Director: Marcelo Mosse

Maputo -

Actualizado de Segunda a Sexta

26 de April, 2026

O “Xizivene” existe, mas o rio não é só político: Resposta a Adriano Nuvunga

Escrito por

Agradeço a Adriano Nuvunga a referência a uma passagem minha no texto do Eduardo Sengo, bem como o rigor com que levanta questões conceptuais pertinentes.

O debate público moçambicano precisa exactamente disto: de argumentos que se confrontem com seriedade. Mas precisamente por isso, importa responder com igual exigência.

Nuvunga critica a expressão “menos 1” por lhe faltar “densidade analítica”. Tem razão em sentido estrito, e é uma crítica que aceito com espírito de aprendizagem. Uma metáfora não é um modelo econométrico. Mas há uma diferença importante entre uma construção retórica vazia e uma simplificação deliberada com fins comunicativos. O “menos 1” nunca pretendeu substituir um diagnóstico institucional aprofundado: foi um ponto de entrada para um público alargado, tanto mais que foi numa entrevista.

O debate público, especialmente num país com os níveis de literacia económica de Moçambique, precisa de linguagem acessível. Exigir que toda a comunicação económica satisfaça os critérios de um artigo académico peer-reviewed é, paradoxalmente, uma forma de elitismo intelectual que afasta os cidadãos, os mesmos que Nuvunga, com toda a razão, quer ver incluídos num pacto político mais amplo.

É que por volta disto, eu como um bom Zambeziano não consigo encontrar no dicionário da língua portuguesa a palavra XIZIVENE , o que o Nuvunga a priori, assume que todos aqui falam Changana!

Concordo com a tese central de Nuvunga. A economia moçambicana está paralisada, em grau significativo, por défices de governação, captura do Estado e erosão da confiança. North tinha razão, as instituições são as regras do jogo. E quando as regras favorecem a extracção em vez da criação de valor, o crescimento genuíno é impossível.

Mas aqui reside o meu ponto de divergência: o argumento de Nuvunga desliza, perigosamente, do diagnóstico correcto para uma espécie de determinismo político, como se a crise fosse tão estrutural, tão total, que qualquer espaço para acção económica fosse ilusório enquanto a reforma política não estiver concluída.

Esta posição tem uma consequência prática preocupante: paralisa a acção técnica enquanto aguarda a perfeição política.

A imagem do Xizivene, o ponto mais fundo do rio, é poeticamente forte. Mas os rios têm fundo porque têm margem. A pergunta que Nuvunga não responde é: como é que se sai de lá? Se a resposta for “primeiro resolve-se a política, depois a economia”, estamos a propor uma sequência que nenhum país em desenvolvimento jamais conseguiu seguir de forma limpa. Rwanda, que o próprio Nuvunga cita, não resolveu a política antes de começar a crescer, cresceu enquanto construía instituições, de forma simultânea e mutuamente reforçada.

A centralização da importação do arroz que Nuvunga critica, e com a sua razão é exactamente o tipo de medida económica com consequências políticas directas. São essas contradições dentro do sistema que criam as fissuras por onde a reforma entra. Ignorá-las em nome de uma pureza analítica que separa “problema político” de “problema económico” é perder a oportunidade de identificar pontos de alavancagem real.

Moçambique pode estar no Xizivene. Mas os rios têm corrente, mesmo no ponto mais fundo. A questão não é esperar que alguém mude as regras do jogo por decreto, é identificar onde a corrente existe, e nadar com ela.

O debate que Nuvunga inicia é necessário. Que continue, com mais vozes, mais dados, e mais disposição para discordar em público.

O que o Nuvunga tem de perceber é que o meu é debate económico, minha praia, o dele é debate político. Quando você

se prostra à chuva para provar que um Embraer ERJ 145 poderia estar conectado a uma manga no aeroporto do Maputo, você não precisa de Ph.D. em aviação, o show é para Teatro Gungu e, brincadeira é no parquinho.

Em Moçambique, ainda é possível.

Visited 3 times, 3 visit(s) today

Sir Motors