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26 de October, 2026

CRÓNICA SOBRE A “DESCOBERTA “ DE MAPAI E CHICUALACUALA – 3

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Mapai – Estação

A localidade de Mapai-Rio, segundo o Google consultado a 26 de Setembro passado, nasceu da geografia do Limpopo e das rotas terrestres da região. Fica na margem esquerda do rio e era um ponto de passagem para quem seguia em direcção a Pafuri. Depois veio a ferrovia.

A linha férrea foi esticada para a região norte de Gaza na década de 1950, passando a cerca de 17 quilómetros a norte da localidade de Mapai-Rio/Ngala, chegando à então Malvérnia, hoje Chicualacuala, em 1955. Com ela, apareceu uma nova povoação associada à ferrovia: a localidade foi designada São Jorge do Limpopo, provavelmente em homenagem ao engenheiro que se destacou na construção da linha férrea, e, após a proclamação da independência nacional, passou a chamar-se Mapai-Estação!, nome através do qual é conhecida hoje.

Dado importante. O nascimento da ferrovia e da estação São Jorge do Limpopo não matou nem a importância, nem a essencia de Mapai-Rio, ou Mapai-Ngala. Mesmo com a ferrovia, o movimento de pessoas e bens continuou/a para lá, de alguma forma notável, mais por causa da estrada de ligação a Pafuri e por causa do comércio e da travessia do rio Limpopo. Muito importante isto: nenhum Mapai matou o outro. Ou, se quisermos, temos ali dois Mapais a complementarem-se e a conviverem lado a lado! E temos ali um Mapai. Inicialmente, Mapai foi parte do Distrito de Chicualacuala, como Posto Administrativo; mas, em 2016, passou a distrito autónomo, com dois postos e uma população estimada em 30 000 habitantes, segundo a AdministradoraMaria Helena Langa.

De acordo com a timoneira do Distrito e dados oficiais, a população do Distrito de Mapai vive de agricultura, pecuária, pesca, recursos naturais e faunísticos e… da ferrovia! Na agricultura, exploram mais o milho, algures nas margens do rio Limpopo; na pecuária, Mapai é dos distritos maiores detentores de gado bovino de Gaza, com cerca de 50.000 cabeças; mas também tem gado caprino, asninha (burros) e ouvino)! Nos recursos naturais, explora-se muito a madeira (nsibiri, na língua Xangana), estacas muito abundantes naquelas bandas e que são vitais na construção de micro e macro infra estruturas domésticas como casas de caniço, esplanadas ou vedações – nem sei porque sempre recorremos ao pau sul-africano para erguer as nossas esplanadas… Nas palavras da Administradora Langa, “as pessoas daqui têm muito gado; há pessoas com mais de mil, 3 mil, muitas outras com acima de trezentas cabeças…” Maywako… como se diz em Xangana que “bem aventurado/a está tal pessoa/indivíduo com tantos animais”. A ferrovia permite um vai-e-vem de comerciantes, o que hoje chamamos de mukheristas ou magwevas: uns a comprarem mercadorias diversas em Maputo (ou noutro sítio cá no sul) e a irem revender por lá; e outros a comprarem produtos por lá (como carnes, estacas, etc.) e a virem vender cá no sul até Maputo.

Screenshot

A volta à vila de Mapai, conduzida pessoalmente pela própria Administradora de Mapai – muito obrigada Mana Helena Langa -, mostrou-nos um distrito em crescimento, com vida e um dinamismo acima do normal, quando comparado com outras sedes distritais do país (no meu espaço no Facebook, publiquei, a 25/09/25, uma crónica com o título “…tadinhas das nossas vilas-sedes distritais e não só!” em que falo da muito pálida imagem de grande parte dos nossos distritos, sobretudo das suas sedes. Convido-o a dar uma passeata por esse texto. Mapai é, diga-se em abono de verdade, uma urbe em expansão. Logo à entrada, a fresca pintura de várias construções/instituições, muros, resplandecente, viva, chama grande atenção ao chegante. Não é em muitas sedes distritais que você é recebido com uma série de edifícios e muros com pinturas em dia, ainda cheirando à tinta, novas construções em todo o lado, cada vez mais e melhores infraestruturas (há dias, inaugurou-se, em Mapai, o novo Comando Distrital da Polícia com características de um Comando Provincial); há um matadouro em acabamentos, o próprio Governo Distrital está a usufruir de novos e modernos edifícios, resplandecentes. E quem pretenda visitar a vila-sede de Mapai que esteja completamente à vontade que encontrará lá locais de acomodação condignos, que não devem nada a muito de… Maputo! Mas que esteja preparado para não ter uma noite silenciosa, tranquila, de sono profundo: Mapai é uma estação ferroviária… a qualquer hora da noite, está a chegar ou partir um comboio para qualquer dos sentidos (norte-sul, ou o contrário); muitas vezes chega/parte às 2 ou 3 horas da madrugada e o barulho afecta toda a pequena vila-sede distrital e mais alguma coisa. Aquele barulho dos comboios ultrapassa as distâncias! Se só o som das turbinas é algo ensurdecedor, o das buzinas então… Quase não se dorme nos dias de comboios, as pessoas a tentarem vender todas as suas mercadorias, incluindo as barracas que ficam à espera o tempo todo do comboio que eventualmente traz passageiros com vontade colossal de satisfazer o estômago. A música e o barulho a acompanharem o ambiente sempre. Chega a parecer um daqueles dias de feiras em algumas das nossas cidades… incluindo a nossa FACIM!

O dinamismo que se observa na vila-sede de Mapai e a limpeza – a sede do distrito ostenta uma limpeza fora de comum – retira da memória os grandes ataques das forças rodesianas que chegaram a ocupá-la por algum tempo. Os relatórios apontam que as tropas de Ian Smith destruíram a estação ferroviária de Mapai, a linha férrea, instalações públicas, casas, transportes, até gado bovino… destruições de grande escala, imagine-se. Mas os sinais, esses, hoje, é preciso procurá-las, não são tão exuberantes como em Mapai-Rio/Ngala, em que as ruínas gritam para os teus olhos e mente e as pessoas, incluindo jovens, convivem ou vivem por entre elas. Houve um grande processo de reconstrução/reposição em Mapai-Estação! E a vida está ali, toda a florescer e a fluir (naquela sexta-feira, o distrito estava todo em festa, em êxtase total… sim, era dia 25 de Setembro; mas aquela exuberância, festividade, calor, entusiasmo foi qualquer coisa extraordinária para os meus olhos – não só acontece aos 25 de Setembro, ou de Junho; mas sempre que uma locomotiva lá se faz!

O grande desafio continua a ser a água potável, a quantidade e a qualidade, apesar dos progressos alcançados. A população vive de furos de água, muitas vezes de qualidade complicada para a saúde humana. A que vive  a 60 km de distância da vila-sede enfrenta a problemática de teor de sal no lençol freático. Mas o trabalho está a ser feito pelas autoridades para se providenciar este bem essencial à vida humana.

E o desafio que se nos coloca a todos nós, moçambicanos, e sobretudo aos que controlam a concepção, produção e implementação de políticas públicas, neste caso sobre a área agropecuária, é como transformar um distrito em que a estatística diz que é dos maiores criadores de gado bovino em um distrito com verdadeira “independência econômica”, o slogan que está na moda hoje?

Vamos trabalhar de verdade!…

(Continua)

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