Quem viaja no assento da frente de um chapa, na rota Anjo Voador-Marinha, não viaja apenas de um ponto ao outro da Ka-Tembe; viaja num autêntico gabinete de análise social e política. É ali, ao lado de quem segura o volante e enfrenta os solavancos do abandono, que se escuta o verdadeiro pulsar da nossa comunidade. Recentemente, após a chuva que marcou o último fim-de-semana longo, de 5 a 7 de Setembro, o cenário regressou ao caos habitual: um mar de lama e buracos profundos que transforma a nossa estrada numa prova de obstáculos destrutiva.
Compreendo e considero legítima a atitude dos transportadores privados que, nestes dias pós-feriado, retiram os seus carros de circulação ou operam “a conta-gotas” para preservar o seu património. Ninguém em sã consciência colocaria o seu veículo — ganho com suor — para ser conscientemente destruído por uma via intransitável. O resultado? A carência imediata de transportes que penaliza os munícipes no regresso à rotina laboral.
Numa conversa cordial e adulta, o motorista desabafou: “estas chuvas estão a nos tramar, os nossos carros estão a ir embora. Aqui nós só estamos a fazer favor à população, porque esta estrada não dá para nada.” Consenti com a cabeça, enquanto recordava a hipocrisia cíclica da nossa gestão municipal.
A estrada da Marinha só conheceu máquinas quando o Presidente da República, Daniel Chapo, visitou a Ka-Tembepara inaugurar o Centro de Pescas da SADC. Naquela habitual e voluntariosa cosmética de mostrar serviço apenas para o topo da governação, o município nivelou a via e abriu ruas onde antes só havia capim. O “chefe” passou, os aplausos se fizeram ouvir, a comitiva regressou à cidade de Maputo e, desde então, o rosto do município nunca mais foi visto a mexer uma única palha na Marinha.
Mas foi antes de eu descer que o motorista lançou a pergunta que me deixou a reflectir profundamente: “será que alguém terá coragem de vir fazer campanha eleitoral aqui na Marinha? Aqui devíamos mandar embora essa gente quando chegar a vez da campanha. Não faz sentido que uma estrada aqui na boca da cidade esteja nestas condições… Não queremos muito, mesmo entulho podiam vir deitar nesta estrada para garantir que os transportes façam o seu trabalho.”
A proposta do motorista é de um pragmatismo doloroso. No entanto, o diagnóstico que faço é ainda mais gravoso: perdeu-se completamente a vergonha. Quando o calendário eleitoral ditar, as mesmas figuras que hoje ignoram a lama virão à Marinha vestidos a rigor para distribuir promessas de mundos e fundos para garantir o voto. É um ciclo vicioso onde as gentes da Ka-Tembe, na sua santa bondade e resiliência, correm o risco de voltar a confiar os seus destinos a quem há muito os votou ao esquecimento, mesmo estando nós nas barbas da capital do país.
Para adensar a ironia, quis saber do motorista sobre o muito falado Vereador Municipal do distrito. A resposta foi um murro no estômago. O motorista apontou com o dedo a direção da residência do homem: “ele nasceu aqui mesmo.”
É profundamente perturbador constatar que um “filho da terra”, hoje sentado num lugar privilegiado de tomada de decisão, assista diariamente à degradação da sua própria “casa” e continue sereno, blindado pela inércia burocrática. Diz o ditado popular que “santos da casa não fazem milagres”. Mas a Ka-Tembe não está a pedir milagres; pede apenas o mínimo de respeito, dignidade e, se a vergonha já não existir, que nos tragam ao menos o entulho para podermos circular com alguma dignidade.
Até quando continuaremos a viver de “favores” e de cosmética para governante ver?





