Director: Marcelo Mosse

Maputo -

Actualizado de Segunda a Sexta

3 de March, 2026

Zinha: uma heroína desconhecida

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A cidade ainda estava de joelhos. A água, essa, já tinha recuado, mas não sem deixou marcas em tudo, desde paredes, ruas e, sobretudo, no semblante carregado de um exército de pessoas desterradas e impotentes.

Havia, com razão excessiva, um silêncio estranho na Beira. Um silêncio de quem ainda não sabia por onde começar e que carregava o medo no corpo. Eu, nesse entretanto, estava a conduzir ao redor da Praça do Município.

Cheguei logo depois que o ciclone abrandou e permitiu os primeiros voos: saí com o Rui Lamarques e o Evito Andrade para a Beira. Precisávamos de ver com os nossos próprios olhos, pois a Fundação que dirijo trabalha com dados primários, com relatos do terreno e uma imagem mais nítida da tragédia. Em suma: não tomamos decisões a partir de rumores.

Com base nisso uma equipa de voluntários saiu de Maputo por estrada, a acompanhar um camião com 20 toneladas de arroz. Só que, para infortúnio dos mais necessitados, a estrada estava cortada. Os voluntários começaram a distribuir o arroz por Búzi e partes da província de Manica, porque simplesmente não se chegava à Beira.

Não havia hotel por se acomodar. Conseguimos um “ Escondidinho” para os meus dois amigos. Eu ainda sou daqueles do “ último no benefício”, mais tarde consegui sala na casa do casal Yasser e Sauda, foi o meu hotel. Os outros dois quartos estavam estragados então era sala mesmo!

Esse era o cenário e foi então que a vi. Uma menina pequena a atravessar a estrada sozinha. Não corria, não chorava e, apesar do cenário de tragédia, não parecia perdida.

Levava livros nos pequenos braços. Livros molhados. Parei o carro e fiquei ali especado a observá-la. Vinha do armazém onde a família estava abrigada temporariamente. Atravessou a estrada com cuidado, sentou-se no chão, ali mesmo, ao sol, e começou a abrir os livros página por página, tentando separá-las para secarem.

Aproximei-me. Sentei-me ao lado dela, perguntei-lhe o que estava a fazer. Olhou-me com uma naturalidade que me desarmou e disse: “Estou a secar os livros. Quero ir à escola amanhã.”

A casa tinha desaparecido, dormia num armazém, numa cidade que, por aquela altura, estava destruída. Sem um tecto, sem uniforme e com as escolas que estavam em pé encerradas a sua maior preocupação era a escola no dia seguinte. Naquele momento, senti algo que não consigo explicar totalmente: não foi pena, mas algo como peso da responsabilidade.

Ali percebi que não estávamos apenas perante uma emergência humanitária. Estávamos perante uma geração que precisava de muito mais do que comida e abrigo temporário. Precisava de estabilidade, de futuro e de chão firme para poder sonhar sem medo.

Foi a Zinha que me abriu os olhos. Enquanto ela alisava as páginas com cuidado, eu pensava: não pode haver crianças a atravessar estradas para secar livros porque não têm casa. Não pode haver famílias a viver indefinidamente em armazéns. Não pode haver estudantes que dependam do sol para salvar o ano lectivo.

Saí dali e fui ao encontro dos pais da Zinha no armazém. O que encontrei foi simplesmente desolador. Chorei que nem uma criança. A minha esposa costuma dizer (e existe vídeo) que nunca me tinha visto chorar.

Foi ali que a decisão deixou de ser técnica e passou a ser moral. Não seriam apenas algumas casas.

Seriam milhares. Não seriam apenas reparações pontuais. Seria reconstrução com dignidade.

Quando gritei ao mundo dos nossos voluntários, em poucas semanas estávamos nos distritos de Sofala. Visitámos centros de reassentamento, vimos 72 escolas destruídas, pelo menos as que conseguimos alcançar. Eu sabia que não reconstruiríamos apenas quatro aldeamentos. Sabia que o compromisso seria maior.

O projecto das 3.000 casas e das 23 escolas começou naquele chão, ao lado de uma menina com livros molhados.

Apresentei o projecto na sede das Nações Unidas e recebi muito suporte técnico. Quando o trouxe para Moçambique, aconselharam-me pau-a-pique melhorado. Mas, definitivamente, não era isso que desejávamos. Nós queríamos uma construção que marcasse um antes e um depois. Que, para além de abrigar, devolvesse dignidade, que dissesse às pessoas: “Vocês importam.”

Hoje, quando vou a Kura e vejo a Zinha já crescida, a viver numa das casas da Fundação Tzu Chi, sinto algo difícil de descrever.

Vejo paredes sólidas. Vejo segurança.

Vejo normalidade, aquela normalidade que muitos consideram banal, mas que para quem perdeu tudo é um milagre silencioso.

E penso naquele dia, naquela travessia de estrada. Zinha talvez nunca tenha imaginado que, ao tentar salvar os seus cadernos, estava a desencadear um dos maiores projectos de reconstrução deste país. Mas foi isso que aconteceu.

Às vezes perguntam-me como nasceram as 3.000 casas e as 23 escolas. Eu respondo sempre com honestidade: Nasceram de uma menina que queria ir à escola no dia seguinte. Eu apenas fiz o que qualquer adulto responsável devia fazer quando vê uma criança a lutar pelo seu futuro. Sentei-me ao lado dela e nunca mais me levantei dessa responsabilidade.

Por isso, não se macem em apontar para Cabo Delgado, Zambézia, Tete ou Maputo. Ninguém nos apontou para Sofala. Chegámos a Nampula e perguntámos ao Governo: “Como podemos ajudar?”

Lembro-me do então Ministro da Terra e Ambiente, Celso Correia, e da Directora-Geral do INGC, Maíta, dizerem-me no aeroporto da Beira: “Dino Foi, leva a tua equipa. Acampem em Nhamatanda.”

Não acampámos em Nhamatanda. Trouxemos Búzi, Dondo e Beira para dentro do nosso projecto.

O reassentamento de populações não é improviso. É ciência.

Primeiro, salvar vidas — retirar as pessoas das zonas de perigo.

Segundo, garantir abrigo, comida e meios de subsistência temporários.

Terceiro, quando as águas recuam, distribuir kits de retorno e sementes.

Quarto, assegurar que existem áreas altas para reassentamento definitivo, com pelo menos um hectare para subsistência.

Quinto, construir infra-estruturas que impeçam o regresso às zonas de risco.

Não existe fórmula mágica. Mas estas são, em linhas gerais, as etapas que seguimos numa emergência.

Para os que dizem não saber como fazer, aqui está o diagrama.

Não esperemos por mais uma Zinha para decidir ajudar o próximo.

E não precisam de uma Fundação Tzu Chi Moçambique para descobrir onde podem agir. O país não tem mãos suficientes para cuidar de todos os necessitados. Cada ajuda conta — individual ou colectiva.

Em Moçambique, ainda é possível.

E às vezes tudo começa com uma criança a atravessar a estrada com livros molhados nos braços.

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