Reportagem de Carta de Moçambique
Rosa escapou a duas tentativas de violação. José quase perdeu os braços num assalto. Judite passou tantas horas sem comer, à espera de utilizar computadores emprestados, que acabou por desenvolver problemas gastrointestinais, segundo o seu relato. Os três são estudantes universitários e partilham uma dificuldade que, à primeira vista, parece menos grave do que as suas consequências: não tinham computador próprio. Nesta sexta-feira, 30 de Outubro, a entrega de 1.787 equipamentos pelo Governo moçambicano a estudantes de Manica e Zambézia trouxe à superfície histórias que mostram como a exclusão digital pode ultrapassar as salas de aula e afectar a segurança, a saúde e a vida quotidiana de quem procura uma formação superior.*
Rosa Sabonete cresceu em Mocuba, na província da Zambézia, e perdeu os pais ainda cedo. Mudou-se para Quelimane para continuar os estudos, graças ao apoio de um tio materno que assumiu as despesas da sua formação. A morte do familiar num acidente deixou-a numa situação ainda mais difícil. Sem computador, precisava de permanecer fora de casa até tarde para concluir os trabalhos da faculdade. Foi nesses trajectos que enfrentou duas tentativas de violação. Na primeira, foi salva pela intervenção da polícia. Na segunda, um grupo de estudantes que também regressava a casa impediu que o ataque se consumasse. Os episódios deixaram-lhe marcas que persistem até hoje: Rosa tem medo das ruas escuras e evita andar sozinha por lugares pouco movimentados.
“Eu cresci em Mocuba, mas perdi os meus pais cedo e vim para Quelimane para estudar. O meu tio, irmão da minha mãe, dava-nos tudo, mas ele morreu num acidente e estudar ficou cada vez mais difícil. Já escapei duas vezes de ser violada ao regressar para casa altas horas da noite por não ter computador. Este meio acaba de me salvar”, contou Rosa, depois de receber um dos 966 computadores distribuídos na Zambézia.
José também conheceu os perigos das deslocações nocturnas. Residente num bairro periférico, dependia de colegas que viviam no centro da cidade para realizar os trabalhos que exigiam computador. Era frequente permanecer nas suas casas até tarde e enfrentar, no regresso, o risco de assaltos. Numa dessas ocasiões, segundo relatou, homens armados com catanas tentaram atingir-lhe os braços. Não sofreu uma amputação, mas continuou a viver com o receio de que uma noite de estudo pudesse terminar de forma irreversível.
Judite enfrentou outra espécie de privação. Proveniente de uma família de baixos rendimentos, não tinha dinheiro para comprar um computador nem para assegurar refeições durante as longas horas que passava fora de casa. Dependia dos equipamentos dos colegas e acompanhava-os, por vezes, até aos respectivos locais de trabalho, incluindo instituições públicas. Enquanto eles cumpriam as suas obrigações profissionais, Judite ficava encarregada dos trabalhos da faculdade, muitas vezes feitos em benefício de todo o grupo. Nem sempre tinha dinheiro para comer e, segundo o seu testemunho, acabou por desenvolver problemas gastrointestinais.
As experiências são diferentes, mas ajudam a perceber uma desigualdade que não se esgota na falta de meios informáticos. Para quem dispõe de um computador, preparar um trabalho universitário pode significar passar algumas horas em casa, diante de um ecrã. Para quem não o tem, a mesma tarefa pode exigir deslocações, dependência de terceiros e despesas que o orçamento familiar não comporta.
Todos devem ter oportunidades
Foi para reduzir esta distância que o Governo moçambicano lançou o programa “Um Computador, Um Estudante do Ensino Superior”, dirigido a estudantes de instituições públicas e privadas, com prioridade para áreas científicas e tecnológicas e para candidatos em situação de vulnerabilidade socioeconómica.
Nesta sexta-feira, a iniciativa chegou à Zambézia e a Manica, onde foram distribuídos, respectivamente, 966 e 821 computadores. As cerimónias decorreram na Universidade Licungo, em Quelimane, e na Universidade Púnguè, em Chimoio. Uma semana antes, outros 1.572 equipamentos tinham sido entregues em Sofala. No conjunto das três províncias, a distribuição envolveu 3.359 computadores.
O programa começou a concretizar-se em Abril de 2025, com uma primeira fase de cinco mil equipamentos destinados a estudantes de cursos de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática. A intervenção conta com o apoio do Banco Mundial e integra a política do Governo para a transformação digital do país.
No lançamento, o ministro das Comunicações e Transformação Digital, Américo Muchanga, dirigiu-se aos beneficiários para lhes recordar que o domínio da ciência e da tecnologia seria determinante para o futuro do país. “O nosso país conta com a vossa contribuição para que Moçambique possa ser uma nação competitiva”, afirmou.
A ambição do programa contrasta com uma realidade que continua marcada por profundas desigualdades no acesso às tecnologias. Segundo a União Internacional das Telecomunicações (UIT), em 2024, 79,9% dos moçambicanos com dez ou mais anos possuíam um telemóvel, mas apenas 20,5% da população utilizava a Internet. No mesmo ano, 84% dos habitantes encontravam-se em zonas cobertas por redes móveis de quarta geração.
Os indicadores medem realidades diferentes, mas ajudam a compreender por que razão a disseminação dos telemóveis não eliminou a necessidade de computadores. Consultar mensagens, acompanhar as redes sociais ou pesquisar informações num pequeno ecrã não oferece necessariamente as mesmas condições que programar, analisar dados, utilizar programas de engenharia ou preparar uma dissertação.
