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15 de October, 2025

Entre Smart Health e Utomi

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Passeando pela cidade, é possível encontrar farmácias que parecem viver em mundos diferentes, ainda que erguidas a poucos metros de distância. De um lado, a Farmácia Smart Health, com o seu inglês brilhante e cosmopolita, prometendo saúde inteligente, moderna, quase tecnológica. Do outro, a Farmácia Utomi, que em xangana significa “vida”, oferecendo o essencial de forma directa, sem ornamentos.

Os nomes são duas janelas para mundos sociais distintos. A Smart Health aposta na globalidade. Ela escolhe uma língua estrangeira, associa-se ao prestígio do inglês e à promessa implícita de inovação. O letreiro não fala só de comprimidos, fala de estar actualizado, de acompanhar a marcha do mundo moderno. É aspirina e passaporte ao mesmo tempo.

A Utomi, pelo contrário, ancora-se na cultura local. O nome evoca a vida como experiência partilhada, enraizada na língua do dia a dia. Não precisa de adornos; basta uma palavra curta e absoluta. Quem entra ali não procura modernidade importada, procura a proximidade de um lugar que fala a sua língua, quase como quem diz: “aqui cuidamos de ti como em casa”.

O humor surge no contraste. Enquanto a Smart Health pode fazer sorrir pela distância entre o nome sofisticado e o balcão modesto, a Utomi arranca um sorriso cúmplice pelo excesso da promessa. A vida não se vende em comprimidos, mas o letreiro finge que sim. Ambas, à sua maneira – tal como a cerveja nacional – transformam o acto de comprar medicamentos em algo maior que uma simples transação. Não diz o nosso Ministério que a vida é o nosso maior bem? Eu teria dito que a saúde é que é o nosso maior bem, mas não vou implicar com estruturas.

O que vemos, então, não são apenas duas farmácias, mas duas filosofias de comércio. Uma, virada para fora, ansiosa por se inserir num mundo globalizado onde tudo é “smart”. Outra, virada para dentro, confiante de que a língua e a cultura locais bastam para dar legitimidade ao negócio. Entre elas, o cliente escolhe não apenas onde comprar, mas também em que mundo social deseja inscrever-se, no da modernidade global ou no da pertença comunitária.

Talvez seja esse o encanto do comércio popular à nossa maneira. Na chapa pintada de cada letreiro cabe não só um produto, mas um pedaço de identidade colectiva. E entre Smart Health e Utomi, entre a promessa global e a palavra local, vai-se desenhando o mapa sociológico de uma cidade inteira. Estas duas farmácias encontram-se numa cidade onde no mercado, com toda aquela informalidade conhecida, circulam pessoas em camisetes que ostentam Gucci, Hugo Boss, Prada, Armani e por aí fora. Não é a nossa maneira de nos inserirmos em mundos que não nos pertencem. É a nossa maneira de integrar esses mundos no nosso imaginário. Desse modo, ficamos donos da narrativa.

Nós somos modernos antes mesmo de existir o termo!

 

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