Acontece quase todos os dias, na rotina matinal ou no cansaço do fim de tarde, na travessia que nos leva e traz da cidade de cimento. Estamos no “chapa”, o olhar fixo na paisagem ou no cansaço do vizinho, quando o gesto mecânico e deplorável se consuma: uma garrafa plástica, uma lata vazia ou um pacote de bolachas são atirados, sem hesitação, pela janela fora.
Há poucos dias, vivi essa cena de forma demasiado próxima. Eu ocupava o banco ao lado da janela. A garrafa de um refrigerante atravessou o meu campo de visão, vinda do passageiro ao meu lado. Tentei esboçar um gesto de travão, uma palavra que impedisse o acto, mas já era tarde. O plástico já rolava pelo asfalto da Ka-Tembe.
Olhei para a senhora e limitei-me a dizer, num tom calmo, que poderia ter guardado o lixo para o deitar fora quando descesse do transporte. A resposta não veio por palavras, mas por um olhar de profundo desdém. Um olhar que carregava uma filosofia perversa e perigosamente colectiva: “Se a estrada já está suja, e se tantos outros já deitaram antes de mim, por que haveria eu de fazer diferente?”
Esta postura deixa profundamente a desejar. E obriga-nos a uma reflexão desconfortável sobre quem somos e o que estamos a fazer da Ka-Tembe. O choque é, acima de tudo, um soco no estômago visual. Não escrevo isto para defender, de forma cega, as gentes nativas da Ka-Tembe. Até porque eu próprio não sou nativo da Ka-Tembe. Faço parte, tal como milhares de outros, do grupo de “vientes” — aqueles que cruzaram a baía em busca de espaço, de paz e de um lugar para erguer a sua residência.
Quando iniciei a obra da minha casa, em Maio de 2021, a Ka-Tembe que me acolheu não tinha a imundície que hoje salta aos olhos em quase todas as esquinas. O distrito ainda não se ressentia da alta ocupação e mantinha uma pacatez que se reflectia também na limpeza das suas vias.
A verdade, nua e crua, é que nós, que viemos do outro lado da ponte, fomos extraordinariamente bem recebidos, mas trouxemos connosco uma bagagem cultural negativa e profundamente anti-urbana. Parece haver uma correlação matemática assustadora: quanto mais ocupamos a Ka-Tembe, mais a deixamos suja. Exportámos os maus hábitos da cidade de cimento — o desleixo com o espaço colectivo, a mentalidade do “alguém há de limpar” e o desprezo pelo ambiente — e plantámo-los nesta bela terra. Antes da nossa chegada massiva, estes comportamentos não eram a regra aqui.
Neste cenário de desleixo, urge também convocar a responsabilidade daqueles que operam o transporte público. Os motoristas e, muito especialmente, os cobradores de “chapa” não podem continuar a ser espectadores passivos da transformação das suas viaturas em pontos de lançamento de projéteis de lixo. É imperativo que os transportadores assumam a gestão ambiental a bordo. Que se instalem pequenos recipientes ou sacos de lixo no interior dos veículos e que os cobradores eduquem e apelem activamente aos passageiros para que guardem os seus resíduos. O “chapa” não pode ser uma extensão da lixeira; tem de ser um espaço de civismo em movimento.
Culpar apenas o município pela falta de contentores nas ruas é um argumento fácil que serve para mascarar a nossa própria falta de educação elementar. O crescimento populacional e o desenvolvimento imobiliário são inevitáveis e bem-vindos. Contudo, a vinda de novos moradores não pode significar a degradação moral e higiénica do nosso distrito.
Este é um dos maiores e mais urgentes desafios modernos da Ka-Tembe: a necessidade de se reinventar, de criar mecanismos de fiscalização comunitária e de combater activamente esta postura deplorável. Precisamos de urbanizar as nossas mentes antes de pretendermos urbanizar o território. Caso contrário, a ponte terá servido apenas para estender a nossa própria decadência a uma margem que merecia um destino muito melhor.




