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15 de October, 2025

Hoje já não se “dobra, embrulha e siga-me!”*

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Nos primórdios da venda de roupa usada ocidental, vulgo “calamidades”, creio que na segunda metade dos anos oitenta do século passado, o centro de vendas era o Mercado de Xipamanine. Na altura quem quisesse comprar “roupa e calçado de qualidade” teria de se deslocar a este mercado. E Hoje?

Actualmente está tudo facilitado. O grossista e o retalhista estão todos no centro da cidade. O grossista em armazéns e o retalhista nos passeios e alguns destes, em pleno passeio de avenidas chamadas de protocolares, até se confundem com grossistas, avaliando a área que ocupam e a quantidade de “calamidades” que exibem.

Historicamente, salvo melhor entendimento, o fenómeno da venda de “calamidades” na via pública, no centro da cidade, começa, timidamente, no início dos anos noventa. A esquina das avenidas Eduardo Mondlane e Karl Marx, ao longo do muro do cemitério Francisco Xavier, vulgo “Cemitério da Ronil”, foi dos primeiros locais de venda.

Uma vez o produto à porta de casa dos munícipes da cidade de cimento estes já não precisavam de deslocarem ao Mercado de Xipamanine, mas tinham um senão:temiam serem vistos a comprar “calamidades” o que não abonaria para a reputação social. Diante do dilema social, a saída foi o “dobra, embrulha e siga-me”.

Como funcionava o “dobra, embrulha e siga-me!”? Era simples: o cliente parava do outro lado da avenida e apreciava as peças que queria. Na dúvida até passava diante delas, como quem não quer nada, ao longo do muro do cemitério.

Depois de identificados os alvos o interessado pedia a alguém, normalmente crianças, para chamar o vendedor que à sua chegada recebia informação da roupa identificada. Uma vez entendidos, roupa identificada e valor acertado, o vendedor recebia a clássica instrução: “Dobra, embrulha e siga-me!”.

E assim o vendedor, com a roupa bem dobrada e embrulhada, seguia em fila indiana o cliente até a casa ou ao trabalho dele ou mesmo a um local que fosse resguardo aos olhares da cidade, para que experimentasse a roupa, e no caso de aprovado, fechasse a transação.

Hoje em dia, este resguardo é dispensado. Em plena luz do dia, no centro da capital e em avenidas protocolares, o cliente identifica e experimenta no local a roupa. Fora a venda no passeio a cidade é também um vestiário a céu aberto. Caso para dizer: hoje já não se “dobra, embrulha e siga-me!”

 

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