voluntários médicos, praticamente não existiam”, declarou.
O líder do ANAMOLA manifestou ainda preocupação com os alertas recentes sobre a barragem de Senteeko, em Mbombela, na África do Sul, salientando que o risco de descargas elevadas já era conhecido desde Setembro de 2025.
“Devíamos ter feito o trabalho de casa muito antes”, disse.
Outro ponto fortemente criticado foi o que o partido chama de “despesismo governamental”.
Venâncio Mondlane apontou a realização de uma sessão do Conselho de Ministros em Xai-Xai, como mau exemplo, alegando que a reunião vai gastar cerca de 4,5 milhões de meticais por dia.
O total que será despendido poderia ter sido canalizado para os centros de acolhimento, onde não há medicamentos, comida e saneamento, afirmou.
O ANAMOLA criticou igualmente as tarifas de viagem praticadas pela LAM no contexto da crise, classificando-as como “especulação totalmente desumana”, e considerou inaceitável a redução de apenas 50% nas tarifas dos CFM para Magude.
“Enquanto durar este período, o transporte ferroviário deveria ser gratuito para famílias que perderam tudo”, defendeu Mondlane.
O presidente do partido apresentou um balanço das acções desenvolvidas pelo ANAMOLA entre 17 e 26 de Janeiro, em várias regiões do país.
Na cidade de Maputo, o partido assistiu famílias nos bairros da Mafalala e Hulene, tendo criado centros de acolhimento próprios.
Na província de Maputo, destacou-se a assistência em Nkobe, Tsalala, São Dâmaso, Matola-Rio, Marracuene e Manhiça, incluindo o arrendamento de sete casas para reassentamento de 34 famílias e o apoio a mais de 700 pessoas em centros de acolhimento.
Em Gaza, o ANAMOLA actuou em Xai-Xai, Macia e Chókwè, prestando apoio a famílias desalojadas e a motoristas retidos durante dias nas estradas.
Em Chókwè, “49 pessoas foram acolhidas na casa do coordenador provincial”, enquanto em Xilembene, o ANAMOLA realizou o resgate de pessoas desaparecidas e recuperação de corpos.
Durante a conferência de imprensa, Venâncio Mondlane repudiou actos de intolerância política registados durante a crise.
Mondlane afirmou que o ANAMOLA e outros partidos, como o MDM, foram impedidos de prestar assistência em algumas zonas.
“O mais grave foi a colocação de agentes do SERNIC e das Forças de Defesa e Segurança em armazéns para fiscalizar recibos e impedir o transporte de produtos adquiridos pelo ANAMOLA”, denunciou, acrescentando que famílias chegaram a ser expulsas de centros de acolhimento por estes estarem associados ao partido.
Mondlane revelou ainda que, em Luabo, na província da Zambézia, “dois coordenadores do ANAMOLA foram assassinados a tiro pela UIR”, caso encaminhado à Procuradoria Provincial.





