Olá Pai Natal!!!
Escrevo a partir de Maputo, Moçambique (também tem como expressão e pontos geográficos Do Rovuma ao Maputo e do Zumbo ao Índico), sendo o Rovuma a zona de grande reserva de gás que entre a bênção e a maldição, parece estar a amaldiçoar-nos; Maputo, a velha Lourenço Marques escolhida para capital do país; o Zumbo, rasgado e banhado pelo Zambeze, o rio internacional que escolheu Tete para mostrar sua força, beleza e misticismo; e o Índico, o oceano que nos banha a costa em mais de 2500 km e faz de Moçambique a Pérola dele, capaz de prover alimento, hidrocarbonetos e turismo, mas que se especializou receber em barcaças de pó branco vindo da Ásia.
Pelas minhas cartas anteriores, suponho que devas estar minimamente familiarizado com os nossos 4Gs – Ganância, Gás, Guerra e Governação. São na verdade, os Gs que fazem de nós este país do “quase”, o país “adiado” e talvez num cenário mais pessimista, um país “cancelado”.
Uma vez mais te escrevo, sem mandato, portanto sou um intruso assumido, movido por uma crença pessoal segundo a qual fazes boas acções nesta época e levas presentes aos meninos e meninas bem-comportados.
Por falar em meninos bem-comportados, lembrei-me dos milhares de meninos e meninas de Chiure, Ancuabe, Ibo, Macomia, Nangade, Mocímboa da Praia, Quissanga, Memba, Quiterajo, Eráti, e outros distritos que diariamente sofrem com as balas e atrocidades dos donos da guerra. Meninos e meninas que o único mal que cometeram foi nascer numa província rica em recursos e violada de forma sistemática e brutal pelos usurpadores da nossa soberania e destruidores dos nossos sonhos. Usurpadores esses, apadrinhados por gente influente e intocável das lides do poder que nem vale trazer nesta carta.
Lembro-me, com muita tristeza, que no ano passado o ambiente por estas latitudes era de cortar a respiração. Pela primeira vez nas últimas décadas vivemos um Natal onde não celebramos a mística do nascimento de Cristo, mas nos dedicamos a enterrar os mortos e a cuidar dos feridos.
Foi largamente difundido que, com a crise pós-eleitoral, o país entrou num quase paralisação commanifestações, confrontos violentos, repressão, e um rasto de morte e destruição muito pesado. As diferenças, a sede pelo poder e muito aproveitamento político e social, abriram feridas que até hoje custam sarar; e as que sararam, deixaram cicatrizes profundas. Feridas criadas por nós mesmos e que são resultado da nossa fraca capacidade de sentar e dialogar como pessoas e aceitar as nossas diferenças.
Não pretendo politizar a minha carta, mesmo sabendo que para além de filantropo e plantador de sonhos, és resultado de um projecto político. Acredito que com a carta ao Pai Natal, o meu exercício de influência possa chegar aos meus (nossos) governantes e capitalizar estes pequenos rabiscos.
As luzes que habitualmente brilham nas casas, perderam o seu reluzente brilho e a preocupação maior era saber se teríamos direito a um novo amanhã, a umanova oportunidade de sermos nós mesmos. Pai Natal! Em 2024, vivemos um Natal apenas de nomenclatura, mas o espírito não estava lá presente. Nem espírito, nem pessoas à mesa, e quando havia pessoas a mesa, faltou a família e o alimento; quando havia alimento faltou apetite e comunhão. Várias fronteiras se abriram entre nós e com elas, várias portagens humanas condicionavam a nossa locomoção fosse ao mercado, ao hospital, ou à casa do familiar mais próximo, uma vez que dos distantes apenas usávamos o celularquando fosse permitido.
Algumas das causas deste caos que vivemos em 2024, não pertencem necessariamente a este ano cronológico. São causas que podem ser encontradas nos nossos 4Gs, com maior destaque para a ganância e para a má governação que grassam na bela Pérola do Índico. A bolha estoirou e as coisas tomaram repercussões nunca imaginadas até pelos apelidados arautos da desgraça. O país quase colapsou, e o rasto de destruição, luto e miséria ficou entre nós.
Quando era mais novo, e te escrevia as minhas primeiras cartas (manuscritas), acreditava mais em ti, do que acredito hoje. Lembro-me que a condição para que aceitasses a carta e respondesses favoravelmente era que deveria ter me portado bem e não deveria reprovar na escola.
Hoje, com a evolução tecnológica que rapidamente se alastra um pouco por toda a parte, suponho que já não recebas tantos manuscritos. Suponho também que a sua caixa de email deve estar cheia de pedidos dos meninos abastados do mundo – os que ainda acreditam que tu existes e fazes coisas boas. E por falar em avanços tecnológicos, talvez em breve, com a inteligência artificial, a simbologia do Pai Natal, a bondade do velho barbudo torne-se cada vez mais objecto material e ao alcance de cada vez menos pessoas; as renas e os trenós entrem para a história; a neve, esta irá continuar porque é a imagem do chamado norte global.
Na carta do ano passado, o meu (nosso) pedido foi – um Moçambique em paz e livre da violência. Este ano, com a ligeira paz social que se vive, penso que haverá uma talvez tímida e/ou talvez eufórica retomada à normalidade. Não irei pedir presentes, pois sei que para além de sentir que te desligastes um pouco das crianças do sul global, será um contrassenso pedir brinquedos onde não há sequer comida nem certeza sobre o hoje, sobre o amanhã.
Se da casa do povo ouvimos que o Estado Geral da Nação é de Confiança renovada rumo a um desenvolvimento sustentável e inclusivo, pedimos-te Pai Natal, que de 2026 em diante possamos não apenas escutar palavreado bonito, tampouco indicadores do PIB e tendências micro e macroeconómicas acompanhadas de aplausos ensaiados e executados por pessoas grandes que fingem que está tudo bem, mas sentir uma melhoria factual na vida deste povo que tanto merece ver sua dignidade, segurança e bem-estar garantidos pelo Estado.
Não é sobre quem tem a mais bela árvore na sala pois como deveis saber, as nossas árvores são abatidas de forma indiscriminada e levadas sei lá para onde – não nos vale ter árvores artificiais na sala e uma floresta depravada ao sabor do capital e dos apetites capitalistas.
Não é sobre ver quem tem mesa mais farta onde algumas famílias (as que podem) juntam-se e fazem votos de felicidade, mudança e prosperidade, sem que, mais de metade da nossa população não tenha o que comer durante o ano todo, apesar de algumas estatísticas apontarem 3 refeições.
Não é sobre quem mais ostenta, ou quem mais mostra estar bem, porque no fim do dia é um país inteiro dilacerado e em risco de divisão pelas desigualdades e pela exclusão.
É, pois, sobre um projecto de um Moçambique e o reavivar da moçambicanidade em que todos possam usufruir de direitos e deveres iguais e equitativos. Um Moçambique que tenha educação, saúde e comida para todos. Este sim, é o meu desejo – não para um, dois ou três natais, mas para o futuro que já parece nos passar ao lado.
Não gostaria de terminar a carta sem mandar um abraço ao menino “Xitsungo” e dizer que este ano não haverá pipocas grátis porque os chamados vândalos e assassinos não entraram em cena, mas que graças ao poder da mídia e pronta acção de pessoas caridosas, hoje pode sonhar com uma educação que lhe vai emancipar.
Um bom Natal e um Ano Novo de mais esperança e renovada confiança pois o que nos sustenta a esperança é a resiliência que temos.





