A sustentabilidade financeira do partido ANAMOLA (Aliança Nacional para um Moçambique Livre e Autónomo) foi tema de debate este domingo, na cidade da Beira, província de Sofala, durante o seu primeiro Conselho Nacional (que termina esta segunda-feira), tendo como orador o antigo Presidente da Autoridade Tributária de Moçambique, o economista Rosário Fernandes.
Segundo Fernandes, o partido liderado por Venâncio António Bila Mondlane precisa fazer diferente e melhor que a Frelimo, devendo, para tal, adoptar, por um lado, a transparência e a cultura de prestação de contas e, por outro, recorrer a fontes de financiamento credíveis e auditáveis.
Conhecido pela sua verticalidade, o economista, que liderou por longos anos a entidade responsável pela colecta de impostos no país, revela que a principal fonte de receitas da Frelimo nunca residiu nas quotas dos seus membros, mas “na sua teia de investimentos empresariais, leais ou não, e outras fontes nunca reveladas, bem como nunca publicamente auditadas”.
Para Fernandes, que também liderou o Instituto Nacional de Estatística (INE) – foi retirado após desmentir publicamente os dados do recenseamento eleitoral de 2019, na província de Gaza, defendendo que os números da CNE só seriam atingidos em 2040 – o ANAMOLA precisa fazer diferente e melhor, de forma decisiva e determinada, “primando sempre as angariações, internas ou externas, por avaliações periódicas, de stocks e saldos, e de prestação de contas, conquanto transparentes, voluntárias e de boa-fé, dos diferentes contribuintes”.
“Mais vale mil vezes obter contribuições populares em praça pública do que alcançá-las de forma oculta, fraudulenta e por troca de favores e compadrios de natureza vária, de índole vil, nojenta ou criminal”, atirou, aconselhando o partido a primar “pelo seu valor ético e não comercial”.
No entanto, sublinha que não basta as quotas dos seus membros para manter o partido sustentável. É preciso ter linhas de investimento e parcerias inteligentes, um desafio que deve ser ultrapassado nos próximos dois a cinco anos. “Os factores de sustentabilidade vão desde as quotas regulares de base mensal de seus filiados e apoiantes, aos variados investimentos produtivos e parcerias inteligentes, dentro e fora do país, além de doações leais (sem contrapartidas), de origem vária”, considera.
“As quotas de filiados e apoiantes, de ampla intercomunicação electrónica, devem situar-se em pelo menos 51% da tabela anual de receitas da organização, cifra jamais alcançada pela própria Frelimo, desde a sua criação como partido político”, afirma Fernandes, sublinhando: “uma excelente carteira de filiados, a par de uma rápida, mas inteligente consolidação da carteira de activos patrimoniais, logísticos e financeiros, constituem a chave da sustentabilidade do ANAMOLA, a organização política mais nova e inovadora, quanto mais mediática, hoje, em todo o território nacional”.
Venâncio Mondlane foi o mais votado das eleições presidenciais
Na sua comunicação, Rosário Fernandes prestou “vénias” ao ANAMOLA, classificando esta formação política como um “partido inovador e propulsor de mudanças”. “Quando o parto é difícil é havido como difícil e de elevado risco, sob ameaças ao Bloco Operatório, então o recém-nascido se torna messiânico, viral e catapultador de protagonismo mediático, sendo caso de estudo para a literatura da saúde pública e comunitária”, defendeu, em referência à turbulenta legalização do partido.
Para Rosário Fernandes, o nascimento do ANAMOLA é o “prenúncio profético de grandes mudanças estruturais, com repercussão nacional, continental e internacional”. Compara a criação daquele partido com a fundação da Frente de Libertação de Moçambique, em 1962. Defende, aliás, que enquanto os partidos libertadores, como a Frelimo, o MPLA, o ANC, a ZANU, entre outros, enveredaram pela luta armada para alcançar o poder, o ANAMOLA e os seus “heroicos precursores” não precisaram de “soluções armadas”, nem de blindados ou de gás lacrimogéneo para alcançar o Conselho de Estado.
“Precisou apenas de uma solução digital, de elevado potencial comunicativo em rede, com suas bases populares de apoio, dentro e fora do país, para lograr retumbantes sucessos, no panorama nacional e internacional”, disse, defendendo que Venâncio Mondlane alcançou, nas eleições presidenciais de 09 de Outubro de 2024, “resultados históricos e fabulosos, que estremecem, sobretudo, a Frelimo, partido no poder”.
“Queira-se ou não, a força mediática dos precursores do ANAMOLA legitimou o PODEMOS (como seria a CAD, se aprovada pela CNE), como actual líder da oposição na Assembleia da República (AR), suplantando, de forma meteórica, a Renamo e o MDM, todos actuais pares do ANAMOLA na luta ideológica pelo poder político nacional. O Presidente Interino do ANAMOLA tornara-se o candidato presidencial mais votado nas urnas, embora validado e proclamado pelo Conselho Constitucional como o segundo mais votado, em veredicto solene e irrecorrível”, disparou.
Lembre-se que, em Abril de 2024, Rosário Fernandes criticou a “febre das inaugurações” do Governo de Filipe Nyusi, defendendo que grande parte das infra-estruturas são de baixa qualidade para o nível de gastos logísticos para movimentação dos governantes. Criticou ainda as viagens desnecessárias dos servidores públicos ao estrangeiro, mas que não trazem resultados para o país, além dos prejuízos económicos ao erário.
Rosário Fernandes é pai da Ministra das Finanças, Carla Louveira, que vem sendo aposta da Frelimo naquela área desde o segundo mandato de Filipe Nyusi, onde ela desempenhou as funções de vice-Ministra da Economia e Finanças.





