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22 de January, 2019

A liberdade dos corvos

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Deixo as pessoas que amo, livres. Se voltarem é porque as conquistei, se não voltarem é porque nunca as tive – Bob Marley

 

Pode ser que eles sejam alguns dos arautos de Belzebuth (nome hebraico que tem referências na bíblica em como sendo o próprio diabo). Na última sexta-feira e sábado (18 e 19 de Janeiro de 2019), os ventos na cidade de Inhambane, de acordo com as informações do Instituto Nacional de Meteorologia (INAM), sopravam a uma velocidade média de 90 quilómetros. E eu estou sentado à varanda da minha pequena casa assistindo ao espectáculo dos corvos. Uma celebração à liberdade. Um gozo. Também um agradecimento a Deus por terem sido concebidos com asas.

 

É um bando. Se calhar vários bandos planando e grasnando no seu cântico sinistro. Os corvos também cantam. Músicas que ninguém deseja ouvir, muito menos dançar. Mas o que conta para eles, ao que parece, é estarem em liberdade. Planando sem escolhos no seu percurso. E aí estão eles lembrando-me um treinador de rugby que chama para o campo o jogador que seria a sua última cartada numa partida decisiva prestes a terminar e diz assim para ele: tens asas? Use-as! E estes corvos que povoam este pequeno espaço sideral que se estende no meu horizonte, usam as asas em pleno.

 

Há uma simbiose. Entre a canção do vento, a música dos corvos e o entusiasmante hulular das palmeiras que por vezes metamorsea-se e uiva como os mabecos em cio. Então o melhor que devo fazer perante esta poesia caudalosa é continuar em silêncio, sentado numa cadeira de palha. As aves de mau agoiro elevam-se ao infinito para depois deixarem-se ao sabor do vento em acrobacias alucinantes. “Caem” como paraquedistas em queda-livre e quando chegam perto da copa das gigantescas árvores fartas de cachos de coco, fazem um voo rasante e depois sobem de novo ao Céu. Que belo show!

 

Não são estes os corvos da Índia. Capazes de criar pânico numa esplanada onde há comensais, com o intuito de serem eles os devoradores das iguarias. Estes que estão no meu horizonte não têm a sagacidade daqueles. São cobardes. Atacam os fracos. E fogem ao mínimo estalido. Mas no fundo são corvos e cantam as canções dos verdugos.

 

De repente vejo um homem trepando uma daquelas palmeiras que dançam a sinfonia do vento. Tem uma cabaça pendurada no braço direito e segura uma faca. Vai extrair sura, essa bebida alva venerada pelos bitongas. Ele não tem medo do vento. Quando a árvore dança para um lado, ele dança com ela. Quando se move para o outro lado, ele também vai para lá. É um personagem que traz na alma as suas próprias melodias, que as mistura com as do vento e das palmeiras. E foi nesse momento que as aves se demarcaram. No lugar de planar, bateram as asas em retirada, grasnaram em catadupa, rindo-se do homem que ia para as alturas sem asas. 

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