No lançamento do programa, Chidio dos Santos, representante dos estudantes, chamou a atenção para estas dificuldades, ao advertir que a falta de equipamentos comprometia a aprendizagem e limitava o acesso a ferramentas de simulação, plataformas de investigação e programas especializados.
A desigualdade não é exclusiva de Moçambique. Em 2025, segundo a UIT, apenas 36% da população africana utilizava a Internet, contra 74% a nível mundial. A diferença entre as cidades e as zonas rurais era igualmente expressiva, com taxas de utilização de 55% e 21%, respectivamente.
A UNESCO, no Relatório Global de Monitorização da Educação de 2023, reconhece o potencial das tecnologias para ampliar o acesso ao conhecimento, embora sublinhe que a disponibilização de equipamentos deve ser acompanhada de conectividade, formação dos professores e integração nas actividades de ensino. Um computador não resolve, por si só, os problemas do ensino superior, mas a sua ausência pode constituir um obstáculo concreto à aprendizagem.
Em Moçambique, o Governo tem procurado responder a esta dificuldade através da distribuição de equipamentos e de outras intervenções de inclusão digital. Num balanço divulgado esta semana, Américo Muchanga apontou para 19.454 computadores distribuídos a estudantes do ensino superior, 418 escolas ligadas à Internet e 20 praças digitais criadas.
O primeiro computador da família
Rosa Sabonete não recebeu apenas o primeiro computador da sua vida. Recebeu o primeiro de uma casa onde vivem também a irmã mais nova e os primos, num agregado familiar que, até então, nunca tivera um computador. A mãe de Rosa deixou quatro filhas, e a estudante conhece desde cedo o peso de crescer numa família onde os recursos são escassos. O equipamento entregue pelo Governo tem uma destinatária oficial, mas poderá servir também os outros jovens que partilham a mesma casa, seja para realizar trabalhos escolares, fazer pesquisas ou aprender a utilizar programas informáticos.
É esta a dimensão que os números da distribuição não revelam. Numa família onde cada pessoa tem o seu computador, um novo equipamento representa sobretudo uma vantagem individual. Na casa de Rosa, significa que vários jovens passam a ter acesso a uma ferramenta que antes nenhum deles possuía. O número de computadores distribuídos continua a ser 1.787, mas o universo de pessoas que poderão beneficiar deles não termina necessariamente nos estudantes contemplados.
A UNESCO chamou a atenção para esta desigualdade no Relatório Global de Monitorização da Educação de 2023. Segundo os dados apresentados pela organização, em 2020 apenas 46% dos agregados familiares do mundo tinham um computador em casa. Mais de metade das famílias não dispunha, portanto, desse equipamento, numa altura em que a pandemia tornou o ensino à distância uma necessidade para milhões de estudantes. O relatório mostra ainda que as famílias economicamente favorecidas conseguem adquirir tecnologias mais cedo, acumulando vantagens educativas que tendem a reproduzir as desigualdades existentes.
Em Moçambique, a distância entre o acesso às telecomunicações e a utilização efectiva de computadores também aparece nas estatísticas. A União Internacional das Telecomunicações registava, em 2017, que apenas 5,22% dos indivíduos utilizavam um computador. Embora o indicador seja antigo e não permita descrever a situação actual, ajuda a compreender a dimensão histórica de uma desigualdade que os testemunhos dos estudantes mostram continuar presente no ensino superior.
O significado de um computador muda conforme a casa onde chega. Numa família em que cada membro possui o seu equipamento, a aquisição de outro representa sobretudo uma melhoria individual. Numa casa onde dez pessoas dependem da mesma máquina, a sua utilização tem de ser repartida entre necessidades escolares, profissionais e pessoais. E, quando nunca existiu computador algum, o primeiro equipamento pode abrir oportunidades que anteriormente obrigavam os estudantes a recorrer a colegas, instituições ou serviços pagos.
Os 1.787 computadores entregues em Manica e Zambézia correspondem a igual número de estudantes directamente contemplados, mas não estabelecem um limite para os seus possíveis utilizadores. Não seria rigoroso multiplicar os equipamentos pelo número médio de pessoas por família e apresentar o resultado como beneficiários efectivos, porque a utilização partilhada ainda não foi medida. O caso de Rosa mostra, contudo, por que razão essa possibilidade merece atenção: o computador que lhe permite estudar com maior autonomia poderá também acompanhar o percurso escolar da irmã e dos primos.
Para famílias como a sua, a inclusão digital pode começar com uma única máquina. O seu impacto dependerá da utilização que lhe for dada, mas a mudança inicial é concreta: pela primeira vez, existe um computador em casa.
Para Rosa, José e Judite, a importância do computador é ainda mais imediata. Não se trata apenas de ter acesso a programas informáticos ou bibliotecas digitais. Trata-se de poder realizar trabalhos sem depender permanentemente dos colegas, reduzir deslocações nocturnas e organizar os estudos sem sacrificar necessidades básicas.
Rosa resumiu essa diferença numa frase, depois de receber o equipamento: “Este meio acaba de me salvar. Desta forma, o Governo do Presidente Chapo está a resolver problemas concretos, de pessoas de famílias pobres como eu”.
Não é uma descrição técnica das vantagens de um computador. É a maneira como uma estudante, que perdeu os pais, o familiar que a sustentava e por duas vezes precisou da intervenção de terceiros para escapar a tentativas de violação, compreende o significado de poder estudar sem ter de enfrentar os mesmos riscos.
Os 1.787 computadores entregues em Manica e Zambézia representam uma nova etapa de um programa nacional de inclusão digital. Para os estudantes que até agora dependiam de equipamentos alheios, podem representar também uma mudança menos visível, mas profundamente concreta: a possibilidade de estudar em casa, com maior autonomia e segurança.
(Carta de Moçambique)





