Moçambique despede-se hoje, 23 de Janeiro de 2026, da cidadã Luísa Dias Diogo, a primeira mulher a ocupar o cargo de Primeira-Ministra (2004-2010) e que, em Fevereiro de 2014, desafiou a liderança da Frelimo, concorrendo nas eleições internas para tornar-se candidata à Presidência da República, tendo perdido a luta para Filipe Jacinto Nyusi, num processo em que houve rumores de “jogo de malas”.
Diogo, de 68 anos de idade, perdeu a vida na última sexta-feira, no Centro Clínico Champalimaud, em Lisboa, capital portuguesa, onde recebia tratamento médico. Os seus restos mortais chegaram ao país, na manhã da passada quarta-feira. O Governo aprovou uma Resolução que determina a realização de um funeral oficial e decretou dois dias de luto nacional, que se observam desde as 00h00 de hoje.
Mestrada em Economia Financeira, pela Universidade de Londres, desde 1992, Luísa Diogo fez quase toda a sua carreira no Ministério das Finanças, onde foi admitida em 1980, como técnica do Departamento dos Sectores Económicos e de Investimento.
Naquele órgão do Governo, Diogo assumiu diversas funções de chefia, com destaque para os de Directora Nacional do Orçamento, entre 1989 e 1992; Vice-Ministra do pelouro (1994-2000) e de Ministra do Plano e Finanças (2000-2005).
Além de desempenhar vários cargos no Governo, Luísa Dias Diogo foi Oficial de Programas no Banco Mundial, em Moçambique. Também desempenhou relevantes funções no sector empresarial. Em 2012, por exemplo, tornou-se Presidente do Conselho de Administração do Barclays Bank Moçambique, actual Absa Bank Moçambique. Em 2018, foi nomeada Presidente do Parque Industrial de Beluluane, onde se localiza a maior fábrica de fundição de alumínio do país, a MOZAL.
Em mensagem endereçada à família, o Presidente da República, Daniel Chapo, manifestou pesar pela morte da economista, defendendo que o seu legado “ultrapassa as fronteiras de Moçambique”. “Foi reconhecida como uma das figuras femininas mais influentes do mundo pela revista Forbes e incluída entre as 100 personalidades mais influentes pela Times Magazine, fruto do seu papel decisivo na economia, na liderança e na defesa da igualdade de género, actuando também em importantes painéis da Organização das Nações Unidas”, afirma Chapo.
Segundo Daniel Chapo, o percurso de Luísa Dias Diogo foi marcado por uma liderança firme e visionária, especialmente nas áreas económica e da igualdade de género. “Deixa um exemplo inspirador de integridade, competência e serviço à pátria, que continuará a motivar gerações futuras de moçambicanos”, sublinha.
Por sua vez, Joaquim Chissano, antigo Chefe de Estado, defende que Luísa Diogo foi “uma verdadeira mulher de Estado, inteiramente dedicada à causa pública, cuja integridade, discrição e firmeza de carácter deixa um legado duradouro para Moçambique”.
“O seu exemplo constitui uma referência para as gerações actuais e futuras, em particular para as mulheres chamadas a assumir responsabilidades de liderança na vida pública”, destaca, sublinhando que, no exercício das funções de Ministra do Plano e Finanças, Diogo distinguiu-se pelo elevado rigor técnico, clareza de visão estratégica e coragem política.
Numa curta mensagem divulgada na sua página do Facebook, Armando Guebuza, também antigo Presidente da República, considera que Luísa Diogo dedicou “uma vida ao serviço do país, com dedicação e competência, e que granjeou reconhecimento e respeito”. Por isso, “à sua família, endereçamos as nossas mais sentidas condolências”.
Já Filipe Jacinto Nyusi, ex-Chefe de Estado, afirma que a antiga Primeira-Ministra “é uma reverência e referência inquestionável” e que se tornou uma “fonte de inspiração para as actuais e futuras gerações de líderes com especial destaque para a mulher”.
“A compatriota Luísa, mulher duma forte personalidade, deu e ainda se esperava que desse muito do seu saber pela contínua construção do Estado moçambicano. Foi com abnegação, dedicação, entrega, inteligência e patriotismo que desempenhou as diferentes funções que lhe foram confiadas ao longo dos anos”, sublinha Nyusi.
Natural da província de Tete, Luísa Dias Diogo publicou, em 2013, uma obra intitulada “A Sopa da Madrugada”, na qual narra a sua experiência de governação entre 1994 e 2009, sobretudo o papel da mulher na governação.





